
O que são os gemidos inexprimíveis do Espírito em Romanos 8:26-27?
Os gemidos inexprimíveis do Espírito em Romanos 8:26 são a oração em línguas ou algo diferente?
E da mesma maneira também o Espírito ajuda em nossas fraquezas. Pois não sabemos orar como se deve, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito, pois ele intercede pelos santos, segundo a vontade de Deus.
Resposta curta
Em , Paulo diz que o Espírito ajuda as nossas fraquezas, porque não sabemos orar como convém, e que ele mesmo intercede 'com gemidos inexprimíveis'. Quem examina os corações conhece o pensamento do Espírito, que intercede pelos santos segundo Deus. A frase gera uma pergunta frequente: seriam esses gemidos a oração em línguas? A maior parte dos comentaristas responde que não, porque o texto atribui os gemidos ao próprio Espírito, não ao crente, e os descreve como 'inexprimíveis' ou 'sem palavras', e não como falas ininteligíveis. O texto trata de outra coisa: a fraqueza real de quem ora, a insuficiência da nossa linguagem e a solidariedade do Espírito, que sustenta o cristão e, junto com a criação e os filhos de Deus, aguarda a redenção final.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO texto fala da intercessão do Espírito, mas o capítulo situa essa obra ao lado da intercessão de Cristo: poucos versículos depois, Paulo diz que Cristo Jesus, que morreu e ressuscitou, está à direita de Deus e também intercede por nós. O Espírito e o Filho agem a favor dos fracos, e ambos apontam para o Pai.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Paulo diz que, quando não sabemos o que pedir a Deus, o Espírito Santo nos ajuda e fala por nós com gemidos que palavras não conseguem expressar. Deus, que conhece o coração, entende o que o Espírito quer. Muita gente pergunta se isso é oração em línguas, mas o texto não diz isso: ele fala de uma ajuda do Espírito a todos os cristãos em suas fraquezas.
Contexto histórico
é o ponto alto da carta na exposição da vida no Espírito. Depois de afirmar que não há condenação para os que estão em Cristo Jesus (8:1), Paulo contrapõe a carne e o Espírito, declara que os filhos de Deus são guiados pelo Espírito e que este testemunha com o nosso espírito que somos filhos (8:14-16). Em seguida, introduz o tema do sofrimento presente e da glória futura (8:17-18).
O trecho imediatamente anterior ao nosso texto fala de três tipos de gemido. A criação geme, como que em dores de parto, aguardando a libertação (8:19-22). Os cristãos, que já têm as primícias do Espírito, também gemem, esperando a redenção do corpo (8:23). Em 8:26-27 surge o terceiro gemido: o do Espírito. Os três estão ligados pela esperança que ainda não é visão (8:24-25). Paulo não esconde a dureza do tempo presente: fala de sofrimento, de fraqueza e de espera, e afirma que o Espírito está dentro dessa realidade, e não acima dela.
É nesse cenário que Paulo diz que 'da mesma forma' o Espírito ajuda a nossa fraqueza. Ele não fala de uma fraqueza qualquer, mas de uma específica: 'não sabemos o que havemos de pedir como convém'. O problema não é a falta de vontade de orar, e sim a limitação de saber o que pedir. O contexto é o de sofrimento e espera, em que as palavras podem faltar. É a experiência de quem, diante de uma dor grande, abre a boca para orar e descobre que não sabe sequer o que pedir, se alívio, força, resposta ou apenas a presença de Deus.
Os versículos seguintes ampliam a perspectiva. O versículo 28 diz que Deus faz todas as coisas cooperarem para o bem dos que o amam, e os versículos 29-30 descrevem a sequência da obra salvadora, da presciência à glorificação. A intercessão do Espírito, portanto, está incluída em um quadro maior: o propósito de Deus de levar os seus até a glória, apesar da fraqueza e do sofrimento. Em 8:34 Paulo acrescenta que Cristo Jesus também intercede à direita de Deus.
Aprofundamento
A chave está em duas palavras gregas. A primeira é 'stenagmois', plural de stenagmos, 'gemido, suspiro'. É a mesma raiz do verbo que descreve o gemer da criação e dos crentes nos versículos anteriores. A segunda é 'alaletois', de alaletos, formada por alfa privativo e o verbo 'lalein', 'falar'. Pode significar 'inexprimível', 'indizível' ou 'sem palavras'. Significa literalmente 'não falados', o que dá margem à discussão.
O debate sobre línguas surgiu especialmente no século XX. O exegeta alemão Ernst Käsemann, em estudo muito citado, propôs que Paulo estaria se referindo à glossolalia, entendida como linguagem extática do culto. A tese é que 'inexprimível' seria uma forma de falar de uma oração que foge à linguagem normal. A maior parte dos comentaristas, no entanto, discorda, por alguns motivos. Primeiro, quem geme é o Espírito, e não o crente. Segundo, os gemidos são 'alaletois', isto é, não pronunciados, o que dificilmente descreve uma fala audível. Terceiro, Paulo não usa aqui o vocabulário de línguas (glossa) que emprega em . Quarto, a passagem se dirige a todos os cristãos e descreve uma experiência comum, não um dom restrito a alguns, ao passo que em Paulo pergunta se todos falam em línguas, esperando resposta negativa.
Isso não significa que o texto seja contra a oração em línguas. Significa apenas que ele não trata disso. Quem pratica ou rejeita essa oração precisa apoiar sua posição em e em outras passagens, e não em .
O que o texto diz, afinal? Há duas leituras principais. A primeira entende que o Espírito intercede por nós de fora da nossa consciência, ao lado de Cristo, de modo que os gemidos pertencem à vida interna de Deus. A segunda entende que o Espírito age dentro do crente e que os gemidos são a expressão dos anseios que ele suscita em nós, mesmo quando não temos palavras. Muitos comentaristas combinam as duas: o Espírito habita em nós e, por isso, a nossa oração insuficiente é tomada por ele e apresentada ao Pai conforme a vontade de Deus.
O versículo 27 consolida isso: 'aquele que examina os corações' sabe qual é a intenção (phronema) do Espírito. Em outras palavras, Deus Pai entende o que o Espírito quer, mesmo quando o crente não consegue formular. Isso não tira a responsabilidade de orar com palavras. Paulo mesmo ora e exorta à oração. O que ele afirma é que, quando a nossa oração esbarra no limite, ela não é anulada: o Espírito a toma e a completa.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Os 'gemidos inexprimíveis' de Romanos 8:26 são a oração em línguas.
O texto atribui os gemidos ao Espírito, e não ao cristão, e os chama de 'inexprimíveis' (sem palavras), enquanto a glossolalia em é fala, ainda que ininteligível sem interpretação. Além disso, Paulo não usa aqui a palavra 'glossa'. Por isso a maioria dos comentaristas, de várias tradições, não identifica os dois.
Dizem que:Se o Espírito ora por nós, não precisamos orar com palavras.
Paulo descreve uma ajuda diante da fraqueza, e não uma dispensa da oração. A carta toda e o restante do Novo Testamento exortam à oração (; ). O Espírito sustenta a oração do crente, não a substitui.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura não glossolálica (majoritária)
Os gemidos são a intercessão do próprio Espírito, que não depende de fala humana. Essa é a posição defendida, por exemplo, por Moo e Cranfield.
Leitura que associa à glossolalia
Käsemann e alguns outros intérpretes viram uma referência à oração extática no culto. A leitura é minoritária entre os comentaristas, mas é adotada por muitos cristãos de tradição pentecostal e carismática que a relacionam à experiência de oração em línguas.
Leitura do Espírito que ora em nós
O Espírito habita no crente e suscita nele anseios que vão além do que a palavra consegue dizer. Os gemidos são, de certo modo, nossos e dele, sem que se possa separar totalmente.
No original3 termos
στεναγμοῖςstenagmoisG4726
'Gemidos, suspiros'. Expressa dor e anseio sem palavras; a mesma raiz aparece no gemer da criação e dos crentes em .
ἀλαλήτοιςalaletoisG215
'Inexprimíveis, indizíveis, sem palavras'. Formada pelo alfa privativo e lalein ('falar'); aparece somente aqui no Novo Testamento.
ὑπερεντυγχάνειhyperentynchanei
'Intercede em favor de'. Verbo composto raro, que reforça a ideia de intercessão a favor dos fracos.
O que fazer com isso
O texto oferece consolo sem dispensar a oração. Quem não encontra palavras diante de uma perda, de uma doença ou de uma dúvida pode saber que a fraqueza não desqualifica a prece. Ao mesmo tempo, o convite continua sendo orar, com a confiança de que o Espírito complementa o que falta e leva o pedido ao Pai conforme a vontade dele.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- Douglas J. Moo. The Epistle to the Romans (NICNT), 1996.
- C. E. B. Cranfield. A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans (ICC), 1975.
- Joseph A. Fitzmyer. Romans (Anchor Bible), 1993.
- Ernst Käsemann. Commentary on Romans, 1980.
- Thomas R. Schreiner. Romans (BECNT), 1998.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Os gemidos são do Espírito ou do crente?
Do Espírito, segundo o texto: 'o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis'. Como o Espírito habita no crente, muitos comentaristas veem aí uma obra que acontece dentro dele, mas o sujeito gramatical é o Espírito.
Esse texto serve de base para a oração em línguas?
Não é a base mais sólida. As discussões sobre línguas se apoiam sobretudo em e em Atos. trata da intercessão do Espírito em favor de todos os crentes, e não nomeia o fenômeno das línguas.
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