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Significado Bíblico
Expressões hebraicasintermediária
Ilustração da categoria Expressões hebraicas

Cabul: as vinte cidades que desagradaram Hirão

O que significa o nome Cabul, dado às cidades que Salomão deu a Hirão?

E aconteceu ao fim de vinte anos, em que Salomão havia edificado as duas casas, a casa do SENHOR e a casa real, (Para as quais Hirão rei de Tiro, havia trazido a Salomão madeira de cedro e de faia, e quanto ouro ele quis), que o rei Salomão deu a Hirão vinte cidades em terra de Galileia. E saiu Hirão de Tiro para ver as cidades que Salomão lhe havia dado, e não lhe contentaram. E disse: Que cidades são estas que me deste, irmão? E pôs-lhes por nome, a terra de Cabul, até hoje. E havia Hirão enviado ao rei cento e vinte talentos de ouro.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Em , Salomão paga Hirão, rei de Tiro, por toda a madeira e o ouro fornecidos na construção do templo e do palácio real, entregando-lhe vinte cidades na região da Galileia. O problema é que Hirão vai até lá, vê as cidades, e não gosta do que recebeu: o texto não detalha exatamente o motivo, mas registra que essa região passou a ser chamada Cabul, um nome cuja origem os próprios estudiosos discutem, possivelmente ligado a uma expressão que soa como "como nada" ou "que não agrada". É um dos raros momentos bíblicos em que um acordo entre reis termina em desagrado explícito de uma das partes, preservado para sempre no nome do lugar.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

Este episódio não tem ligação direta ou clara com Cristo; é sobretudo um relato administrativo sobre negociação territorial entre reis. Na melhor das hipóteses, contrasta indiretamente com o modo como o Novo Testamento descreve Cristo dando de forma que jamais desaponta quem recebe, mas essa conexão é fraca e não deve ser forçada além do que o texto sustenta.

Em palavras simples

Salomão precisou pagar Hirão, rei de Tiro, pela madeira e pelo ouro usados na construção do templo, e deu a ele vinte cidades numa região chamada Galileia. Quando Hirão foi ver essas cidades, não gostou do que recebeu, e a região ficou conhecida como Cabul, um nome que talvez signifique algo como "não vale nada" ou "que não agrada". É um raro momento na Bíblia em que fica registrado que um acordo entre reis não saiu como esperado.

Contexto histórico

A relação entre Salomão e Hirão de Tiro começou ainda no reinado de Davi e se intensificou fortemente durante a construção do templo e do complexo palaciano, quando Israel dependia da madeira de cedro do Líbano e da perícia técnica fenícia em construção naval e metalurgia, recursos que a região montanhosa de Israel não produzia internamente com a mesma qualidade. Em troca, já registra que Salomão pagava a Tiro em trigo, óleo e outros produtos agrícolas, mas o acerto final, descrito em , foi diferente: cessão direta de território, vinte cidades na região da Galileia, historicamente uma área de fronteira entre Israel e a esfera de influência fenícia. Ceder terra israelita a um rei estrangeiro era um gesto político e teologicamente delicado, já que a terra prometida era entendida como herança inalienável concedida por Deus às tribos, não mercadoria de troca comercial comum entre monarcas da região. O relato é econômico em detalhes emocionais, mas o suficiente para deixar registrado que Hirão "saiu para ver as cidades" e ficou insatisfeito, sem que o texto explique se o problema era a qualidade agrícola da terra, a população que a habitava, ou considerações estratégicas de defesa. Historicamente, essa mesma área da Galileia aparece novamente séculos depois, em e em referências assírias, como território de disputa entre potências vizinhas, o que sugere que sua posição fronteiriça a tornava perpetuamente instável e, provavelmente, de valor econômico e estratégico menor do que Hirão esperava ao negociar com Salomão o pagamento de sua vasta contribuição em madeira e ouro. Vale lembrar também que o comércio marítimo fenício dependia mais de portos e rotas navais do que de terras agrícolas do interior, o que talvez explique parte do desagrado de Hirão: cidades continentais, sem acesso direto ao mar, tinham valor limitado para uma potência cuja riqueza vinha sobretudo da navegação e do comércio de longa distância pelo Mediterrâneo, não da exploração agrícola de território anexado.

Aprofundamento

A etimologia de כָּבוּל (Kavul, transliterado Cabul) é genuinamente incerta e debatida entre os comentaristas, o que este verbete assume com honestidade, em vez de apresentar uma solução definitiva inexistente. Uma linha de leitura, seguida por boa parte da tradição rabínica registrada no Talmude, associa o nome a uma expressão que soaria como "ka-vul", algo como "como nada" ou "que não vale nada", refletindo o desagrado de Hirão com a qualidade da terra recebida. O historiador judeu Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas, registra uma tradição segundo a qual, em língua fenícia, "Cabul" significaria algo como "o que não agrada", uma nota preciosa por vir de fora da tradição rabínica estritamente hebraica, embora sua confiabilidade filológica seja discutida por especialistas modernos. Simon DeVries, no Word Biblical Commentary sobre 1 Reis, observa que o texto hebraico é deliberadamente enxuto justamente no ponto em que se esperaria uma explicação satisfatória, o que pode indicar tanto perda de uma tradição oral explicativa quanto desconforto editorial em detalhar publicamente o atrito entre dois reis aliados. Vale notar que o relato paralelo em inverte a direção da transação, descrevendo Salomão reconstruindo cidades que Hirão lhe teria dado, uma diferença que gerou considerável discussão entre harmonizadores e críticos textuais quanto à ordem exata dos eventos, sem que exista consenso definitivo sobre qual registro reflete a sequência histórica mais precisa. O episódio, ainda que breve, expõe uma faceta pouco celebrada do reinado de Salomão: a aliança com Tiro, tantas vezes descrita como modelo de cooperação internacional próspera, também envolveu negociação difícil, avaliação econômica desigual e ao menos um momento registrado de insatisfação aberta por parte do parceiro estrangeiro, contrastando com a imagem predominantemente triunfalista do restante da narrativa salomônica nos capítulos anteriores de 1 Reis. É um dos poucos momentos em que o texto bíblico registra, sem disfarce diplomático, que um parceiro estrangeiro saiu de uma negociação real explicitamente insatisfeito, deixando essa insatisfação gravada para sempre no nome do próprio território entregue como pagamento. Além disso, o episódio se encaixa num padrão maior do livro de Reis, que não hesita em registrar decisões administrativas discutíveis de Salomão ao lado de seus feitos mais celebrados, como o próprio uso de trabalho forçado mencionado poucos versos depois, em , compondo um retrato do reinado mais complexo e ambivalente do que a memória popular costuma reter, algo que comentaristas contemporâneos tendem a valorizar como evidência de honestidade literária do texto histórico israelita.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Cabul é um nome de origem clara e consensual entre os estudiosos, ligado diretamente a uma maldição pronunciada por Hirão.

    A etimologia é genuinamente incerta; existem propostas concorrentes, incluindo a leitura talmúdica de 'como nada' e o registro de Josefo em fenício, mas nenhuma é comprovada de forma definitiva pelos especialistas.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Judaísmo talmúdico

    O Talmude Babilônico associa o nome Cabul à expressão 'como nada', interpretando o episódio como registro do desagrado real de Hirão com a qualidade da terra recebida.

  • Historiografia judaico-helenística

    Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas, preserva uma tradição alternativa que liga o nome a uma palavra fenícia significando 'o que não agrada', ampliando as possibilidades etimológicas discutidas até hoje.

No original1 termo
  • כָּבוּלKavul

    Nome dado à região das vinte cidades entregues a Hirão; etimologia incerta, possivelmente ligada a expressão sobre algo sem valor ou que não agrada, refletindo o desagrado do rei de Tiro.

O que fazer com isso

O episódio de Cabul lembra que até as parcerias mais bem-sucedidas na Bíblia, como a aliança entre Salomão e Hirão, envolviam negociação real, desequilíbrios de expectativa e desagrado ocasional, sem que isso invalidasse a aliança maior. É um convite a não idealizar relações e acordos, humanos ou institucionais, como se devessem ser sempre perfeitamente satisfatórios para todos os lados o tempo todo.

Passagens relacionadas4

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Fontes consultadas2 obras
  • Simon J. DeVries. 1 Kings (Word Biblical Commentary).
  • Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Por que Salomão deu cidades israelitas a um rei estrangeiro?

Como pagamento pela madeira, ouro e mão de obra especializada que Hirão de Tiro forneceu para a construção do templo e do palácio real, dívida que o texto trata como significativa.

Cabul ainda existe como lugar hoje?

Há uma localidade chamada Kabul no norte de Israel, na região da Galileia, cujo nome tradicionalmente é associado a esse episódio bíblico, embora a identificação geográfica exata seja discutida por arqueólogos.

Temas

  • No hebraico
  • #hirao-de-tiro
  • #1-reis
  • #toponimia
  • #comercio-antigo
  • #antigo-testamento

Publicado em 16/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 2 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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