Ouranos (Céu, Céus)
O que significa Ouranos na Bíblia?
A palavra no original
οὐρανός
ouranos (ouranós) · Strong G3772
Céu, firmamento: o espaço acima da terra e, por extensão, a morada de Deus.
Tudo isto ao mesmo tempo
- firmamento e céu visível
- morada de Deus
- reverência ao nome divino
- reino e autoridade
- nova criação
Resposta curta
Ouranos (οὐρανός) é a palavra grega do Novo Testamento para "céu". Pode designar o firmamento visível, onde estão as nuvens, o sol e as estrelas, e pode designar a morada de Deus, de onde Jesus veio e para onde subiu. Aparece na oração "Pai nosso, que estás nos céus" (), no anúncio dos anjos de que Jesus voltará do mesmo modo como subiu () e na visão do novo céu e da nova terra (). A tradução importa porque o plural "céus" e a expressão "Reino dos céus", comum em Mateus, dependem desse termo e do contexto, e não indicam um lugar físico distante nem outro reino diferente do de Deus.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoJesus é apresentado como o que veio do céu (; 6:38), subiu ao céu diante dos discípulos () e voltará do céu (). Em , ele é o sumo sacerdote que atravessou os céus, e em é aquele que subiu acima de todos os céus para encher todas as coisas. reúne a ideia na declaração de Jesus: "toda a autoridade me foi dada no céu e na terra". A palavra ouranos acompanha, assim, a trajetória da encarnação, da ascensão e da volta de Cristo, e o final do Apocalipse mostra o céu e a terra renovados pela presença de Deus com os homens.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Ouranos é a palavra grega para "céu". No Novo Testamento pode falar do céu que se vê, com nuvens e estrelas, ou do lugar onde Deus está. Aparece no Pai Nosso ("que estás nos céus"), na volta de Jesus prometida em e na visão do novo céu e da nova terra em . A expressão "Reino dos céus", usada em Mateus, não fala de um lugar no alto, mas do governo de Deus. Ela quer dizer o mesmo que "Reino de Deus".
De onde vem a palavra
Para os leitores do mundo antigo, o céu era uma realidade ao mesmo tempo visível e misteriosa. De um lado estava o espaço acima da terra, com nuvens, chuva e astros. De outro, a região associada ao divino, a que ninguém tinha acesso direto. A Bíblia hebraica usa shamayim, termo plural em hebraico, e a tradução grega verte o conceito ora por ouranos no singular, ora no plural. diz que Deus criou "os céus e a terra", e o Salmo 19:1 afirma que "os céus declaram a glória de Deus".
No Novo Testamento, ouranos tem três usos principais. O primeiro é o céu físico: Jesus comenta o aspecto do céu para prever o tempo (), e fala dos astros que se abalam. O segundo é a morada de Deus: Jesus ensina a orar ao Pai "nos céus" (), e em os anjos dizem aos discípulos que o mesmo Jesus que foi elevado ao céu voltará assim como o viram partir. O terceiro é o céu como forma de falar de Deus com respeito. Em , o filho pródigo diz que pecou "contra o céu" e contra o pai, e em Jesus pergunta se o batismo de João era "do céu ou dos homens".
Em Mateus, a expressão "Reino dos céus" aparece cerca de trinta vezes, onde os outros evangelhos costumam usar "Reino de Deus". Muitos estudiosos explicam o uso como forma judaica de evitar pronunciar o nome divino, embora isso seja uma explicação provável e não uma certeza. Nos escritos finais do Novo Testamento, o céu não é só destino de quem morre, mas o lugar de onde virá a renovação de todas as coisas. vê um novo céu e uma nova terra, e a cidade santa que "desce do céu", de junto de Deus. A imagem aponta mais para a união de Deus com seu povo na nova criação do que para fuga do mundo.
Aprofundamento
A palavra οὐρανός (ouranos, Strong G3772) vem do grego clássico e é a palavra comum para "céu" ou "firmamento". Os léxicos, como o BDAG, registram dois grandes sentidos: o céu como parte visível do universo e o céu como lugar de Deus e de seus seres celestiais. Nos textos, os dois sentidos nem sempre se separam com nitidez, e o contexto decide qual deles está em vista. Em , por exemplo, a tradução grega usa stereoma, "firmamento", para a abóbada criada no segundo dia e diz que Deus a chamou ouranos. Esse é o ponto de partida do uso físico, ao qual o Novo Testamento acrescenta o sentido de lugar da presença de Deus.
Um detalhe linguístico importante é o plural. O Novo Testamento usa tanto o singular (ho ouranos) quanto o plural (hoi ouranoi), e muitas vezes sem diferença clara de sentido. A forma plural se explica, em boa parte, pelo hebraico shamayim, que tem forma plural ou dual, e que a tradução grega do Antigo Testamento reproduziu em várias passagens. Por isso a mesma oração aparece em como "nos céus" (plural) e, em outros textos, como "no céu". Não há consenso de que o plural indique níveis diferentes de céu. Em , Paulo fala de um "terceiro céu", mas o texto não explica o que isso significa, e os estudiosos reconhecem que a cosmologia por trás dessa expressão é incerta.
O uso de "Reino dos céus" em Mateus merece cuidado. Alguns intérpretes distinguem esse reino do "Reino de Deus". O próprio Mateus indica, porém, que se trata da mesma coisa: em , Jesus fala primeiro de entrar no "Reino dos céus" e, no versículo seguinte, repete a mesma ideia como "Reino de Deus". A diferença é de vocabulário, e não de realidade, o que sustenta a leitura de que "céus" é uma forma reverente de referir-se a Deus.
Há, por fim, a relação entre o céu e a terra. Em , a cidadania dos cristãos está "nos céus" (politeuma), de onde se espera o Salvador. Em , Cristo é colocado "nos lugares celestiais", acima de todo poder. E em , o destino final não é uma fuga para o céu, mas a descida da morada de Deus para junto do seu povo. Os intérpretes divergem sobre como combinar essas imagens com a esperança pessoal de estar "com o Senhor" após a morte, como em .
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:"Reino dos céus" e "Reino de Deus" são dois reinos diferentes.
No mesmo diálogo de , Jesus usa as duas expressões para falar da mesma realidade. A diferença é de vocabulário: Mateus costuma preferir "céus" como forma reverente de se referir a Deus.
Dizem que:O Novo Testamento ensina que o destino final dos salvos é viver para sempre em um céu distante da terra.
descreve o novo céu e a nova terra e a morada de Deus descendo para junto do seu povo. O texto também fala de estar "com o Senhor" após a morte (), e as tradições discutem como combinar as duas imagens, mas o destino final não se reduz a escapar da terra.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Entende o céu como a plena comunhão com Deus, a visão beatífica, para a qual os salvos entram após a morte e a purificação necessária, e que será completada com a ressurreição e a nova criação.
Reformada / evangélica clássica
Vê o céu como o estado de presença imediata com Cristo após a morte () e, na consumação, a nova criação em que Deus habita com seu povo ().
Evangélica da nova criação (como N. T. Wright)
Enfatiza que a esperança bíblica central é a ressurreição e a renovação do céu e da terra, e que "ir para o céu" é um estágio intermediário e não o destino final.
Dispensacionalista clássica
Tende a distinguir o destino celestial da Igreja do destino terreno de Israel e, em algumas versões, a diferenciar o Reino dos céus do Reino de Deus. Outras tradições apontam como razão para tratá-los como equivalentes.
O que fazer com isso
Ouranos ensina a levantar os olhos sem desprezar a terra. Dizer "Pai nosso, que estás nos céus" é reconhecer que Deus governa e escuta, e que o Reino dele vem para este mundo (). A esperança do Novo Testamento é mais ampla do que um lugar distante: inclui renovação de todas as coisas. Isso convida a viver com seriedade o presente, sabendo para onde a história caminha.
Passagens relacionadas8
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- Bauer, W.; Danker, F.W.; Arndt, W.F.; Gingrich, F.W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Kittel, G.; Friedrich, G. (eds.). Theological Dictionary of the New Testament, 1964.
- Hagner, D.A.. Matthew 1-13 (Word Biblical Commentary), 1993.
- Wright, N.T.. Surprised by Hope, 2008.
- Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que a Bíblia fala "céus" no plural?
Em boa parte por influência do hebraico shamayim, que tem forma plural ou dual. O Novo Testamento usa singular e plural sem diferença clara de sentido, e não há consenso de que o plural indique níveis ou camadas de céu.
"Reino dos céus" significa o céu depois da morte?
Não necessariamente. Em Mateus, a expressão equivale a "Reino de Deus" e fala do governo de Deus que chega com Jesus, presente e futuro. O destino dos salvos depois da morte é tratado em outros textos.
O que é o "terceiro céu" de 2 Coríntios 12:2?
Paulo diz ter sido arrebatado ao terceiro céu, sem explicar o termo. Os estudiosos reconhecem que a cosmologia por trás da expressão é incerta e que o texto não dá base para montar um mapa de níveis celestiais.
Ouranos tem relação com o planeta Urano?
Sim, apenas no nome. O planeta recebeu o nome de Urano, forma latina de Ouranos, o deus grego do céu na mitologia. A palavra bíblica ouranos é o termo comum para "céu" e não carrega essa ideia mitológica.
Palavras próximas
Temas
- No grego
- #ouranos
- #ceu
- #ceus
- #reino-dos-ceus
- #mateus-6
- #apocalipse-21