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Significado Bíblico
Expressões hebraicasintermediária
Ilustração da categoria Expressões hebraicas

A "costela" de Adão era realmente uma costela?

Eva foi mesmo formada de uma costela de Adão, ou a tradução pode estar errada?

E o SENHOR Deus fez cair sonho sobre Adão, e ele adormeceu: então tomou uma de suas costelas, e fechou a carne em seu lugar; E da costela que o SENHOR Deus tomou do homem, fez uma mulher, e trouxe-a ao homem. E disse Adão: Esta é agora osso de meus ossos, e carne de minha carne: esta será chamada Mulher, porque do homem foi tomada.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

A palavra hebraica traduzida como "costela" em , tsela, aparece outras cerca de quarenta vezes no Antigo Testamento, e na maioria delas significa "lado" — como o lado do tabernáculo ou de um monte, nunca um osso específico do corpo. "Costela" é uma tradução possível e tradicional, adotada desde a Septuaginta e a Vulgata, mas não a única leitura que o hebraico permite. Alguns estudiosos propõem que o texto descreveria Deus tomando um "lado" inteiro do humano original — quase uma divisão ao meio — para formar a mulher, o que mudaria a imagem de "faltar uma costela" para a de duas metades complementares de um único ser. A diferença não é curiosidade linguística: ela afeta como se lê a relação entre homem e mulher no restante do capítulo, sobretudo no verso final que fala em "uma só carne".

Como isso aponta para Jesus

Tipologia

Paulo usa a origem da mulher a partir do homem em como parte da sua argumentação sobre a relação entre Cristo e a igreja, comparada à união entre marido e mulher "numa só carne", retomando diretamente a linguagem desse texto para descrever unidade e entrega mútua.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

A palavra hebraica traduzida como "costela" em , tsela, geralmente significa "lado" em outros textos da Bíblia, como o lado do tabernáculo. Por isso alguns estudiosos acham que Deus teria tomado um "lado" inteiro do primeiro humano para formar a mulher, não apenas um osso pequeno. A tradução "costela", usada há séculos, é uma escolha possível, mas não a única leitura válida do texto.

Contexto histórico

narra a formação da mulher depois de Deus declarar que não era bom o homem estar só, e depois de nenhum dos animais se mostrar um "auxílio correspondente" adequado a ele. Deus faz o homem cair em sono profundo, toma dele o que o texto chama de tsela, e forma a mulher a partir desse material, apresentando-a ao homem, que reage com o primeiro poema registrado na Bíblia: "esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne". A palavra tsela aparece em outros trinta e poucos lugares do Antigo Testamento, majoritariamente em textos de Êxodo relacionados à construção do tabernáculo e da arca da aliança, sempre com o sentido de "lado" — o lado do altar, o lado da arca, o lado do tabernáculo onde se encaixam as tábuas. Em nenhuma outra ocorrência bíblica tsela se refere a um osso do corpo humano ou animal; o hebraico bíblico tem palavras específicas para "osso" (etsem) e para "costela" em outros contextos anatômicos seria descrita de outro modo. Essa distribuição lexical chamou a atenção de tradutores e comentaristas desde a Antiguidade: a Septuaginta grega, terceiro ou segundo século antes de Cristo, já traduziu tsela por pleura, termo que também pode significar tanto "lado" quanto "costela" em grego, preservando parte da ambiguidade original. A tradição latina da Vulgata, de Jerônimo, optou por costa, mais diretamente ligado a "costela", consolidando essa leitura no Ocidente cristão por muitos séculos, até influenciar praticamente todas as traduções vernáculas modernas, incluindo as usadas no Brasil. Comentaristas judaicos medievais, como Rashi, já discutiam a ambiguidade do termo, propondo leituras que iam de um lado literal do corpo até imagens mais figuradas sobre a origem conjunta de homem e mulher a partir de um único ser formado por Deus, o que mostra que a tensão entre "lado" e "costela" não é invenção acadêmica recente, mas uma discussão que atravessa séculos de leitura judaica e cristã do mesmo versículo.

Aprofundamento

A discussão acadêmica sobre tsela em ganhou força a partir de estudos como os de Ziony Zevit, que argumenta explicitamente que o sentido mais natural, dado o uso consistente da palavra em todo o Antigo Testamento, seria "lado", não "costela", e que a tradução tradicional se apoia mais na história da recepção do texto do que no próprio uso hebraico do termo. Nessa leitura, Deus não retiraria um osso pequeno e isolado do corpo do homem, mas um lado inteiro de um ser original que, antes da formação da mulher, talvez devesse ser imaginado de modo diferente do homem individual que conhecemos depois do capítulo 2 — uma leitura que se aproxima, em parte, de discussões rabínicas antigas sobre um humano original andrógino ou bipartido, mencionadas em alguns midrashim, embora essas tradições judaicas clássicas não sejam unânimes nem cheguem exatamente à mesma conclusão que Zevit. Outros hebraístas, no entanto, defendem que "costela" continua sendo uma tradução defensável: mesmo que tsela normalmente signifique "lado" em contextos arquitetônicos, aplicado ao corpo humano poderia designar especificamente a região lateral do tórax, onde estão as costelas, sem que isso exija abandonar a tradução tradicional. Robert Alter, em sua tradução anotada da Torá, opta por "costela", mas observa em nota que o termo hebraico é ambíguo e que a escolha tradicional carrega séculos de interpretação, não uma evidência lexical inequívoca. O que está em jogo teologicamente, para muitos comentaristas, não é tanto a anatomia literal, mas a relação simbólica que o texto estabelece: seja "lado" ou "costela", a origem da mulher a partir do próprio corpo do homem, e não de outro material como o pó usado para formar Adão, sustenta a afirmação seguinte de que os dois são "uma só carne" — uma unidade original que o restante da Bíblia, incluindo textos do Novo Testamento sobre casamento, vai retomar como fundamento teológico. Independente da tradução escolhida, o texto não sustenta leituras que hierarquizam a mulher como derivada e inferior; a ênfase recai sobre a origem compartilhada e a correspondência entre os dois, reforçada pela própria reação poética do homem ao ver a mulher pela primeira vez. Vale notar também que o sono profundo (tardemah) que precede a operação é o mesmo tipo de estado usado depois em revelações divinas a Abraão, o que sugere que o texto trata esse momento como algo sagrado e não apenas cirúrgico, um detalhe frequentemente perdido em leituras puramente anatômicas do versículo.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Os homens têm uma costela menos que as mulheres por causa da costela retirada de Adão.

    Anatomicamente, homens e mulheres têm o mesmo número de costelas; o texto de não afirma uma mudança física permanente e hereditária na espécie, e a própria palavra hebraica tsela é ambígua entre "costela" e "lado".

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Filologia hebraica (Ziony Zevit)

    Argumenta que tsela deveria ser traduzida por "lado" também em , dado seu uso consistente em outros textos bíblicos, sugerindo uma divisão de um ser original em duas partes complementares.

  • Tradução tradicional (Vulgata e maioria das versões modernas)

    Mantém "costela" como tradução, entendendo que o termo hebraico, aplicado ao corpo humano, pode designar especificamente a região lateral do tórax, sem que isso contradiga o uso arquitetônico da palavra em outros textos.

No original1 termo
  • צֵלָעtselaH6763

    lado, costado; usado majoritariamente para o lado de estruturas como o tabernáculo

O que fazer com isso

Seja "lado" ou "costela", o texto enfatiza origem compartilhada e correspondência mútua, não hierarquia biológica entre homem e mulher. Isso convida a resistir a leituras que usam esse trecho para justificar desigualdade, e a notar como uma única palavra hebraica ambígua carrega, dependendo da tradução escolhida, implicações teológicas bem diferentes sobre a relação entre os dois sexos em Gênesis, algo que vale a pena considerar com calma.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas2 obras
  • Ziony Zevit. What Really Happened in the Garden of Eden?, 2013.
  • Robert Alter. The Hebrew Bible: A Translation with Commentary, 2018.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Traduzir tsela como "lado" muda o sentido da criação da mulher em Gênesis 2?

Muda a imagem concreta — de um osso retirado para uma divisão de um ser original — mas não muda a ênfase teológica do texto na origem compartilhada e na correspondência entre homem e mulher como "uma só carne".

Temas

  • No hebraico
  • #genesis
  • #eva
  • #tsela
  • #criacao-da-mulher
  • #traducao-biblica

Publicado em 27/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 2 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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