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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Expressões hebraicas

'Sem forma e vazio': a destruição descrita como uma anticriação

Por que Jeremias 4:23-26 usa as mesmas palavras de Gênesis 1:2?

Vi a terra, e eis que estava sem forma e vazia; e vi os céus, e não tinham sua luz. Vi os montes, e eis que estavam tremendo; e todos os morros se sacudiam. Vi, e eis que nenhum homem havia; e todas as aves do céu tinham fugido. Vi, e eis que a terra fértil tinha se tornado um deserto, e todas as suas cidades foram derrubadas, por causa do SENHOR, por causa do ardor de sua ira.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Em , o profeta descreve a devastação que se aproxima de Judá com uma linguagem cósmica surpreendente: olha para a terra e ela está 'tohu va-vohu', sem forma e vazia; olha para os céus e não há luz; olha para os montes e eles tremem; olha e não há homem nenhum, e as aves fugiram. A expressão 'tohu va-vohu' é exatamente a mesma usada em para descrever o estado da terra antes da obra criadora de Deus. Jeremias não está apenas usando uma frase bonita — ele constrói deliberadamente uma cena de desconstrução do mundo criado, como se o julgamento contra Judá desfizesse, passo a passo, a própria ordem estabelecida na criação: luz, terra seca, seres vivos, todos revertidos ao caos original que existia antes da primeira palavra criadora de Deus.

Como isso aponta para Jesus

Contraste

Onde o juízo em Jeremias desfaz a ordem da criação até o caos original, o Novo Testamento apresenta Cristo como aquele em quem 'todas as coisas subsistem' e por meio de quem, no fim, Deus fará 'novos céus e nova terra' — o movimento inverso da anticriação descrita pelo profeta, uma recriação definitiva em vez de um retorno permanente ao caos.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Jeremias descreve a destruição que está chegando usando as mesmas palavras que Gênesis usa para o caos antes de Deus criar o mundo: 'sem forma e vazio'. É como se o julgamento contra Judá desfizesse, passo a passo, a própria criação: sem luz, sem pessoas, sem animais, tudo voltando ao caos original. O profeta usa essa imagem forte para mostrar que aquele julgamento não era um problema pequeno, mas algo tão grave quanto desfazer o próprio mundo criado.

Contexto histórico

pertence à seção inicial do livro dedicada a anunciar a invasão vinda do norte, já introduzida simbolicamente na visão da caldeira fervente do capítulo 1. Os versículos 23-26 formam o clímax poético de uma sequência de advertências sobre o desastre iminente, quase certamente aludindo à invasão babilônica que culminaria na destruição de Jerusalém em 586 a.C., embora o oráculo tenha sido pronunciado décadas antes desse desfecho final.

O recurso literário empregado por Jeremias é o de uma visão em quatro movimentos, cada um introduzido pelo verbo 'olhei' (ra'iti): a terra, os céus, os montes, e por fim a ausência total de vida humana e animal. Essa estrutura repetitiva imita conscientemente o padrão narrativo de , em que cada dia da criação é introduzido por fórmulas repetidas ('e disse Deus', 'e foi assim', 'e viu Deus que era bom'). Jeremias inverte esse padrão: em vez de progressão para ordem e vida, há regressão para caos e ausência total de vida.

A expressão hebraica tohu va-vohu aparece em todo o Antigo Testamento apenas nesses dois lugares ( e ) mais uma ocorrência isolada de tohu em num contexto semelhante de julgamento contra Edom, o que torna a repetição praticamente exata da fórmula em Jeremias um sinal inequívoco de citação deliberada, e não de coincidência vocabular casual entre dois textos escritos em épocas diferentes da história de Israel.

Teologicamente, essa aproximação entre juízo histórico e desconstrução cósmica não deve ser lida como afirmação de que o mundo físico literalmente deixaria de existir, mas como uma forma poética elevada de comunicar a gravidade totalizante do julgamento: a destruição de Judá seria, na experiência de quem a vivesse, equivalente ao desfazimento da própria ordem do mundo, e não apenas mais um revés político regional entre muitos outros ao longo da história antiga.

Aprofundamento

A expressão tohu va-vohu (תֹּהוּ וָבֹהוּ) combina duas palavras raras: tohu, que sozinha aparece com mais frequência no Antigo Testamento e carrega sentido de vazio, deserto ou caos informe, e vohu, palavra praticamente exclusiva dessas duas ocorrências, cujo sentido preciso permanece incerto além do contexto imediato de par aliterativo com tohu. William Holladay observa que a repetição exata dessa combinação rara em dificilmente seria acidental, sugerindo conhecimento direto e intencional do texto de por parte do profeta ou de sua tradição literária formativa.

J. A. Thompson chama atenção para a estrutura em espelho invertido entre os dois textos: avança de tohu va-vohu para luz, céu ordenado, terra seca, seres vivos e finalmente humanidade; regride exatamente na direção contrária — ausência de luz, montes tremendo, ausência de humanidade e de aves — como se a sequência da criação estivesse sendo desfeita etapa por etapa, quase como um filme da criação passado de trás para frente. Esse recurso retórico é conhecido na literatura bíblica como 'anticriação' ou 'descriação', termo usado por comentaristas modernos para descrever textos de juízo que empregam deliberadamente vocabulário criacional invertido.

Robert Carroll nota que esse padrão de linguagem cosmológica aplicada a julgamentos históricos específicos também aparece, de forma menos explícita, em e em partes de , onde a destruição de Judá é descrita em termos que ecoam a devastação universal, sugerindo uma convenção literária profética mais ampla para comunicar a seriedade totalizante do juízo divino sobre a aliança quebrada, sem que isso implique necessariamente uma previsão literal de fim cósmico do mundo físico nesses textos específicos.

Vale notar a referência cruzada mais reveladora teologicamente: , que usa linguagem cósmica semelhante — sol escurecido, estrelas caindo, montanhas removidas — para descrever o juízo escatológico final, sugerindo que a tradição bíblica de linguagem anticriacional para julgamento histórico específico se torna, mais tarde, também vocabulário para o julgamento final e definitivo, unindo os dois tipos de evento sob o mesmo tipo de imagem poética de desconstrução cósmica.

Um detalhe adicional que merece atenção é a ordem específica dos elementos revertidos no oráculo: primeiro a terra sem forma, depois os céus sem luz, depois os montes tremendo, e só então a ausência de vida humana e animal. Essa sequência não corresponde exatamente à ordem cronológica dos dias da criação em , o que sugere que Jeremias não está fazendo uma citação mecânica ponto a ponto, mas recombinando livremente elementos reconhecíveis do vocabulário criacional para produzir o efeito retórico desejado. Essa liberdade compositiva é típica da poesia profética hebraica, que costuma aludir a textos anteriores sem se prender a uma reprodução rígida e sequencial da fonte referenciada, priorizando o impacto emocional e teológico da alusão sobre a precisão estrutural exata entre os dois textos comparados.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Jeremias 4:23-26 é uma previsão literal do fim físico e definitivo do planeta.

    O contexto imediato trata da invasão babilônica histórica contra Judá; a linguagem cósmica é um recurso poético de anticriação para comunicar a gravidade do julgamento histórico, não uma previsão astronômica literal.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Crítica literária bíblica

    Lê o texto como exemplo clássico do gênero 'anticriação', identificando paralelos estruturais precisos com como recurso retórico deliberado do profeta.

  • Dispensacionalista

    Tende a associar mais diretamente essa linguagem cósmica a antecipações do juízo escatológico final, lendo o cumprimento histórico babilônico como sombra de um cumprimento futuro maior.

No original1 termo
  • תֹּהוּ וָבֹהוּtohu va-vohuH8414

    'Sem forma e vazio'; expressão idêntica à de , usada por Jeremias para descrever a devastação de Judá como reversão da criação.

O que fazer com isso

A imagem lembra que julgamento moral e espiritual, mesmo quando histórico e localizado, nunca é evento pequeno ou neutro na visão bíblica: ele atinge a experiência humana com a mesma gravidade simbólica do desfazimento da própria criação. Isso confronta a tentação de minimizar as consequências reais da infidelidade espiritual como se fossem apenas contratempos administráveis e sem peso existencial verdadeiro.

Passagens relacionadas5

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Fontes consultadas3 obras
  • William L. Holladay. Jeremiah 1: A Commentary on the Book of the Prophet Jeremiah Chapters 1-25, 1986.
  • J. A. Thompson. The Book of Jeremiah (NICOT), 1980.
  • Robert P. Carroll. Jeremiah: A Commentary (Old Testament Library), 1986.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O que significa 'tohu va-vohu' em Jeremias 4:23?

É a mesma expressão hebraica de , 'sem forma e vazio', usada aqui para descrever a devastação de Judá como uma reversão simbólica da própria criação.

Jeremias 4:23-26 fala do fim do mundo?

O contexto histórico é a invasão babilônica contra Judá; a linguagem cósmica é recurso poético de anticriação, não uma previsão literal do fim físico do planeta.

Temas

Publicado em 16/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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