Tov (Bom)
O que significa Tov na Bíblia?
A palavra no original
טוֹב
tov (ṭôḇ) · Strong H2896
Bom, agradável, adequado; o que serve bem ao seu fim.
Tudo isto ao mesmo tempo
- bom e adequado ao propósito
- belo e agradável
- útil e benéfico
- moralmente correto
- prosperidade e bem-estar
Resposta curta
Tov (טוֹב) é o adjetivo hebraico que a Bíblia portuguesa traduz quase sempre por "bom". É a palavra que se repete na criação, em : "viu Deus que era bom", e "muito bom" ao fim do sexto dia (1:31). O campo de sentido, porém, é mais largo que o do português: tov descreve o que é adequado, funcional, agradável, belo e benéfico, e só em certos contextos o que é moralmente correto.
Por isso a mesma palavra aparece em "não é bom que o homem esteja só" (), na terra "boa e ampla" de e no convite "provai e vede que o Senhor é bom" (Salmo 34:8). Ler tov só como "moralmente bom" empobrece esses textos e a leitura de .
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO Novo Testamento não cita o tov de como profecia de Cristo, e a ligação é indireta. O que há é uma convergência de vocabulário e de tema: Jesus responde a quem o chama de "bom mestre" que ninguém é bom senão Deus (), diz "Eu sou o bom pastor" com o mesmo adjetivo grego (kalos) que a Septuaginta usa em (), e afirma que tudo foi criado por meio dele. A leitura cristã vê nesses textos a bondade da criação e a bondade de Deus alcançando seu ponto mais claro na pessoa de Jesus, sem fazer de um texto cristológico em seu sentido original.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Tov é a palavra hebraica que costuma ser traduzida por "bom". Aparece no refrão de , em que Deus vê o que criou e diz que é bom, e em "muito bom" no fim do sexto dia. Mas a palavra é mais ampla que o nosso "bom": pode significar bonito, útil, adequado ou benéfico, além de moralmente certo. Por isso diz que "não é bom" o homem estar só, mesmo antes de qualquer pecado, e o Salmo 34 convida a provar que o Senhor é bom.
De onde vem a palavra
Em a palavra tov funciona como um refrão. Ocorre sete vezes (1:4, 10, 12, 18, 21, 25 e 31), sempre depois de Deus ver o que fez, e a última vez vem reforçada por me'od, "muito". A tradição judaica notou desde cedo que o segundo dia não traz a fórmula, enquanto o terceiro a traz duas vezes. O texto não explica o fato, e qualquer explicação é leitura.
O uso em mostra o alcance da palavra. As árvores do jardim são "agradáveis à vista e boas para alimento" (2:9), o ouro da terra de Havilá "é bom" (2:12) e, antes de qualquer desobediência, o texto diz que algo "não é bom": a solidão do homem (2:18). Ou seja, tov não é apenas a ausência de mal, e sim a adequação de uma coisa ao seu fim. Em as filhas dos homens são tovot, "belas", e em Rebeca é "muito formosa" (tovat mareh).
Há também o uso ético e o uso religioso. diz que o Senhor já mostrou ao homem "o que é bom"; manda buscar o bem e aborrecer o mal; denuncia os que chamam ao mal bem e ao bem mal. Nos salmos, tov é fórmula litúrgica sobre o próprio Deus: "Dai graças ao Senhor, porque ele é bom" (Salmo 136:1; ver também 100:5 e 34:8). A José, seus irmãos quiseram o mal, mas Deus o tornou em bem (), e o contraste entre ra (mal, dano) e tov (bem, benefício) estrutura a frase.
Todos esses usos têm em comum a ideia de que algo está como deve estar, seja uma criatura, uma terra, um rosto, uma ação ou um Deus de quem se espera cuidado. Por isso as traduções precisam variar entre bom, belo, agradável, melhor e feliz, conforme o contexto.
Aprofundamento
O adjetivo tov (Strong H2896) tem como parentes o verbo yatav, "ser bom, ir bem", e os substantivos tuv e tovah, "bondade, bem-estar" (Salmo 27:13). Os léxicos BDB e HALOT, e o Theological Lexicon of the Old Testament, organizam seus sentidos em torno de um núcleo prático (útil, apropriado), um estético (agradável, belo) e um ético, além do uso de benefício e prosperidade. A ordem em que são listados não é cronológica, e o texto nunca define tov em abstrato: o leitor deduz o sentido do contexto.
A Septuaginta traduz o tov de por kalos, "belo, bom", e não por agathos, "bom" em sentido moral e funcional. A escolha é significativa, porque kalos soa ao leitor grego como "bom" e "belo" ao mesmo tempo, e é o adjetivo que Jesus usa em quando diz "Eu sou o bom pastor".
O caso mais debatido é o par tov vara, "bem e mal", em :17 e 3:5. O texto não explica o que o fruto dava, e os estudiosos propõem leituras distintas: um merismo para a totalidade do saber; a capacidade de discernimento moral (assim em e , em que Salomão pede um coração que discirna "entre o bem e o mal"); a maturidade de quem já distingue ( fala dos filhos que "não sabem ainda entre o bem e o mal"); o conhecimento sexual; ou o direito divino de decidir por si o que é bom. Gordon Wenham e Claus Westermann discutem essas hipóteses, e nenhuma é consenso.
O hebraico não tem comparativo próprio e o expressa com tov seguido de min, "bom em relação a". Assim diz "melhor é o bom nome do que o bom unguento", e o Salmo 118:8, "melhor é confiar no Senhor do que confiar no homem". A palavra serve, portanto, também a juízos de preferência e de valor relativo.
Para a pergunta se tov quer dizer "perfeito", o texto responde com cuidado. Quando o hebraico quer falar de integridade ou de completude usa outros termos, como tamim e shalem. Em o julgamento "muito bom" aprova a obra inteira, mas introduz um "não bom" ainda no jardim, e o capítulo 3 traz a serpente, que já está lá. Isso sugere que tov é avaliação da adequação ao propósito do Criador, e não afirmação de ausência de qualquer tensão. O que se conclui sobre morte ou sofrimento antes da queda vem de outros textos (por exemplo, ) e de discussões teológicas, não da palavra tov isoladamente.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Dizer que a criação era "muito boa" significa que era perfeita e sem nenhuma tensão ou carência.
O próprio texto apresenta um "não é bom" em , ainda no jardim. Tov avalia a adequação da obra ao propósito de Deus; para perfeição ou integridade o hebraico tem outras palavras, como tamim e shalem.
Dizem que:Tov só significa "moralmente bom".
A palavra também descreve o que é belo (; 24:16), útil (, o ouro) e benéfico (, a terra boa). O sentido ético existe, como em , mas é um entre vários.
Dizem que:Gênesis 1:31 prova, por si só, que antes da queda não havia nenhuma forma de morte.
O versículo diz que Deus viu tudo o que fez e que era muito bom, sem tratar da morte. Quem defende ou rejeita a ausência de morte antes da queda argumenta com outros textos, como e , e as tradições cristãs divergem entre si.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
O Midrash Gênesis Rabá comenta o "muito bom" de 1:31 sugerindo que ele inclui até o impulso para o mal (yetzer hara), pois sem ele ninguém construiria casa, casaria ou geraria filhos. É leitura que usa tov para falar de função, e não de ausência de mal.
Agostiniana (católica e protestante)
Agostinho de Hipona, nas Confissões e em A Cidade de Deus, entende que tudo o que Deus criou é bom e que o mal não é uma substância, mas privação ou corrupção de um bem. A bondade de é lida como bondade do ser.
Crítica sapiencial e narrativa
Estudiosos como Claus Westermann e Gordon Wenham leem o "conhecimento do bem e do mal" de na chave da sabedoria: não conhecimento moral abstrato, mas a pretensão de decidir sozinho o que é bom e o que é mau, atributo que o texto reserva a Deus.
O que fazer com isso
Entender tov como adequação, beleza e benefício, e não só como correção moral, devolve a uma afirmação ampla: o mundo criado é bom por ser como deve ser, e não apenas por não ser mau. A leitura também protege contra o uso da palavra como carimbo moral automático, e pede atenção ao que cada texto aprova, evitando atribuir à palavra mais do que ela diz.
Passagens relacionadas8
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas6 obras
- Brown, F.; Driver, S.; Briggs, C.. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1907.
- Koehler, L.; Baumgartner, W.. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
- Jenni, E.; Westermann, C. (eds.). Theological Lexicon of the Old Testament, 1997.
- Wenham, G.J.. Genesis 1-15 (Word Biblical Commentary), 1987.
- Westermann, C.. Genesis 1-11: A Commentary, 1984.
- Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus; Confissões.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Deus diz "bom" sete vezes em Gênesis 1?
O texto não explica o número. A palavra tov ocorre sete vezes em (1:4, 10, 12, 18, 21, 25, 31), o que muitos comentaristas associam ao uso simbólico do sete, mas o próprio texto não faz essa associação.
Tov quer dizer o mesmo que o "bom" do português?
Em parte. Cobre o sentido de bom, mas também de belo, agradável, útil, melhor e benéfico. A tradução precisa escolher, e por isso nenhuma versão em português reproduz todo o alcance da palavra.
O que é a árvore do conhecimento do bem e do mal?
É a árvore proibida de . O texto não explica que conhecimento ela dava, e as leituras propostas variam: totalidade do saber, discernimento moral, maturidade, conhecimento sexual ou autonomia para decidir o que é bom.
Em que salmos Deus é descrito como bom?
Os mais conhecidos são o Salmo 34:8, o Salmo 100:5 e o Salmo 136:1. Nas versões em português a numeração do Salmo 34 pode variar em um versículo em relação ao hebraico.
Palavras próximas
Temas
- No hebraico
- Criação e ciência
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