Os dias da criação eram de 24 horas?
A palavra hebraica *yom* significa mesmo "dia" — e é usada em Gênesis 1 com "tarde e manhã", o que puxa forte para o dia comum.
Toda língua tem o que não sobrevive à tradução palavra por palavra, e o hebraico bíblico tem bastante. Estas são as passagens em que conhecer o termo original não é curiosidade: é o que resolve a dúvida.
30 explicações neste tema.
A palavra hebraica *yom* significa mesmo "dia" — e é usada em Gênesis 1 com "tarde e manhã", o que puxa forte para o dia comum.
O plural está mesmo lá, e não é erro de tradução. O que quase ninguém repara é que o verbo que introduz a frase está no **singular**: “E disse Deus”, não “disseram”. O mesmo versículo termina com “à sua imagem” no singular, dois versículos adiante.
Gênesis não diz. O texto chama a criatura de "serpente", classifica-a entre "os animais do campo que o SENHOR Deus havia feito" e não menciona Satanás em lugar nenhum — nem aqui nem no resto do livro.
A frase "Adão conheceu a sua mulher Eva" costuma provocar dois tipos de reação em quem lê pela primeira vez: acham graça do eufemismo, ou desconfiam que a tradução está suavizando alguma coisa mais crua. Nenhuma das duas reações acerta o alvo.
Quase toda tradução em português verte a expressão hebraica bene ha-elohim de forma literal — "filhos de Deus" — e é exatamente essa literalidade que abre o problema, porque a mesma expressão, em Jó 1:6 e 38:7, designa claramente seres celestiais reunidos diante de Deus.
A tensão é real e a própria Bíblia a coloca: Números 23:19 diz que Deus “não é filho de homem para se arrepender”, e 1 Samuel 15 usa o mesmo verbo duas vezes no mesmo capítulo — uma dizendo que Deus se arrependeu de ter feito Saul rei, outra dizendo que Deus não se arrepende.
Gênesis 10 lista os descendentes de Sem, Cam e Jafé depois do dilúvio, organizando os povos conhecidos do mundo antigo numa única árvore genealógica comum. A tradição rabínica, seguida por boa parte da leitura patrística cristã, conta setenta nomes nessa lista — e é esse número, não setenta e um nem sessenta e nove, que depois ecoa noutros textos: as setenta pessoas da casa de Jacó que descem ao Egito, os setenta anciãos que dividem o Espírito com Moisés, os setenta discípulos enviados por Jesus em Lucas 10.
Depois de resgatar Ló e derrotar uma coalizão de reis, Abrão recebe do rei de Sodoma uma proposta: fique com os bens, devolva as pessoas. Abrão recusa, e a razão que dá começa assim: "Levantei minha mão ao SENHOR Deus altíssimo... que nada tomarei de tudo o que é teu".
O hebraico é *ehyeh asher ehyeh*, e o verbo hebraico não tem tempo presente do jeito que o português tem. A mesma forma pode ser traduzida por "eu sou o que sou", "eu serei o que serei" ou "eu serei o que sou".
O hebraico nunca chama este texto de "mandamentos". A expressão usada em Êxodo 34:28 e Deuteronômio 10:4 é aseret ha-devarim — literalmente "as dez palavras", ou "as dez coisas/matérias". É daí que vem o termo grego posterior "Decálogo".
O versículo é o texto mais citado do Antigo Testamento nesta discussão, e a maior parte do debate público sobre ele mistura duas perguntas que precisam ser separadas.
A bênção sacerdotal — a fórmula que Deus dá aos sacerdotes para abençoar o povo de Israel — termina com uma única palavra hebraica: shalom. A tradução padrão em português é "paz", e não está errada, mas é incompleta de um jeito que a maioria dos leitores nunca percebe.
"Cerviz" é a nuca — a parte de trás do pescoço. A expressão vem da lavoura: o boi que endurece o pescoço é o que não cede ao jugo nem à direção do arado, e força a ir para onde quer.
Muito antes de Paulo escrever sobre "circuncisão do coração" em Romanos, a própria Torá já usava essa expressão. Em Deuteronômio 30:6, no meio de uma promessa de restauração depois do exílio, o texto declara: "circuncidará o SENHOR teu Deus teu coração... para que ames ao SENHOR teu Deus com todo teu coração e com toda tua alma".
A cena é deliberadamente carregada, e o hebraico ajuda a carregá-la: a palavra traduzida por pés é usada, em alguns textos do Antigo Testamento, como eufemismo para as partes íntimas.
Depois de ser violentada pelo próprio meio-irmão, Amnom, Tamar sai do quarto dele fazendo algo muito específico e muito público: toma cinza e a espalha sobre a própria cabeça, rasga a roupa colorida que usava — traje reservado às filhas virgens do rei — e sai gritando.
A resposta honesta é que ninguém sabe com certeza, e quem afirma saber está indo além da evidência.
O versículo é usado com frequência para desqualificar quem não crê, e o hebraico não sustenta esse uso.
No meio da descrição mais crua de sofrimento físico de todo o saltério, o Salmo 22 chega a uma frase que resume tudo o que veio antes: "tu me pões no pó da morte". O hebraico é עָפָר מָוֶת (afar-mavet), literalmente "pó de morte" — uma imagem de aniquilação total, não apenas metáfora poética de tristeza profunda.
É o versículo mais citado da Bíblia em português e um dos mais usados para cobrar fé de quem está passando necessidade. A cobrança tem uma forma conhecida: se está faltando, alguma coisa há de estar errada com você.
A expressão hebraica por trás de "sombra da morte" é uma palavra só, e como se lê essa palavra está em disputa há muito tempo.
As duas respostas populares estão erradas pela metade. "É medo mesmo" transforma Deus em ameaça. "É só respeito" esvazia a palavra até virar boa educação.
A expressão hebraica traduzida por "mulher virtuosa" usa uma palavra que, em quase todas as outras ocorrências, é militar ou econômica: força, valor, exército, riqueza.
Depois de descrever a busca exaustiva por sabedoria sobre "tudo o que acontece abaixo do céu", o Pregador chega a um veredito que a tradução usada aqui verte como "tudo é futilidade e aflição de espírito" — traduções mais antigas, como a Almeida Corrigida, usam "vaidade" no lugar de "futilidade".
O verbo hebraico é *nivvakechah*, de uma raiz do vocabulário de tribunal: arrazoar, argumentar uma causa, apresentar prova. Não é um convite a conversar — é uma convocação a acertar contas, e a Bíblia Livre traduz justamente por "façamos as contas".
O hebraico usa "almah", que designa uma jovem em idade de casar. O hebraico tem uma palavra mais técnica para virgem — "betulah" — e Isaías não a usou.
É um dos versículos mais citados dos profetas menores, e o meio dele está em disputa há séculos.
"Carne e sangue" é uma expressão idiomática que significa simplesmente "ser humano". Não é uma referência ao corpo em oposição à alma, nem à natureza pecaminosa, nem à razão humana em oposição à fé.
Diante da multidão que pede a crucificação de Jesus, e vendo que "nada adiantava", Pilatos pega água, lava as mãos publicamente e declara: "Estou inocente do sangue deste justo. A responsabilidade é vossa."
Deuteronômio 6:5 lista três: coração, alma e força. Marcos lista quatro, acrescentando "entendimento" — e Mateus lista três, mas substitui a força pelo entendimento.
O mesmo tema, cortado pelo motivo de a passagem ser difícil. Saber que uma frase é hipérbole, e não ordem literal, costuma resolver a dúvida antes da explicação.