Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Expressões hebraicasintermediária
Ilustração da categoria Expressões hebraicas

Salmo 111: o temor do Senhor é o princípio da sabedoria

o que significa "o temor do senhor é o princípio da sabedoria" no salmo 111

Aleluia! Louvarei ao SENHOR com todo o coração, no conselho e na congregação dos corretos. Grandes são as obras do SENHOR; procuradas por todos os que nelas se agradam. Glória e majestade são o seu agir, e sua justiça permanece para sempre. Ele fez memoráveis as suas maravilhas; piedoso é misericordioso é o SENHOR. Ele deu alimento aos que o temem; ele se lembrará para sempre de seu pacto. Ele anunciou o poder se suas obras a seu povo, dando-lhes a herança de nações estrangeiras. As obras de suas mãos são verdade e juízo, e todos os seus mandamentos são fiéis. Eles ficarão firmes para sempre, e são feitos em verdade e justiça. Ele enviou resgate a seu povo, ordenou seu pacto para sempre; santo e temível é o seu nome. O temor ao SENHOR é o princípio da sabedoria; inteligentes são todos o que isto praticam. O louvor a ele dura para sempre.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

O Salmo 111 é um hino de louvor construído como acróstico: no hebraico original, cada uma de suas vinte e duas linhas curtas começa com uma letra sucessiva do alfabeto, de alef a tau. O salmista celebra as obras do Senhor diante da comunidade reunida, "no conselho e na congregação dos corretos" — a criação, o cuidado com o povo, a aliança lembrada para sempre e a libertação que ele chama de resgate.

O salmo termina com uma frase que soa familiar a quem já leu Provérbios: "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria". A repetição não é acidente nem cópia literária. Era uma fórmula já consagrada na tradição sapiencial de Israel, usada também em Jó para fechar um ensino com a mesma conclusão: reverenciar a Deus, e não apenas acumular conhecimento, é onde a sabedoria verdadeira começa.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

A sabedoria celebrada aqui — reverência a Deus manifestada em conhecimento de suas obras e obediência — encontra no Novo Testamento sua expressão mais plena em Cristo. Paulo escreve que Cristo "se tornou da parte de Deus sabedoria para nós" () e que nele "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento" (). Se o salmista via na obra histórica do Senhor — criação, aliança, redenção — o fundamento de toda sabedoria, o Novo Testamento aponta que essa mesma obra culmina na pessoa de Jesus: a cruz, que ao mundo parece loucura, é chamada por Paulo de "poder de Deus e sabedoria de Deus" (). O temor reverente que o salmo pede diante das obras do Senhor encontra, na fé cristã, seu equivalente na resposta de adoração diante da obra redentora de Cristo.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

O Salmo 111 é uma canção de louvor. No hebraico original, cada linha começa com uma letra do alfabeto, em ordem — um recurso que ajudava a memorizar e mostrava que o louvor a Deus era completo, do começo ao fim. O salmista lembra o que Deus fez: criou o mundo, cuidou do seu povo, cumpriu as promessas que havia feito. No final, ele resume tudo numa frase que também aparece em Provérbios: respeitar a Deus de verdade é o ponto de partida de toda sabedoria.

Contexto histórico

pertence a um pequeno grupo de salmos acrósticos, ao lado dos , 34, 37, 119 e 145: no hebraico, cada uma de suas vinte e duas linhas curtas abre com a letra seguinte do alfabeto, de alef a tau. É um recurso mnemônico e também uma forma de dizer, estruturalmente, que o louvor a Deus é completo — da primeira à última letra. O Salmo 112, que vem logo em seguida, usa exatamente a mesma estrutura e boa parte do mesmo vocabulário, mas descreve a vida da pessoa que teme ao Senhor, quase como um espelho do salmo anterior.

O conteúdo do Salmo 111 é um catálogo das obras do Senhor: "grandes são as obras do Senhor" (v.2), sua justiça permanece (v.3), ele alimenta os que o temem (v.5), lembra-se de seu pacto (v.5,9) e deu ao povo "a herança de nações estrangeiras" — uma referência à conquista de Canaã. O verbo "resgate" (v.9) remete ao êxodo do Egito, o evento fundador da identidade de Israel como povo liberto. O salmo abre com "Aleluia", a mesma expressão hebraica ("louvai a Yah") que abre outros salmos de louvor, embora tecnicamente não pertença ao grupo do Hallel litúrgico ( a 118), cantado na Páscoa judaica.

Vários comentaristas, como Derek Kidner e Craig Broyles, sugerem uma composição no período pós-exílico, com base no estilo acróstico e no vocabulário refletido do salmo — uma hipótese razoável, mas não um consenso fechado entre os estudiosos. Também não há indicação segura de autoria davídica ou de uma ocasião litúrgica específica; o texto hebraico traz apenas o título "Aleluia", sem atribuição de nome, o que é raro entre os salmos de louvor mais extensos.

O que chama atenção nesse salmo específico é seu final: depois de nove versículos listando obras históricas de Deus, ele fecha com a mesma fórmula sapiencial que aparece em Jó e Provérbios, ligando louvor histórico e ensino de sabedoria num único poema curto e cuidadosamente construído.

Aprofundamento

A pergunta natural é: por que uma frase tão associada a Provérbios aparece também no fim de um salmo de louvor? A resposta está em como funcionava a tradição sapiencial de Israel. "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (ou variações próximas) aparece em pelo menos quatro lugares do Antigo Testamento: , , e aqui, . Não são citações literais umas das outras, mas um refrão teológico fixo, uma espécie de selo usado para encerrar um ensino — como se cada autor recorresse a um ditado já conhecido de todos para resumir sua mensagem.

Isso revela algo importante sobre a literatura bíblica: a fronteira entre "livros de sabedoria" (Provérbios, Jó, Eclesiastes) e "livros de louvor" (Salmos) é mais porosa do que os títulos sugerem. Estudiosos classificam vários salmos — como o 1, o 37, o 73 e o 119, além do 111 e 112 — como "salmos sapienciais", porque incorporam temas e vocabulário típicos da sabedoria dentro da forma de oração e louvor.

O que torna o Salmo 111 particular é onde ele coloca essa conclusão. Em Provérbios, a frase costuma abrir um discurso dirigido a um aprendiz ("meu filho"), como ponto de partida de uma instrução. Aqui, ela fecha um poema que passou nove versículos recontando o que Deus já fez na história — criação, aliança, libertação do Egito, conquista da terra. A ordem importa: o salmista não pede que se tema a Deus como exercício abstrato, mas como resposta lógica a um Deus que se mostrou, com fatos, digno de confiança e reverência. A sabedoria, aqui, nasce de memória histórica, não de especulação.

Vale notar ainda a estrutura acróstica como parte do argumento: ao percorrer todo o alfabeto hebraico, o salmo sugere visualmente que o louvor à obra de Deus e a sabedoria que dele resulta cobrem a totalidade da experiência — do alef ao tau, como quem diz "de A a Z". O verso final reforça essa totalidade ligando conhecimento correto ("inteligentes") à prática ("todos os que isto praticam") — sabedoria bíblica nunca é só informação retida, é vida ajustada ao que se conhece de Deus.

Essa combinação também explica por que o Salmo 111 caminha ao lado do Salmo 112, e não isolado. Se o 111 descreve quem Deus é e o que ele fez, o 112 descreve, com o mesmo molde acróstico, como fica a vida de quem responde a esse Deus com temor genuíno — generoso, justo, firme mesmo diante de más notícias. Lidos em conjunto, os dois salmos formam um pequeno tratado de sabedoria em forma de poema duplo: primeiro o fundamento (o caráter e a ação de Deus), depois o fruto (o caráter de quem o teme).

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:"Temor do Senhor" significa ter medo de Deus, como se ele fosse alguém a se temer a cada momento.

    No hebraico bíblico, a palavra para temor (yirah) em contextos de sabedoria descreve reverência e submissão diante da grandeza de Deus, não pavor. Léxicos padrão como o HALOT registram esse sentido de reverência respeitosa ao lado do sentido de medo literal, e o próprio salmo descreve esse Deus como misericordioso (v.4) e provedor de alimento (v.5) — não como alguém a ser temido no sentido de terror.

  • Dizem que:A frase "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria" pertence originalmente a Provérbios e foi apenas copiada aqui.

    A mesma fórmula, com pequenas variações, aparece em , , e aqui, no Salmo 111:10 — não há indício de que um texto tenha copiado o outro; trata-se de um ditado consagrado da tradição sapiencial de Israel, repetido em gêneros diferentes: diálogo, coleção de provérbios e hino.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Reformada

    Lê o salmo como testemunho da aliança: as "obras do Senhor" e o pacto lembrado "para sempre" apontam para a soberania de Deus na história da salvação, e o temor do Senhor no v.10 é a postura de submissão reverente exigida de quem vive sob essa aliança.

  • Católica

    Associa o "temor do Senhor" de a um dos sete dons do Espírito Santo, tradicionalmente lidos a partir de , entendido como o início da vida espiritual — não medo servil, mas reverência filial que leva à santidade.

  • Luterana

    Distingue entre temor servil (medo do castigo) e temor filial (reverência que nasce da graça); o temor do salmo é lido como esse segundo tipo, fruto da confiança em um Deus que já se revelou fiel e misericordioso (v.4), não terror diante de um juiz distante.

  • Pentecostal

    Enfatiza a dimensão prática do versículo final ("inteligentes são todos os que isto praticam"): sabedoria genuína se comprova na obediência vivida, não apenas no conhecimento correto; o temor do Senhor é medido pelo fruto de uma vida transformada.

No original5 termos
  • יְהוָהYHWHH3068

    O nome pessoal do Deus de Israel, geralmente traduzido "SENHOR" em maiúsculas; aparece repetidamente no salmo como sujeito das obras louvadas.

  • יִרְאָהyirahH3374

    Temor, reverência; no contexto sapiencial designa a atitude de respeito e submissão diante de Deus, não pavor.

  • רֵאשִׁיתreshitH7225

    Começo, princípio, mas também "parte principal" ou "o melhor de"; a mesma raiz de bereshit, "no princípio", em .

  • חָכְמָהchokmahH2451

    Sabedoria; na tradição sapiencial hebraica, não é apenas conhecimento técnico, mas capacidade de viver bem diante de Deus e dos outros.

  • הַלְלוּיָהּhalelu-Yah

    "Louvai a Yah [o SENHOR]", fórmula de abertura de vários salmos de louvor; a palavra "Aleluia" em português vem diretamente dessa expressão hebraica.

O que fazer com isso

Diante de tanta informação disponível hoje, o Salmo 111 lembra que saber muito e ser sábio não são a mesma coisa. O salmo liga sabedoria a memória — lembrar o que Deus já fez — e a prática, não a acúmulo de dados. Antes de somar mais um curso, mais uma notícia, mais uma opinião, vale parar e perguntar: essa reverência diante de algo maior que eu está realmente moldando minhas decisões do dia a dia, ou fica só na teoria?

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Derek Kidner. Psalms 73-150: An Introduction and Commentary, 1975.
  • C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Psalms, 1866.
  • Craig C. Broyles. Psalms (New International Biblical Commentary), 1999.
  • Ludwig Koehler e Walter Baumgartner. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Salmo 111 é parte dos salmos do Hallel cantados na Páscoa judaica?

Não exatamente. O Hallel litúrgico tradicional reúne os a 118. O Salmo 111 abre com a mesma palavra "Aleluia" e compartilha o tom de louvor, mas pertence a um grupo diferente, ligado aos salmos acrósticos e sapienciais.

O que é um salmo acróstico?

É um poema em que cada linha, na língua original, começa com uma letra sucessiva do alfabeto — no hebraico, de alef a tau, vinte e duas letras. O Salmo 111 tem vinte e duas linhas curtas organizadas dessa forma, um recurso usado também nos , 34, 37, 119 e 145.

Por que a mesma frase sobre o temor do Senhor aparece em Jó, Provérbios e aqui no Salmo 111?

Porque era uma fórmula consagrada na tradição sapiencial de Israel, usada para resumir ou selar um ensino — um refrão teológico repetido em textos de gêneros diferentes, não uma citação literal de um livro para outro.

Os salmos 111 e 112 têm alguma relação entre si?

Sim. Ambos são acrósticos de vinte e duas linhas, com vocabulário e estrutura muito parecidos — o Salmo 111 descreve as obras do Senhor, e o Salmo 112 descreve a vida da pessoa que teme a esse mesmo Senhor, quase como um espelho.

Temas

Publicado em 27/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.

Continue por aqui

Salmo 25:1-7 - Pedido de Perdão e Direção

O Salmo 25 abre com uma súplica pessoal: "A ti, SENHOR, levanto minha alma" (v.1). Nos primeiros sete versículos, o salmista pede duas coisas que parecem distantes, mas caminham juntas: não ser envergonhado diante dos inimigos e ser ensinado nos caminhos de Deus. A confiança (v.2-3) e o pedido de instrução (v.4-5) formam a base de uma oração que trata a vida inteira, não apenas um problema pontual.

Ler explicação →
Expressões hebraicasSalmos 117:1-2

Salmo 117: o menor capítulo com o maior alcance

O Salmo 117 é o capítulo mais curto de toda a Bíblia: apenas dois versos, sem introdução, sem lamento, sem pedido. Ainda assim, seu alcance é o maior possível — convoca "todas as nações" e "todos os povos" a louvar o SENHOR, não apenas Israel. Essa desproporção entre extensão mínima e escopo máximo não é acidente: o salmo tem a forma clássica de um hino de louvor, com um chamado no primeiro verso e o motivo para louvar no segundo.

Ler explicação →
Expressões hebraicasSalmos 119:105

Salmos 119:105: a lâmpada que só ilumina o próximo passo

Salmos 119:105 está na estrofe da letra hebraica nun, uma entre as vinte e duas que organizam o salmo mais longo da Bíblia: 176 versículos em blocos de oito, todos girando em torno da lei e da palavra de Deus. Ali o salmista diz: "Tua palavra é lâmpada para meus pés e luz para meu caminho", usando duas imagens que se completam — lâmpada (ner) para o passo imediato, luz (or) para o trajeto mais largo.

Ler explicação →

Perto de quem clama em verdade (Salmos 145:18)

"O Senhor está perto de todos os que o chamam; de todos os que clamam a ele sinceramente" (Salmos 145:18) é um dos versículos mais citados da Bíblia sobre oração — e um dos mais citados pela metade. A promessa de proximidade não é dirigida a qualquer forma de chamar a Deus, mas especificamente a quem o faz "sinceramente" (be'emet, "em verdade", no hebraico), uma condição que a segunda metade do versículo acrescenta à primeira.

Ler explicação →