Shamayim (Céus)
Por que shamayim, os céus, está sempre no plural em hebraico?
A palavra no original
שָׁמַיִם
shamayim (šāmayim) · Strong H8064
Céu ou céus, palavra de forma plural ou dual, sem singular atestado.
Tudo isto ao mesmo tempo
- céu e céus
- firmamento visível
- abóbada de sol, lua e estrelas
- morada e trono de Deus
- par com a terra: o universo
Resposta curta
Shamayim (שָׁמַיִם) é a palavra hebraica para céu ou céus, e tem uma forma que o português só consegue copiar no plural: não há singular atestado na Bíblia hebraica. Aparece já em , "No princípio criou Deus os céus e a terra". Pode designar o firmamento visível, o espaço onde voam as aves, a abóbada com sol, lua e estrelas, e também o lugar da morada de Deus (). Por isso as traduções alternam entre "céu" e "céus" para o mesmo termo. O verbete explica a forma da palavra, os seus usos e por que a variação em português não corresponde a uma diferença no original.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO Antigo Testamento coloca os céus como morada de Deus e, ao mesmo tempo, diz que nem os céus dos céus o podem conter (). O Novo Testamento acompanha esse arco ao falar de Jesus em termos de descida e subida: diz que ele subiu 'acima de todos os céus', e o chama de sumo sacerdote que 'atravessou os céus'. A ligação com shamayim é temática e não lexical, pois o grego usa ouranos. O texto não exige uma leitura tipológica rígida, e os comentaristas variam sobre a imagem exata de 'atravessar os céus'.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Shamayim é a palavra hebraica para céu ou céus. Na Bíblia hebraica ela só existe no plural, por isso as traduções ora escrevem 'céu', ora 'céus', mas é a mesma palavra. Aparece logo em e pode significar o espaço onde voam as aves, o lugar do sol e das estrelas e a morada de Deus. Por que o plural? Os estudiosos não têm certeza: a terminação lembra a do dual, como em mayim (águas), mas a origem da forma é discutida.
De onde vem a palavra
Shamayim faz parte do primeiro versículo da Bíblia e, ao lado de erets (terra), forma a expressão que significa "o universo" no hebraico bíblico: "os céus e a terra" (; 2:1; 2:4). O texto não tinha uma única palavra para cosmo, e o par céu e terra faz esse papel. Em , Deus chama ao firmamento (raqia) "céus", e em as aves voam "sobre a terra, no firmamento dos céus". Portanto, a palavra pode designar a camada atmosférica visível, o espaço sobre a terra, e também a abóbada em que estão o sol, a lua e as estrelas ().
Outro uso importante é o da morada de Deus. Em , Moisés diz que "os céus e os céus dos céus" pertencem ao Senhor, e em Salomão confessa que "os céus e os céus dos céus" não o podem conter, quanto menos o templo. coloca em Deus a frase "o céu é o meu trono, e a terra, o escabelo dos meus pés". O Salmo 115:16 resume: "Os céus são os céus do Senhor, mas a terra a deu aos filhos dos homens".
O texto também liga os céus à glória do Criador. O Salmo 19:1 (19:2 no hebraico) diz que "os céus proclamam a glória de Deus", e o Salmo 8:3 chama-os de "obra dos teus dedos". Há, ainda, um uso narrativo: a escada que Jacó vê em Betel chega ao céu (), e os céus se abrem em episódios de visão ou de chuva.
Em todas essas passagens, a palavra aparece sempre com o mesmo formato. É a regularidade da forma, mais do que a quantidade de ocorrências, que chama atenção do leitor atento ao original. O hebraico não distingue, por vocabulário, o céu físico do céu teológico; quem decide é o contexto, e é por isso que a mesma palavra aparece numa descrição da criação, numa oração de Salomão e num salmo de louvor. Nada no texto sugere que o antigo leitor sentisse essa variedade como contradição.
Aprofundamento
A forma שָׁמַיִם (shamayim, Strong H8064) termina em -ayim, a mesma terminação de mayim (águas) e de tsohorayim (meio-dia). Essa terminação lembra o dual hebraico, que designa pares, mas em vários nomes ela parece funcionar como um plural fixo, sem valor de dualidade. O Brown-Driver-Briggs (BDB) e o HALOT registram a palavra como substantivo masculino plural, sem singular atestado, e os gramáticos debatem se a terminação é dual ou plural. A pergunta popular, "por que está sempre no plural?", tem portanto uma resposta modesta: porque é assim que a palavra foi cristalizada, e a origem exata da forma é discutida.
Há uma explicação tradicional que vale mencionar com cautela. Alguns escritos rabínicos e midrashim jogam com a palavra e a leem como sham mayim, "lá, águas", ou esh umayim, "fogo e água", como se os céus fossem um composto desses elementos. Isso é um jogo homilético, não uma etimologia aceita pelos linguistas modernos. Mais sólido é o fato de que há palavras aparentadas em outras línguas semíticas, como o acádio šamû e o ugarítico šmm, o que mostra que a raiz é antiga e partilhada na região.
A oscilação do português entre "céu" e "céus" é uma escolha de tradução, não de texto. A Almeida, por exemplo, traz "céus" em , enquanto outras versões, como a King James em inglês, usam o singular "heaven" em vários pontos. A Septuaginta traduz por ouranos, às vezes no singular, às vezes no plural, e o Novo Testamento continua a alternar: "Pai nosso, que estás nos céus" () usa o plural. Não se deve inferir, a partir do plural, uma doutrina de múltiplos céus. Paulo fala de um "terceiro céu" em , e o Antigo Testamento tem a expressão "céus dos céus", mas o hebraico shamayim, em si, não enumera níveis.
Vale lembrar que o fenômeno não é isolado: o hebraico tem outros substantivos com forma de plural ou dual sem singular de uso, como panim (face) e chayyim (vida), e a gramática os trata como parte natural da língua, sem cobrar explicação teológica para cada um. No caso de shamayim, a forma é parte do vocabulário comum desde os textos mais antigos.
Também é preciso distinguir shamayim de raqia (רָקִיעַ, firmamento). Raqia aparece em como a abóbada estendida para separar as águas, e shamayim é o nome que Deus lhe dá. O aramaico bíblico, em Daniel e Esdras, usa uma forma aparentada (shemayin, na forma enfática shemayya), também de terminação plural, o que sugere que o traço é comum às duas línguas.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O plural de shamayim prova que a Bíblia ensina a existência de vários céus distintos.
A forma plural é uma característica gramatical da palavra, sem singular atestado, e não indica por si só uma pluralidade de níveis. A ideia de 'terceiro céu' vem de , texto em grego, e não da forma hebraica.
Dizem que:Shamayim significa 'lá, águas' (sham mayim), e por isso os céus seriam feitos de água.
Essa leitura é um jogo de palavras rabínico, não uma etimologia aceita pelos linguistas. Os léxicos relacionam shamayim a palavras de outras línguas semíticas (acádio šamû, ugarítico šmm), não à junção de sham e mayim.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica (rabínica)
Interpreta o plural de shamayim com homilias como a de sham mayim ou esh umayim, tratando-as como ensino, não como lexicografia; no Talmude (Chagigá 12b) fala-se de sete céus, numa tradição própria.
Reformada
Lê os céus como obra do Criador e como trono de Deus (), sem derivar cosmologia do plural; a ênfase está na soberania de Deus sobre toda a criação. Calvino, em seu comentário aos Salmos, vê nos céus um testemunho eloquente do Criador, ainda que insuficiente para a salvação.
Católica / ortodoxa
Vê nos céus tanto o firmamento criado quanto o lugar da presença de Deus e dos santos, em continuidade com a oração do Pai-Nosso, e entende a expressão 'céus' de como semítica.
O que fazer com isso
Shamayim lembra que a palavra "céu" tem, na Bíblia, mais de um andar de significado: o que se vê, o que se atravessa e o lugar de onde Deus governa. Ler o plural como convite à reverência, e não como enigma a decifrar, ajuda a ficar mais perto do texto. Olhar para cima, como no Salmo 19, é uma maneira antiga de lembrar que a vida humana ocorre sob uma ordem maior do que ela.
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Fontes consultadas4 obras
- Brown, F.; Driver, S.; Briggs, C.. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1907.
- Koehler, L.; Baumgartner, W.. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
- Wenham, G. J.. Genesis 1-15 (Word Biblical Commentary), 1987.
- Harris, R. L.; Archer, G. L.; Waltke, B. K. (orgs.). Theological Wordbook of the Old Testament (TWOT), 1980.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Shamayim é dual ou plural?
Os gramáticos divergem. A terminação -ayim lembra o dual, como em mayim, mas em vários nomes ela funciona como plural fixo. Os léxicos registram shamayim como plural, sem singular atestado.
Qual a diferença entre shamayim e raqia?
Raqia é o firmamento, a abóbada que Deus estende em , e shamayim é o nome que Deus lhe dá no versículo 8. Em outros textos, shamayim designa o céu em sentido mais amplo.
Por que as traduções variam entre 'céu' e 'céus'?
Porque o hebraico só tem a forma plural, e o tradutor decide como verter conforme o contexto e a tradição de cada versão. A diferença está na tradução, não no original.
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