
Animais de estimação vão para o céu?
Será que meu cachorro ou gato vai para o céu?
Pois a criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus; porque a criação ficou sujeita à futilidade (não por vontade própria, mas sim por causa daquele que a sujeitou), na esperança de que também a mesma criação seja liberta da escravidão da degradação para a liberdade da glória dos filhos de Deus.
Resposta curta
Em , Paulo escreve que "a criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus". Ela "ficou sujeita à futilidade" não por vontade própria, mas por decisão daquele que a sujeitou, e guarda a esperança de ser "liberta da escravidão da degradação para a liberdade da glória dos filhos de Deus". O termo grego por trás de "criação" (ktisis) designa a ordem física e natural, personificada pela imagem que Paulo usa.
Como o texto fala em termos coletivos sobre o cosmo marcado pela decadência desde a queda, ele é usado, com cautela, na pergunta sobre se animais de estimação têm lugar reservado no céu. O problema é que Paulo não trata da identidade ou sobrevivência de nenhum bicho específico; fala da criação como um todo, aguardando a renovação que acompanha a redenção completa dos filhos de Deus.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA espera da criação por libertação da decadência integra um tema que atravessa toda a Escritura - da maldição sobre a terra em até a promessa de "novos céus e nova terra" em - e que converge na obra de Cristo. O Novo Testamento liga explicitamente a reconciliação cósmica à pessoa de Cristo: é nele e por ele que "todas as coisas", no céu e na terra, são reconciliadas com Deus (). A ressurreição de Cristo é apresentada como as "primícias" () dessa renovação mais ampla - o primeiro sinal concreto de que a decadência não terá a palavra final sobre a matéria criada. A criação que Paulo descreve gemendo em espera, portanto, o mesmo evento que garante a ressurreição do corpo do crente: a consumação da obra iniciada na cruz e no túmulo vazio.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Paulo diz que a natureza inteira - o mundo criado - está "esperando", como alguém ansioso, o dia em que Deus vai revelar plenamente quem são seus filhos. Ele explica que essa criação ficou estragada, sujeita à decadência, não por culpa dela, mas por causa do pecado humano, e que um dia será libertada dessa condição. Muita gente usa esse texto para dizer que animais de estimação vão para o céu, mas Paulo está falando do mundo natural como um todo, não da vida depois da morte de um cachorro ou gato específico.
Contexto histórico
é o capítulo em que Paulo descreve a vida no Espírito depois de expor, nos capítulos anteriores, a condição humana sob o pecado e a justificação pela fé em Cristo. Nos versículos que antecedem 19-21, ele afirma que "as aflições deste tempo presente nem se comparam com a glória que nos será revelada" (v.18) e que os crentes são "filhos de Deus", herdeiros com Cristo, mas que ainda sofrem enquanto aguardam a plenitude dessa herança. É dentro dessa lógica - sofrimento presente e glória futura - que ele introduz a imagem da criação.
O pano de fundo é a narrativa de , em que o solo é amaldiçoado por causa do pecado de Adão (): a terra passa a produzir espinhos, o trabalho se torna penoso, e a criação inteira entra numa condição de decadência que não escolheu. Paulo lê essa condição como um estado provisório, e não definitivo: a criação foi "sujeita à futilidade" por decisão de Deus, mas "na esperança" de ser libertada quando a obra de redenção em Cristo chegar à sua consumação.
O termo grego ktisis (criação) aparece quatro vezes só nesses versículos (19, 20, 21, 22) e é o termo mais amplo do Novo Testamento para descrever o mundo físico criado - em contraste com o Criador. Comentaristas como C. E. B. Cranfield e Douglas Moo observam que, no uso de Paulo, o termo parece excluir tanto os seres humanos (tratados à parte, como "nós", no v.23) quanto os seres angelicais, referindo-se à ordem natural subumana: terra, elementos, e a vida animal e vegetal que nela existe. Não há, no entanto, unanimidade entre os intérpretes sobre até que ponto esse termo abrange especificamente os animais como indivíduos, e é exatamente aí que nasce a pergunta popular sobre o destino dos bichos de estimação: o texto fala de uma categoria coletiva e cósmica, não de casos particulares.
Aprofundamento
A imagem central de é a personificação: Paulo trata "a criação" como se ela tivesse consciência, expectativa e esperança, um recurso retórico comum na poesia hebraica (compare com e , onde montes e árvores "cantam" e "batem palmas"). O verbo traduzido por "espera ansiosamente" (apokaradokia, no grego) descreve alguém que estica o pescoço, olhando fixamente para o horizonte à espera de algo que ainda não chegou - uma imagem de expectativa tensa, não de garantia imediata.
O ponto mais debatido do texto é a frase "não por vontade própria, mas sim por causa daquele que a sujeitou" (v.20). A leitura mais comum, sustentada por comentaristas como Matthew Henry e Charles Hodge, entende que o sujeito da ação é o próprio Deus, que, ao julgar o pecado de Adão em , também impôs uma condição de "futilidade" (mataiotes, no grego - o mesmo termo usado em Eclesiastes na versão grega do Antigo Testamento para "vaidade") sobre o mundo natural. A criação não é punida por culpa própria; ela carrega as consequências de um pecado que não cometeu, mas o texto deixa claro que essa condição tem prazo de validade: ela existe "na esperança" de reversão.
A reversão prometida é descrita com duas imagens que se opõem: a criação está hoje na "escravidão da degradação" (douleia tes phthoras) e será conduzida à "liberdade da glória dos filhos de Deus" (eleutheria tes doxes). Ou seja, a libertação da criação está amarrada, no texto, à glorificação futura dos crentes - não é um evento isolado, mas parte do mesmo pacote escatológico. É esse vínculo que abre espaço para leituras diferentes: alguns entendem que a renovação da criação inclui uma restauração da vida animal (ecoando visões como a de , do lobo habitando com o cordeiro), enquanto outros preferem não extrapolar do texto mais do que ele afirma - a transformação geral do cosmo físico, sem detalhar o que acontece com cada espécie ou indivíduo animal.
O texto, portanto, sustenta com segurança a ideia de que o universo material não será descartado, mas renovado - uma ideia que aparece também em e . O que ele não sustenta, com o mesmo grau de clareza, é uma doutrina específica sobre a sobrevivência ou o destino individual de animais de estimação. Isso é uma extensão pastoral e especulativa, legítima como esperança, mas que ultrapassa o que Paulo realmente afirma neste parágrafo.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Romanos 8:19-21 prova que animais de estimação vão para o céu.
O texto fala da criação (ktisis) em termos coletivos e cósmicos - o mundo físico e natural como um todo - e não trata da identidade, consciência ou sobrevivência pessoal de nenhum animal específico. Não há, no grego original, nenhuma palavra ou construção que endereça o destino individual de um cão ou gato de estimação.
Dizem que:A palavra "criação" nesse texto significa apenas os animais.
Ktisis é o termo mais amplo do Novo Testamento para o mundo criado; comentaristas como Cranfield e Moo entendem que ele abrange toda a ordem física subumana - terra, elementos, plantas e animais -, não uma categoria restrita à fauna.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
reformada
A criação (ktisis) é lida como a ordem física subumana sujeita à maldição de ; sua libertação futura é entendida como a transformação geral do cosmo material na consumação escatológica, sem que o texto seja usado para afirmar doutrinas específicas sobre animais individuais.
católica
O texto é citado como base bíblica para a esperança de uma renovação cósmica que acompanha a ressurreição dos corpos - o universo material inteiro, e não só a alma humana, é objeto da redenção -, mas sem se pronunciar sobre a sobrevivência pessoal de animais específicos.
pentecostal
Dá-se ênfase à conexão entre o gemido da criação (v.22) e o gemido do próprio crente sob a ação do Espírito (v.26), lendo o texto como testemunho presente da tensão entre sofrimento e esperança, mais do que como uma doutrina sistemática sobre o destino de animais.
adventista
O texto é associado à esperança mais ampla da restauração de "toda a criação" na terra renovada (), entendida de forma mais literal e abrangente, incluindo a transformação da vida animal dentro de uma nova ordem de paz - à luz de textos como -, embora sem afirmar a sobrevivência de indivíduos animais específicos.
No original4 termos
κτίσιςktisisG2937
criação, o mundo criado, a ordem física e natural como um todo
ματαιότηςmataiotēsG3153
futilidade, vaidade, condição de vazio ou frustração
δουλείαdouleiaG1397
escravidão, servidão
ἐλευθερίαeleutheriaG1657
liberdade
O que fazer com isso
Diante da dor de perder um animal querido, é natural buscar consolo em qualquer texto que pareça apontar numa direção de esperança. não responde diretamente a essa pergunta, mas afirma algo maior: que toda a criação - inclusive a parte dela que hoje sofre e se deteriora - está destinada à renovação, não ao descarte. Isso permite lidar com a perda e com a fragilidade da vida (humana ou animal) sem desespero, apoiado na certeza de que a história caminha para restauração, não para ruína.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- C. E. B. Cranfield. A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans (ICC), 1975.
- Douglas J. Moo. The Epistle to the Romans (NICNT), 1996.
- F. F. Bruce. Romans: An Introduction and Commentary (Tyndale NT Commentaries), 1963.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Romanos 8:19-21 diz que meu animal de estimação vai para o céu?
Não de forma direta. O texto fala da criação como um todo esperando renovação, em termos coletivos e cósmicos, sem tratar da identidade ou sobrevivência individual de nenhum animal específico.
O que Paulo quer dizer com "a criação" nesses versículos?
A maioria dos comentaristas entende que se refere ao mundo físico e natural subumano - terra, elementos, vida animal e vegetal -, sujeito à decadência desde a queda descrita em .
Por que a criação está "sujeita à futilidade"?
A leitura tradicional liga isso à maldição sobre o solo em , imposta por Deus como consequência do pecado humano, não por qualquer culpa própria da criação.
Existe uma resposta cristã definitiva sobre se animais têm vida após a morte?
Não há consenso entre as tradições cristãs sobre esse ponto específico; é usado por algumas correntes para sustentar esperança de renovação da vida animal, mas o texto, por si só, não resolve a questão com precisão.
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