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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

A praga misteriosa que atingiu os filisteus

Que praga atingiu os filisteus depois de capturarem a arca?

Porém agravou-se a mão do SENHOR sobre os de Asdode, e assolou-os, e feriu-os com chagas em Asdode e em todos seus termos. E vendo isto os de Asdode, disseram: Não fique conosco a arca do Deus de Israel, porque sua mão é dura sobre nós, e sobre nosso deus Dagom. Mandaram, pois, juntar a si todos os príncipes dos filisteus, e disseram: Que faremos da arca do Deus de Israel? E eles responderam: Passe-se a arca do Deus de Israel a Gate. E passaram ali a arca do Deus de Israel. E aconteceu que quando a houveram passado, a mão do SENHOR foi contra a cidade com grande tormento; e feriu os homens daquela cidade desde o pequeno até o grande, que se encheram de chagas.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

O texto hebraico de diz que os filisteus foram atingidos por ofalim (עֳפָלִים), palavra rara cujo sentido exato se perdeu parcialmente; a tradução tradicional é 'tumores' ou 'inchaços', e por muito tempo comentaristas cristãos e judeus leram isso como hemorroidas — sofrimento humilhante, mas não letal. A dificuldade é que o capítulo seguinte menciona ratos e imagens de ouro representando as pragas, o que levou vários estudiosos modernos a propor que o relato descreve, na verdade, sintomas de peste bubônica, transmitida por roedores, com os inchaços sendo bubões linfáticos.

As duas leituras coexistem na literatura acadêmica sem consenso definitivo, porque o hebraico bíblico é econômico demais em detalhes clínicos para decidir com certeza entre as opções.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

A ligação com Cristo aqui é genuinamente indireta: o episódio fala da supremacia do Deus de Israel sobre um ídolo pagão, não de um cumprimento messiânico direto. Ainda assim, o padrão de um Deus que julga poderes estrangeiros para libertar ou proteger seu povo antecipa, em traço largo, a vitória cósmica sobre 'poderes e autoridades' que o Novo Testamento atribui à cruz.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Depois de roubar a arca da aliança, os filisteus colocaram o objeto sagrado no templo do deus deles, Dagom, e a estátua caiu quebrada duas vezes seguidas. Logo depois, uma doença dolorosa, com inchaços no corpo, começou a atingir as cidades por onde a arca passava. A Bíblia usa uma palavra hebraica difícil de traduzir: pode ser hemorroidas ou algo parecido com uma peste espalhada por ratos. De qualquer forma, os filisteus entenderam o recado e devolveram a arca para Israel, com medo de morrer.

Contexto histórico

A arca da aliança, capturada pelos filisteus na derrota de Israel em Afeque, é levada como troféu de guerra para o templo de Dagom, o principal deus filisteu, na cidade de Asdode. Colocar o objeto sagrado do inimigo derrotado ao lado ou abaixo da imagem da própria divindade era prática comum no mundo antigo, uma forma de declarar publicamente que o deus vencedor havia subjugado o deus vencido. O narrador bíblico inverte essa lógica imediatamente: na manhã seguinte, a estátua de Dagom é encontrada caída de rosto no chão diante da arca, e depois de recolocada, cai de novo, agora com a cabeça e as mãos quebradas sobre o umbral do templo — uma imagem de humilhação total do ídolo diante do Deus de Israel.

É nesse ponto que a narrativa introduz a praga física: os habitantes de Asdode são atingidos por inchaços dolorosos, e o pânico faz a cidade transferir a arca para Gate, e depois para Ecrom, num périplo de três das cinco cidades da confederação filisteia (a Pentápole). Em cada lugar, a mesma aflição se repete, e a população local suplica que a arca seja devolvida a Israel antes que a mortandade aumente ainda mais. Os sacerdotes e adivinhos filisteus são consultados, e é esse conselho profissional pagão, paradoxalmente, que orienta a devolução respeitosa do objeto sagrado israelita, incluindo uma oferta compensatória. O episódio inteiro funciona como uma disputa teológica narrada como comédia de horror: o deus estrangeiro é ridicularizado, e o poder do Deus de Israel se manifesta mesmo fora do território e do controle do seu próprio povo, atingindo pagãos que nunca fizeram aliança com ele. O relato faz isso sem nenhum israelita presente em cena: não há profeta, sacerdote ou general do lado de Israel controlando os eventos, o que reforça a ideia de que a ação é inteiramente de Deus, independente de qualquer agência humana israelita naquele momento de derrota e cativeiro do símbolo mais sagrado da nação.

Aprofundamento

A palavra hebraica em disputa é ofalim (עֳפָלִים), plural de afel, termo que aparece pouquíssimas vezes no Antigo Testamento e cuja raiz sugere algo 'inchado' ou 'elevado'. A tradição da Septuaginta grega e da Vulgata latina traduziu o termo por referência a inchaços na região retal, o que consolidou por séculos a leitura de 'hemorroidas' em traduções cristãs, incluindo a Almeida clássica em português. P. Kyle McCarter Jr., no comentário da Anchor Bible, observa que o texto massorético traz uma nota marginal (qere) sugerindo uma leitura alternativa e que os manuscritos de Qumran (4QSam-a) parecem preservar uma versão mais longa do relato, incluindo referência explícita a ratos destruindo a terra — detalhe que o texto massorético só recupera implicitamente no capítulo 6, quando os filisteus fabricam réplicas de ouro tanto dos inchaços quanto de ratos como oferta expiatória.

Ralph W. Klein, na Word Biblical Commentary, e outros estudiosos que trabalham com esse texto de Qumran defendem que o relato original descrevia uma epidemia associada a roedores, compatível com quadros clínicos de peste bubônica, na qual gânglios linfáticos inchados (bubões) nas virilhas e axilas são sintoma característico — o que se encaixaria melhor com 'inchaços' generalizados do que com hemorroidas especificamente. Robert D. Bergen, na New American Commentary, é mais cauteloso e argumenta que a identificação clínica exata é secundária ao propósito teológico do relato, que é demonstrar publicamente a impotência de Dagom diante do Deus de Israel, e não descrever epidemiologia com precisão médica moderna.

Há ainda quem veja aqui um paralelo estrutural com as pragas do Êxodo: assim como o Egito sofreu para que Faraó reconhecesse o Senhor, os filisteus sofrem até reconhecerem publicamente 'o Deus de Israel' (5:7) e 'a mão pesada' dele sobre eles (5:11), usando de novo a raiz kabod/pesado como jogo de palavras com o tema da glória perdida em Icabode, no capítulo anterior. Seja qual for o diagnóstico exato, o texto deixa claro que a arca não é um objeto neutro: capturá-la sem autoridade divina tem consequências físicas reais, mesmo para quem está totalmente fora de qualquer aliança formal com o Deus de Israel. É significativo, ainda, que sejam os próprios sacerdotes filisteus e adivinhos filisteus, no capítulo 6, a recomendar a devolução respeitosa da arca com uma oferta — um reconhecimento pagão, involuntário e desconfortável, de que o Deus estrangeiro capturado ainda governava os acontecimentos em território que nunca tinha sido, em nenhum sentido, o seu.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:A Bíblia afirma com certeza médica que os filisteus tiveram hemorroidas.

    O termo hebraico ofalim é ambíguo e raro; a leitura de 'hemorroidas' vem de traduções antigas (Septuaginta, Vulgata), mas manuscritos de Qumran e o contexto dos ratos no capítulo 6 sugerem, para vários estudiosos, um quadro mais compatível com peste bubônica.

Como diferentes tradições cristãs leem1 leitura

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Tradição rabínica clássica

    Diversos midrashim e comentaristas judaicos medievais, incluindo leituras associadas a Rashi, seguem a linha de que ofalim se refere a inchaços na região retal, entendendo a praga como humilhação física direta e específica, e não como epidemia generalizada.

No original1 termo
  • עֳפָלִיםofalim

    Termo raro traduzido como 'tumores' ou 'inchaços'; no texto, descreve a aflição física que atinge os filisteus em cada cidade por onde a arca capturada passa.

O que fazer com isso

A ambiguidade da palavra hebraica é honesta demais para ser escondida: às vezes o texto bíblico não responde perguntas que a curiosidade moderna insiste em fazer, como o diagnóstico clínico exato de uma praga de três mil anos atrás. O que o relato garante, sem ambiguidade, é a humilhação pública do ídolo e o alcance do poder de Deus além das fronteiras de Israel — um lembrete de que a soberania divina não se limita ao território ou ao povo que a reconhece oficialmente.

Passagens relacionadas4

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • P. Kyle McCarter Jr.. I Samuel (Anchor Bible), 1980.
  • Ralph W. Klein. 1 Samuel (Word Biblical Commentary), 1983.
  • Robert D. Bergen. 1, 2 Samuel (New American Commentary), 1996.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Por que os filisteus não devolveram a arca imediatamente?

Cada cidade só decidia devolvê-la depois de sofrer a mesma praga que a cidade anterior; o pânico foi crescendo conforme o objeto circulava pela Pentápole filisteia, até a devolução ser vista como única saída.

Temas

  • No hebraico
  • #filisteus
  • #arca-da-alianca
  • #praga
  • #traducao-biblica
  • #peste
  • #1-samuel

Publicado em 16/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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