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Significado Bíblico
Expressões hebraicasintermediária
Ilustração da categoria Expressões hebraicas

O Salmo 14 chama os ateus de burros?

Quem é o "tolo" que diz não haver Deus?

O tolo diz em seu coração: Não há Deus. Eles têm se pervertido, fazem obras abomináveis; não há quem faça o bem.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

O versículo é usado com frequência para desqualificar quem não crê, e o hebraico não sustenta esse uso.

A palavra é *nabal*, e ela não descreve deficiência intelectual. Descreve corrupção moral — o sujeito que sabe o que é certo e age como se não soubesse. É o nome próprio de um personagem em , e a esposa dele explica: "conforme o seu nome, assim é ele; Nabal é o seu nome, e a loucura está com ele".

E a segunda metade do versículo confirma a direção. O que segue não é uma lista de erros de raciocínio: é "fazem obras abomináveis".

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Paulo cita este salmo em para estabelecer que "não há justo, nem um sequer" — e o usa contra quem se considerava dentro, não contra quem estava fora. A conclusão dele não é condenação, e sim a frase que vem catorze versículos depois: "sendo justificados gratuitamente pela sua graça". O diagnóstico universal serve a uma oferta universal.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

Esse versículo é usado com frequência para dizer que quem não acredita em Deus é burro. Mas a palavra usada no idioma original não fala de inteligência — descreve corrupção moral, alguém que sabe o que é certo e age como se não soubesse. É a mesma palavra usada como nome de um personagem malvado em outro livro, cuja esposa explica: 'ele é como o próprio nome dele diz'.

O contexto confirma: logo em seguida, o texto fala de gente que faz coisas terríveis. Não é uma discussão filosófica sobre a existência de Deus — é sobre viver como se não houvesse a quem prestar contas, mesmo dizendo acreditar.

Um detalhe costuma ser esquecido: dois versículos depois, o mesmo salmo diz que ninguém faz o bem, nem um sequer. O diagnóstico inclui todo mundo, inclusive quem usa esse versículo para apontar o dedo para outra pessoa.

Contexto histórico

O salmo não está discutindo a existência de Deus como questão teórica. Isso fica claro pelo que ele diz em seguida.

O versículo 1 continua: "eles têm se pervertido, fazem obras abomináveis; não há quem faça o bem". Os versículos seguintes descrevem gente que "devora o meu povo como se comesse pão" e "envergonha o conselho do pobre".

O retrato é de conduta, não de convicção.

O ateísmo teórico — a negação filosófica da existência de Deus — era praticamente inexistente no mundo antigo do Oriente Próximo. A questão não era se havia divindade, mas qual, e se ela intervinha.

É isso que o Salmo 10:4 formula com precisão, e ele é o melhor comentário a este: "todos os seus pensamentos são de que não há Deus" — no contexto de alguém que persegue o pobre e conclui que não haverá conta a prestar.

O que o *nabal* nega, na prática, não é a existência. É a relevância.

Aprofundamento

Vale distinguir três coisas que o texto distingue e que a citação popular funde.

A primeira é a negação teórica: a afirmação de que Deus não existe, sustentada por argumento. Essa posição existe hoje, é defendida por pessoas inteligentes e de boa-fé, e não é o assunto deste salmo.

A segunda é a negação prática: viver como se não houvesse a quem prestar contas, independentemente do que se afirme. É esse o alvo, e ele alcança tanto quem se diz descrente quanto quem se diz crente.

A terceira é a incapacidade intelectual, que a palavra *nabal* não descreve em nenhuma ocorrência.

O vocabulário hebraico de sabedoria tem vários termos, e eles não são sinônimos. *Peti* é o ingênuo, que ainda pode aprender. *Kesil* é o obstinado, que rejeita correção. *Nabal* é o mais severo — indica ruína moral, alguém em quem a insensatez já se instalou como caráter.

A tradução por "tolo" ou "insensato" perde essa carga, porque em português as duas palavras sugerem falta de inteligência.

Há um dado que costuma incomodar quem usa o versículo como arma, e ele está no mesmo salmo. O versículo 3 diz: "todos se desviaram, juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não há nem um sequer".

O diagnóstico não separa dois grupos. Ele é universal — e Paulo cita exatamente esta passagem em , dentro do argumento de que judeus e gentios estão na mesma situação.

Usar o versículo 1 contra alguém exige parar de ler antes do versículo 3, que inclui quem cita.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O versículo diz que ateus são burros.

    A palavra *nabal* descreve corrupção moral, não deficiência intelectual, e a segunda metade do versículo fala de "obras abomináveis". Nenhuma ocorrência do termo trata de capacidade de raciocínio.

  • Dizem que:O salmo trata do ateísmo filosófico.

    A negação teórica da existência de Deus era praticamente inexistente no Oriente Próximo antigo. O contexto é de conduta, e formula a mesma ideia em termos de não haver conta a prestar.

  • Dizem que:O versículo separa os crentes dos descrentes.

    Dois versículos adiante o salmo diz "não há quem faça o bem, não há nem um sequer", e Paulo cita essa passagem em para incluir todo mundo. Usá-lo como arma exige parar de ler no versículo 1.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Ateísmo prático

    O alvo é viver como se não houvesse a quem prestar contas, independentemente do que se professe. Sustentada pelo vocabulário e pelo paralelo em . É a leitura majoritária.

  • Descrição de corrupção moral

    *Nabal* designa ruína de caráter, e a frase é o sintoma de um estado, não uma tese. Complementa a primeira leitura.

No original3 termos
  • נָבָלnabal

    "Insensato". Indica ruína moral, não falta de inteligência. É o nome do personagem de , cuja esposa explica o nome pela conduta dele.

  • פְּתִיpeti

    "Ingênuo". O que ainda pode aprender — o mais brando dos termos de insensatez em Provérbios.

  • כְּסִילkesil

    "Tolo obstinado". O que rejeita correção. Distinto de *nabal*, que é mais severo.

O que fazer com isso

A leitura popular do versículo tem um custo prático que vale nomear: ela é ineficaz e é falsa.

Falsa porque o hebraico não fala de inteligência, e porque o salmo estende o diagnóstico a todos três versículos adiante.

Ineficaz porque ninguém muda de posição por ser chamado de burro — e porque a pessoa que ouve isso sabe, com razão, que o insulto não é argumento.

O que o salmo de fato descreve é mais desconfortável para quem crê do que para quem não crê. Ele fala de alguém cuja vida é organizada como se não houvesse conta a prestar — e essa descrição não pergunta o que a pessoa responde num formulário de religião.

É possível afirmar a existência de Deus com toda a convicção e viver exatamente como o *nabal* do versículo. O salmo não deixa essa saída aberta.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
  • Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
  • Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre Salmos 14 e Salmos 53?

São quase idênticos, com pequenas variações e uso de nomes divinos diferentes. A duplicação provavelmente reflete coleções distintas reunidas no saltério.

O versículo serve para responder a um ateu?

Não, e usá-lo assim é impreciso e improdutivo. Ele descreve conduta, não convicção, e o próprio salmo estende o diagnóstico a todos três versículos adiante.

Quem foi Nabal, em 1 Samuel 25?

Um proprietário rico que recusou ajuda a Davi e aos homens dele de forma insultuosa. A esposa, Abigail, o descreve pelo nome: "conforme o seu nome, assim é ele". O episódio define o termo pela conduta.

Temas

Publicado em 25/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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