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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

Filhos de Deus: anjos, a linhagem de Sete ou reis antigos?

Quem eram os "filhos de Deus" em Gênesis 6:1-4?

E aconteceu que, quando começaram os homens a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, Vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram belas, tomaram para si mulheres, escolhendo entre todas. E disse o SENHOR: Não brigará meu espírito com o ser humano para sempre, porque certamente ele é carne: mas serão seus dias cento e vinte anos. Havia gigantes na terra naqueles dias, e também depois que entraram os filhos de Deus às filhas dos homens, e lhes geraram filhos: estes foram os valentes que desde a antiguidade foram homens de renome.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Quase toda tradução em português verte a expressão hebraica bene ha-elohim de forma literal — "filhos de Deus" — e é exatamente essa literalidade que abre o problema, porque a mesma expressão, em e 38:7, designa claramente seres celestiais reunidos diante de Deus.

A tradução, portanto, não resolve a pergunta: ela a preserva intacta. E há um dado antigo que poucas Bíblias de estudo mencionam — os manuscritos gregos da Septuaginta, o Antigo Testamento traduzido para o grego cerca de dois séculos antes de Cristo, se dividem neste ponto: alguns trazem "filhos de Deus", outros trazem literalmente "anjos de Deus". A divergência de tradução é, portanto, mais antiga do que qualquer debate moderno.

Daí nascem três leituras históricas — anjos caídos, a linhagem de Sete contra a de Caim, e dinastas ou reis antigos —, e este verbete examina o que sustenta cada uma.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

O relato termina em juízo, mas o juízo não é o fim da linha: Noé, "justo e perfeito em suas gerações", é preservado dentro do mesmo capítulo que descreve a corrupção generalizada, e é por meio dessa linha preservada que a genealogia messiânica de chega, séculos depois, a Cristo. O Novo Testamento volta a este episódio duas vezes — e — sempre no mesmo movimento: julgamento sobre a rebelião antiga, salvação para o pequeno número preservado pela água. É o mesmo padrão que a cruz repete em escala maior.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Contexto histórico

está numa dobradiça do livro. Atrás dele vem o capítulo 5, uma genealogia solene de dez gerações entre Adão e Noé, pontuada pela fórmula "e morreu". À frente vem o relato do dilúvio, que começa no versículo 5 do mesmo capítulo 6 com o diagnóstico mais duro do Antigo Testamento sobre a humanidade: "toda imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente".

O trecho descreve um processo em três movimentos. Primeiro, a multiplicação dos homens sobre a face da terra e o nascimento de filhas. Segundo, "os filhos de Deus" vendo que essas filhas eram formosas e tomando para si as que escolhiam. Terceiro, o surgimento dos nefilins — palavra hebraica deixada sem tradução na maioria das versões — descritos como "os poderosos que houve antigamente, os homens de fama".

Entre o segundo e o terceiro movimento, Deus intervém encurtando a vida humana a 120 anos, numa frase de sentido debatido: prazo até o dilúvio, ou limite geral da vida humana.

O texto é breve, denso, e funciona como gatilho literário para o juízo do dilúvio: a corrupção descrita aqui é a razão dada, no versículo seguinte, para a decisão de Deus de destruir a terra.

Aprofundamento

A expressão central é בְּנֵי הָאֱלֹהִים, bene ha-elohim — literalmente "filhos de Deus" ou "filhos dos deuses", já que elohim é gramaticalmente plural e pode se referir tanto ao Deus único de Israel quanto, em contextos como este, a seres do âmbito celestial.

A mesma expressão, ou uma variante muito próxima, aparece em e 38:7 designando seres que se apresentam diante de Deus e que estavam presentes na criação do mundo — leitura que praticamente nenhum comentarista disputa como referência a seres angelicais. É esse paralelo que sustenta a primeira leitura histórica.

**A leitura dos anjos caídos.** É a mais antiga documentada. O livro extrabíblico de 1 Enoque, do período do Segundo Templo, desenvolve longamente a história de anjos ("vigilantes") que desceram e se uniram a mulheres humanas, gerando uma prole monstruosa. Autores judeus do primeiro século e boa parte dos primeiros escritores cristãos — Justino, Ireneu, Tertuliano — seguiram essa leitura, e ela encontra respaldo direto em dois textos do Novo Testamento: , que fala de anjos que pecaram e foram lançados no inferno, ligados no mesmo parágrafo ao dilúvio de Noé; e , sobre anjos que "não guardaram o seu principado" e cujo pecado é comparado, na frase seguinte, à imoralidade sexual de Sodoma. A força desta leitura é filológica e canônica: ela lê bene ha-elohim do mesmo modo que Jó o faz, e explica por que o resultado da união — os nefilins, "gibborim", homens de fama sobre-humana — soa tão anômalo no texto.

A fraqueza é teológica, e Jesus a expõe: em , ele afirma que os anjos não casam nem se dão em casamento. Foi esse incômodo, mais do que uma nova leitura filológica, que empurrou boa parte da igreja antiga para a segunda leitura.

**A linhagem de Sete contra a linhagem de Caim.** Popularizada por Agostinho no século V, entende "filhos de Deus" como os descendentes piedosos de Sete — o filho que substitui Abel — e "filhas dos homens" como a linhagem de Caim. A união seria, então, uma mistura da linha da promessa com a linha rejeitada, e a corrupção resultante seria moral e religiosa, não biológica. Esta leitura evita o problema de anjos copulando com humanos e se apoia num contraste genealógico real que os capítulos 4 e 5 de fato constroem, um contra o outro. Sua fraqueza é que o texto não usa em nenhum ponto a expressão "filhos de Sete" ou algo equivalente para restringir bene ha-elohim dessa forma — a restrição é importada da estrutura dos capítulos vizinhos, não da própria frase.

**Dinastas ou reis antigos.** É a leitura mais recente, apoiada em paralelos do Antigo Oriente Próximo, onde reis e figuras de poder eram chamados, em textos ugaríticos e mesopotâmicos, de "filhos de deus" como título de realeza — a mesma lógica por trás de , em que Deus chama o rei davídico de "meu filho". Nesta leitura, o versículo descreveria a formação de dinastias poligâmicas e tirânicas, tomando à força as mulheres que escolhiam — o verbo hebraico para "tomar" tem, em vários outros lugares do Pentateuco, esse matiz de posse. A leitura explica bem o vocabulário de poder e fama associado aos nefilins e evita tanto o problema angelológico quanto a importação da divisão setita. Sua fraqueza é que o texto de Gênesis não identifica em nenhum ponto essas figuras como reis, e o paralelo com títulos reais estrangeiros exige uma ponte que o próprio Israel, na maior parte do Antigo Testamento, rejeitava fazer com seus próprios monarcas.

O fato relevante para este verbete, específico de tradução, é que a decisão entre essas três leituras não acontece na tradução da frase — "filhos de Deus" é a tradução mais literal possível e a maioria esmagadora das versões em português a mantém —, mas na nota de rodapé, no comentário, ou na tradução de passagens vizinhas como . A Septuaginta, ao contrário, tomou partido diretamente no texto: os manuscritos que trazem "anjos de Deus" (huioi tou theou substituído por angeloi tou theou) já estão fazendo, na própria tradução, a escolha que o hebraico deixa em aberto.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:"Nefilim" significa "gigantes" e a tradução grega deu origem à palavra.

    O termo hebraico נְפִלִים tem origem discutida — provavelmente ligado à raiz "cair", sugerindo "os que caem sobre" ou "os que fazem cair" outros em combate, não necessariamente estatura. A tradução por "gigantes" vem da Septuaginta e de , que os associa aos anaquins, mas o próprio texto de não define o termo.

  • Dizem que:A Bíblia sempre teve uma única leitura aceita para "filhos de Deus".

    Os próprios manuscritos da Septuaginta se dividem entre "filhos de Deus" e "anjos de Deus". A leitura angelical foi predominante até os primeiros séculos cristãos, quando o desconforto teológico com anjos copulando levou a igreja a favorecer a leitura da linhagem de Sete.

  • Dizem que:A leitura dos "reis antigos" é invenção moderna sem base textual.

    Ela se apoia em paralelos reais do Antigo Oriente Próximo, onde "filho de deus" era título de realeza, e no mesmo uso figurado que aparece em para o rei davídico. É leitura minoritária, mas não é arbitrária.

Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura patrística antiga — anjos caídos

    A mais antiga documentada, presente em 1 Enoque e nos primeiros escritores cristãos. Apoia-se no paralelo direto com e 38:7 e em e . Explica bem a anomalia dos nefilins; tropeça em .

  • Leitura agostiniana — linhagem de Sete e de Caim

    Formulada por Agostinho e dominante na tradição ocidental por séculos. Evita o problema angelológico e se apoia no contraste genealógico dos capítulos 4 e 5. Tropeça em não haver, no próprio texto, restrição explícita a essa linhagem.

  • Leitura crítico-histórica moderna — dinastas e reis antigos

    Apoiada em paralelos do Antigo Oriente Próximo sobre o título "filho de deus" aplicado a reis. Explica bem o vocabulário de poder e fama; tropeça em o texto nunca identificar essas figuras como monarcas.

No original3 termos
  • בְּנֵי הָאֱלֹהִיםbene ha-elohim

    Literalmente "filhos de Deus" ou "filhos dos deuses". A mesma expressão, em e 38:7, designa seres celestiais reunidos diante de Deus — paralelo usado pela leitura angelical.

  • נְפִלִיםnephilim

    Termo de origem discutida, provavelmente ligado à raiz "cair". Traduzido por "gigantes" na Septuaginta e em , mas não definido pelo próprio texto de .

  • גִּבֹּרִיםgibborim

    "Poderosos", "heróis" — descreve os nefilins como "os homens de fama". Termo de status e força, não necessariamente de estatura física.

O que fazer com isso

A honestidade exigida por este texto é reconhecer duas coisas ao mesmo tempo: o que ele afirma com clareza e o que ele deixa em aberto.

Com clareza, ele afirma um processo de corrupção crescente que termina justificando o juízo do dilúvio — e essa é a função do trecho no argumento do livro, independentemente de qual das três leituras se escolha. Em aberto, ele deixa a identidade exata de "filhos de Deus", e um leitor sério faz bem em declarar a incerteza em vez de apresentar sua leitura preferida como a única possível.

Há também uma lição de método que atravessa o verbete inteiro: a tradução de uma frase e a interpretação dela nem sempre coincidem. Uma versão pode manter a redação mais literal e ainda assim deixar toda a decisão teológica para a nota de rodapé — e isso não é defeito da tradução, é honestidade dela diante de um hebraico genuinamente ambíguo.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, 1866.
  • John Gill. Exposition of the Entire Bible, 1748.
  • Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
  • Wilhelm Gesenius. Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament Scriptures, 1846.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Por que a maioria das Bíblias em português traz "filhos de Deus" e não "anjos"?

Porque essa é a tradução mais literal do hebraico bene ha-elohim, e a maioria das versões prefere deixar a decisão interpretativa para o leitor ou para a nota de rodapé, em vez de resolvê-la no próprio texto.

A Septuaginta traduz de forma diferente?

Os manuscritos se dividem: parte deles traz literalmente "anjos de Deus" em vez de "filhos de Deus", mostrando que a leitura angelical já era corrente entre tradutores e leitores judeus de língua grega, séculos antes de Cristo.

Qual leitura é a "correta"?

Não há consenso acadêmico, e um verbete honesto não finge que há. A leitura angelical tem o respaldo filológico e canônico mais direto; a agostiniana dominou a tradição ocidental por razões teológicas; a dos reis antigos tem paralelo histórico real, mas nenhum apoio textual direto em Gênesis.

Temas

Faz parte de

Publicado em 09/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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