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Significado Bíblico
Expressões hebraicasintermediária
Ilustração da categoria Expressões hebraicas

O que significa 'Abba, Pai' em Romanos 8:15?

O que quer dizer Abba, Pai, e por que Paulo usa uma palavra aramaica numa carta escrita em grego?

Pois não recebestes o espírito de escravidão, para voltardes ao medo; mas recebestes o Espírito de adoção como filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai!

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Em , Paulo contrasta dois espíritos: o de escravidão, que gera medo, e o de adoção, que leva o cristão a clamar Abba, Pai. Abba é uma palavra aramaica de uso familiar para dirigir-se ao pai, e Paulo a conserva no original dentro de um texto grego, ao lado da tradução, pater. A imagem da adoção vem do mundo romano, onde um filho adotado recebia nome, herança e plena posição na família. O versículo não promete intimidade sentimental vaga: ele descreve uma mudança de status, realizada pelo Espírito, que torna o crente herdeiro com Cristo. Compreender o termo aramaico, o pano de fundo da adoção e o contraste com o medo ajuda a ler o verso sem exageros e sem esvaziá-lo.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

O clamor Abba aparece na oração de Jesus no Getsêmani. A filiação dos crentes é participação na relação do Filho com o Pai, e a adoção nos faz coerdeiros de Cristo, que é o Filho por natureza.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Abba é a palavra aramaica para pai, usada dentro da família. Paulo diz que quem crê em Cristo não recebeu um espírito de escravo, que vive com medo, mas um espírito de filho adotado, que pode chamar Deus de Pai. A comparação vem da adoção romana, em que o filho adotado ganhava nome e herança. Não é uma gíria de criança: é confiança com respeito. O Espírito é quem leva a pessoa a orar assim, e por isso o versículo fala de segurança, não de medo.

Contexto histórico

é o ponto alto da primeira grande parte da carta. Depois de mostrar que ninguém é justificado pelas obras da lei, Paulo descreve a vida no Espírito em contraste com a vida segundo a carne. No versículo 14, ele afirma que todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus, e o versículo 15 explica o que isso significa na experiência: vós não recebestes espírito de escravidão para outra vez temer, mas recebestes espírito de adoção, pelo qual clamamos: Abba, Pai. A carta é dirigida aos cristãos de Roma, uma comunidade formada por judeus e gentios na capital do império, onde a adoção era uma prática social conhecida. Um adulto, especialmente de famílias importantes, podia adotar um filho e dar-lhe seu nome, seu patrimônio e a posição de herdeiro legal. Quem era adotado deixava para trás dívidas e vínculos anteriores. Ao mesmo tempo, Paulo escreve para pessoas que conheciam a escravidão de perto, já que a população de Roma incluía muitos escravos e libertos, e a lista de saudações em traz nomes comuns nesse meio. O contraste entre o escravo, que não tem garantia de permanência na casa, e o filho, que permanece, aparece também em e era compreensível para quem vivia ali. Havia ainda leitores judeus, para quem o título de filho de Deus remetia a Israel, chamado filho no êxodo. A palavra Abba aparece só três vezes no Novo Testamento: aqui, em e na oração de Jesus no Getsêmani, em . Nos três casos, vem seguida do equivalente grego, ho pater, o pai. Isso sugere que a expressão era conhecida e usada nas primeiras comunidades, inclusive entre falantes de grego. O contexto imediato vai ainda mais longe: o versículo 17 conclui que os filhos são herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo, desde que também sofram com ele.

Aprofundamento

O termo central é Abba, forma aramaica que aparece na fala de Jesus e que Paulo conserva. Joachim Jeremias popularizou a tese de que Abba seria um termo infantil, equivalente a papai, e muita pregação repetiu isso. O estudo de James Barr, publicado em 1988, mostrou que essa leitura é exagerada: Abba era usado também por filhos adultos e carregava respeito, além de afeto. O melhor resumo é que a palavra expressa proximidade e confiança familiar, sem perder a reverência. Isso importa porque muitos leitores concluem que Paulo fala de uma intimidade quase informal, o que o texto não exige. O contraste do versículo 15 é entre medo e filiação. O espírito de escravidão gera temor, e Paulo provavelmente tem em mente tanto a escravidão do pecado, de que falou em , quanto a condição de quem vive debaixo da condenação da lei. O espírito de adoção, em grego pneuma huiothesias, aponta para a obra do Espírito Santo que coloca o crente na posição de filho. A palavra huiothesia significa literalmente colocação como filho e não aparece na Septuaginta; é um termo comum no mundo greco-romano, e Paulo a usa para tratar da mudança de posição legal. Em , a filiação pertence a Israel, e Paulo estende esse privilégio aos que creem em Cristo. A adoção, portanto, não é criação de uma ficção, e sim a atribuição real de um status. O versículo seguinte esclarece que o próprio Espírito testemunha com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Isso significa que o clamor Abba não é só uma fórmula que o crente repete: é uma resposta suscitada pelo Espírito, o que explica o verbo krazo, clamar, que sugere um grito sincero e urgente. Em o sujeito do clamor é o Espírito de Cristo no coração, e em somos nós; as duas coisas se complementam. Note, por fim, que o clamor é coletivo, no plural: clamamos. A filiação não é apenas experiência individual, mas pertença a uma família. E essa família é composta de judeus e gentios, que agora usam a mesma palavra aramaica e grega para falar com Deus. Convém notar também o que o versículo não diz. Ele não afirma que o medo desaparece em toda circunstância, nem que o crente deixa de sofrer, pois o capítulo continua falando de sofrimento e gemidos. O que muda é a base da relação: o crente já não se aproxima de Deus como escravo em teste, e sim como filho cuja posição foi assegurada. Esse é o sentido do contraste com o temor, e é por isso que o clamor Abba pode surgir mesmo em meio à dor.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Abba significa papai, uma palavra de criança pequena.

    A tese foi popularizada por Joachim Jeremias, mas James Barr mostrou que Abba também era usado por adultos e tinha tom respeitoso. A palavra indica proximidade e confiança, não necessariamente linguagem infantil.

  • Dizem que:Paulo usa a adoção como uma metáfora vazia, sem consequência real.

    No mundo romano, o filho adotado recebia nome, herança e plenos direitos. Paulo usa a imagem justamente para dizer que a posição do crente muda de fato, e o versículo 17 conclui falando de herança.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura de adoção jurídica e experiência do Espírito (tradição reformada)

    A adoção é um ato legal pelo qual Deus declara o crente seu filho, e o Espírito dá a certeza e o clamor de filho. O foco está na posição e na segurança.

  • Leitura de pano de fundo no êxodo (N. T. Wright e outros)

    A linguagem de escravidão, medo e filiação lembra o êxodo, em que Deus chama Israel de filho. Paulo apresenta a igreja como povo do novo êxodo, guiado pelo Espírito rumo à herança.

No original2 termos
  • ἀββάabbaG5

    Palavra aramaica para pai, de uso familiar, que expressa proximidade e respeito. Paulo a mantém no original e a acompanha da tradução grega ho pater.

  • υἱοθεσίαhuiothesiaG5206

    Literalmente, colocação como filho: adoção. No mundo greco-romano, designava o ato legal de tornar alguém filho com direito à herança.

O que fazer com isso

A ideia central do texto é que o cristão não se aproxima de Deus como quem tenta pagar uma dívida, mas como quem foi acolhido numa família. Isso muda a oração: ela pode ser honesta, confiante e respeitosa ao mesmo tempo. Se a sua relação com Deus é dominada pelo medo de errar, vale reler este versículo com calma e orar usando a palavra pai, lembrando que a posição de filho foi dada, e não conquistada.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Douglas J. Moo. The Epistle to the Romans (New International Commentary on the New Testament), 1996.
  • James Barr. Abba isn't 'Daddy', Journal of Theological Studies 39, 1988.
  • Joachim Jeremias. Abba: Studien zur neutestamentlichen Theologie und Zeitgeschichte, 1966.
  • James D. G. Dunn. Romans 1-8 (Word Biblical Commentary), 1988.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Posso chamar Deus de papai?

O texto não proíbe a ternura, mas Abba não significa papai no sentido infantil. O melhor é entender a palavra como confiança de filho com reverência, sem tratar Deus como figura casual.

Por que Paulo escreve Abba, Pai, repetindo a mesma ideia?

Provavelmente porque a expressão aramaica era conhecida nas igrejas, inclusive de língua grega, e vinha acompanhada da tradução. A repetição dá peso à fórmula de oração usada desde Jesus.

Temas

Publicado em 05/11/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Continue por aqui

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