
O outro bode: enviado ao deserto carregando os pecados do povo
O que significa o bode enviado ao deserto no Dia da Expiação?
E quando houver acabado de expiar o santuário, e o tabernáculo do testemunho, e o altar, fará chegar o bode macho vivo: E porá Arão ambas as mãos suas sobre a cabeça do bode macho vivo, e confessará sobre ele todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas suas rebeliões, e todos os seus pecados, pondo-os assim sobre a cabeça do bode macho, e o enviará ao deserto por meio de um homem destinado para isto. E aquele bode macho levará sobre si todas as iniquidades deles a terra inabitada: e deixará ir o bode macho pelo deserto.
Resposta curta
Em , depois do sacrifício do primeiro bode, o sumo sacerdote impõe as mãos sobre um segundo bode, confessa sobre ele todas as transgressões do povo, e o envia vivo ao deserto, carregado das iniquidades de Israel, para uma região chamada Azazel. Diferente do primeiro bode, este não morre no altar: é solto, levando simbolicamente o pecado confessado para longe do acampamento.
A tradição cristã, desde cedo, leu os dois bodes como duas faces complementares de uma mesma obra: um morre no lugar do povo, o outro carrega o pecado para longe. É uma leitura homilética influente, mas mais especulativa que a do bode sacrificado, porque o Novo Testamento não faz essa ligação de forma explícita em nenhum texto — a extensão tipológica aqui vem inteiramente de intérpretes posteriores.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA tradição cristã lê o bode enviado ao deserto como figura de Cristo levando o pecado para longe, complementando o bode sacrificado. É uma leitura homilética genuína, mas o Novo Testamento não faz essa ligação de forma explícita em nenhum texto — trata-se de uma conexão indireta, construída por semelhança temática, não por citação direta.
Em palavras simples
No Dia da Expiação, além do bode que era sacrificado, havia um segundo bode: o sumo sacerdote confessava sobre ele todos os pecados do povo e o soltava vivo no deserto, longe do acampamento. Era um jeito de mostrar, de forma visual, que o pecado confessado estava sendo levado para bem longe. Muitos pregadores cristãos comparam isso a Jesus levando nossos pecados, mas essa comparação não aparece explicitamente em nenhum texto do Novo Testamento.
Contexto histórico
O ritual do Dia da Expiação, descrito em , envolvia dois bodes escolhidos por sorteio: "um lote para o Senhor, e outro lote para Azazel" (). O bode sorteado para o Senhor era sacrificado, conforme descrito nos versículos 15-19. O outro, sorteado "para Azazel", seguia um destino completamente diferente: permanecia vivo enquanto o sumo sacerdote impunha as mãos sobre sua cabeça e confessava sobre ele "todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, em todos os seus pecados" (). Depois disso, um homem designado conduzia o animal para o deserto e o soltava lá, longe do acampamento.
O termo "Azazel" é um dos mais debatidos de todo o livro de Levítico. Pode se referir a um lugar geográfico desértico, a uma figura demoníaca associada ao deserto na tradição posterior (como sugerem textos do Segundo Templo, entre eles o Livro de Enoque), ou funcionar como um termo técnico para o próprio ritual de remoção. Traduções mais antigas, como a Vulgata, verteram o termo como "bode emissário" (caper emissarius), origem da expressão portuguesa "bode expiatório", ainda que o sentido exato do nome hebraico continue incerto entre os estudiosos.
O que é claro no texto é a função ritual: enquanto o primeiro bode lidava com a purificação do santuário por meio do sangue, o segundo lidava com a remoção física e simbólica do pecado confessado, retirando-o do espaço habitado pelo povo. A tradição judaica posterior, descrita no tratado Yoma da Mishná, acrescenta detalhes rituais impressionantes — como amarrar uma fita vermelha no bode e a lenda de que ela embranquecia quando a expiação era aceita — evidenciando o peso simbólico que esse rito específico ganhou ao longo dos séculos, mesmo sendo mencionado de forma relativamente breve no texto bíblico original, com apenas três versículos dedicados a descrever todo o procedimento em si.
Aprofundamento
O nome hebraico עֲזָאזֵל (azazel) aparece quatro vezes em e em nenhum outro lugar do Pentateuco, o que dificulta sua identificação precisa. Jacob Milgrom, em seu comentário sobre Levítico na série Anchor Bible, defende que o termo provavelmente designa um demônio do deserto, préexistente à lei mosaica, que o texto bíblico neutraliza deliberadamente: o bode não é oferecido a Azazel como sacrifício — ele apenas leva o pecado até o território associado a essa figura, num gesto que rejeita qualquer culto a demônios enquanto usa a geografia simbólica do deserto como "lugar do pecado", fora dos limites do acampamento onde Deus habita.
A tradição cristã de leitura tipológica desses dois bodes ganhou força principalmente a partir dos padres da igreja e se consolidou na pregação posterior: o bode que morre representaria Cristo morrendo no lugar do pecador, e o bode que é enviado vivo ao deserto representaria Cristo levando o pecado para longe, nunca mais para ser lembrado. É uma leitura homilética atraente, com boa base na lógica simbólica interna do próprio ritual — a confissão sobre a cabeça do animal, o gesto de levá-lo para fora do acampamento — mas é importante reconhecer seus limites.
Diferente do primeiro bode, cuja conexão com Cristo é desenvolvida extensamente em com vocabulário e argumentação explícitos, o "bode de Azazel" não é mencionado nominalmente em nenhum texto do Novo Testamento. Não há um equivalente para esse animal específico. A leitura que junta os dois bodes como "duas faces de uma mesma obra" é uma síntese de intérpretes — remonta a autores cristãos antigos e permanece comum até hoje —, mas construída por semelhança temática (ambos lidam com o mesmo pecado, no mesmo ritual), não por citação ou alusão direta do Novo Testamento. Isso não a torna ilegítima, mas coloca essa tipologia numa categoria diferente, mais especulativa, da tipologia do primeiro bode. Comentaristas cristãos mais cautelosos, como Gordon Wenham em seu comentário sobre Levítico, tendem a apresentar essa leitura como aplicação homilética possível, e não como exegese direta do texto, reservando a conexão mais firme com Cristo para o bode sacrificado e para o próprio argumento de Hebreus. Isso não invalida a leitura homilética dos dois bodes, apenas pede honestidade sobre sua natureza: é uma aplicação teológica construída pela tradição eclesial ao longo dos séculos, útil e coerente com o conjunto da Escritura, mas de peso exegético diferente do que se apoia em citação explícita do próprio texto sagrado do Novo Testamento.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:'Bode expiatório' e o bode de Levítico 16 significam exatamente a mesma coisa que o uso popular da expressão hoje, de 'culpar alguém injustamente'.
No texto bíblico, o bode carrega pecados realmente confessados e reconhecidos pelo povo, não uma culpa injusta atribuída a um inocente por conveniência; o sentido moderno da expressão inverteu parcialmente a lógica original do rito.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Literatura judaica do Segundo Templo
Textos como o Livro de Enoque associam Azazel a uma figura angelical caída, lendo o envio do bode como neutralização simbólica do mal associado a essa figura, mais do que os textos rabínicos posteriores desenvolvem.
Tradição patrística cristã
Autores como Barnabé (Epístola de Barnabé) já no século II liam os dois bodes tipologicamente em relação a Cristo, um dos primeiros registros dessa leitura homilética fora do Novo Testamento.
No original2 termos
עֲזָאזֵלazazelH5799
Termo de sentido debatido em , associado ao destino do segundo bode; pode designar um lugar deserto ou uma figura ligada a ele, mas o texto bíblico não desenvolve sua identidade.
שָׂעִירsa'irH8163
Palavra hebraica para 'bode', usada para ambos os animais do ritual do Dia da Expiação em .
O que fazer com isso
O gesto de confessar o pecado sobre a cabeça do animal antes de enviá-lo para longe carrega uma lição simples: o pecado precisa ser nomeado com honestidade antes de poder ser verdadeiramente deixado no passado. Não basta querer esquecer; é preciso reconhecer especificamente o que pesa, e só então há sentido em falar de libertação real e definitiva, não apenas de esquecimento forçado.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas2 obras
- Jacob Milgrom. Leviticus 1-16 (Anchor Bible), 1991.
- Gordon J. Wenham. The Book of Leviticus (New International Commentary on the Old Testament), 1979.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Azazel é o nome de um demônio na Bíblia?
O termo é debatido: pode indicar um lugar deserto, uma figura associada ao deserto em tradições posteriores ao texto bíblico, ou um termo técnico do próprio ritual. O texto de Levítico não desenvolve essa figura, e a identificação como demônio vem principalmente de literatura judaica posterior ao Pentateuco.
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