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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

'Um será levado, o outro deixado': isso é sobre o arrebatamento?

Mateus 24:40-41 é o versículo do arrebatamento, em que os salvos são levados e os outros ficam para a tribulação?

Naquela hora dois estarão no campo; um será tomado, e o outro será deixado. Duas estarão moendo em um moinho; uma será tomada, e a outra será deixada.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

A imagem de duas pessoas trabalhando lado a lado, uma levada e outra deixada, tornou-se um dos textos mais citados sobre o arrebatamento, quase sempre lido como o resgate súbito dos fiéis antes de uma tribulação. Mas Jesus ancora essa fala na comparação com os dias de Noé, feita pouco antes: as pessoas seguiam a rotina normal quando o dilúvio chegou e as levou de surpresa para a destruição, enquanto quem ficou, dentro da arca, foi quem sobreviveu. Se esse padrão for mantido com coerência, ser levado corresponde ao destino ruim, arrastado pelo julgamento súbito, e ser deixado corresponde à sobrevivência, invertendo a leitura popular de que ser levado é sempre a parte boa da história.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

O texto integra a longa trajetória bíblica do Dia do Senhor como julgamento surpresa sobre os desatentos, tema que o Novo Testamento retoma ao descrever a volta de Cristo como algo repentino e inevitável, exigindo vigilância constante e não cálculo de datas.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Muita gente pensa que "um será levado, o outro deixado" fala do arrebatamento, com os crentes sendo levados ao céu. Mas Jesus tinha acabado de comparar essa cena aos dias de Noé, quando quem foi "levado" pelas águas morreu, e quem ficou, na arca, sobreviveu. Seguindo essa lógica, ser levado pode ser a parte ruim, e ser deixado, a parte boa, o contrário do que normalmente se ensina.

Contexto histórico

registra o chamado discurso do Monte das Oliveiras, resposta de Jesus à pergunta dos discípulos sobre quando o templo seria destruído e quais seriam os sinais do fim. Depois de descrever guerras, fome e perseguições, Jesus chega a um trecho sobre a vinda do Filho do Homem, comparando-a explicitamente aos dias de Noé, em 24:37-39: as pessoas comiam, bebiam, casavam-se, completamente absortas na vida cotidiana, sem perceber o que se aproximava, até que o dilúvio chegou e as levou a todas. É só depois dessa comparação que vem o versículo 40, com dois homens no campo, e o 41, com duas mulheres moendo trigo, um de cada par sendo levado e o outro deixado. A tradição interpretativa que se popularizou no protestantismo do século vinte, sobretudo por meio de esquemas dispensacionalistas e de obras de ficção como a série Left Behind, lê esse par de versículos como retrato do arrebatamento pré-tribulacional: os crentes fiéis são levados ao céu, enquanto os demais permanecem na terra para atravessar um período de juízo. Essa leitura, porém, precisa ser testada contra o próprio contexto que Jesus oferece. Nos dias de Noé, quem foi levado pelo dilúvio não foi resgatado, foi destruído; quem permaneceu, dentro da arca construída por obediência, foi quem sobreviveu ao julgamento. Se a comparação dos versículos 37 a 39 controla o sentido dos versículos 40 e 41, como o texto grego sugere pela continuidade do mesmo argumento, então ser levado nesse contexto específico aponta para ser arrebatado pelo juízo, e ser deixado aponta para permanecer, protegido, no momento da vinda do Filho do Homem. É uma leitura que exige mais cuidado exegético do que a associação automática e popular com o arrebatamento da igreja. Vale notar que o próprio discurso do Monte das Oliveiras não apresenta um cronograma detalhado de eventos separados, mas uma sucessão de advertências sobre vigilância diante de um acontecimento inesperado, o que reforça a ideia de que o foco da passagem está na atitude exigida do ouvinte, e não numa sequência específica de quem sobe e quem permanece na terra.

Aprofundamento

O verbo grego usado em para "ser levado" é paralambánetai, que significa tomar consigo ou levar junto, sem carga necessariamente positiva ou negativa em si mesmo; o sentido depende do contexto em que aparece. É um verbo diferente do harpazō de , o texto clássico do arrebatamento da igreja, onde Paulo descreve os crentes sendo "arrebatados" nas nuvens ao encontro do Senhor. A ausência dessa palavra específica em já é um sinal de que ligar automaticamente os dois textos, como se fossem a mesma cena, exige um passo interpretativo que o vocabulário não sustenta com clareza. O que sustenta a leitura é o contexto imediato: a analogia com os dias de Noé, construída nos versículos anteriores, funciona como a lente pela qual os versículos 40 e 41 devem ser lidos, e nessa analogia quem é "levado" pelas águas do dilúvio morre, e quem permanece, dentro da arca, sobrevive. Comentaristas como R. T. France, em seu comentário sobre Mateus na série NICNT, argumentam que a continuidade sintática e temática com a ilustração do dilúvio favorece entender "ser levado" como ser removido pelo juízo repentino, e "ser deixado" como permanecer em segurança, o oposto exato da leitura popular do arrebatamento. Outros autores, como Craig Blomberg, reconhecem a ambiguidade textual e observam que o texto por si só não determina de modo inequívoco qual seria o destino positivo, exatamente porque paralambánetai pode significar tanto "levado para a salvação" quanto "levado para a destruição" em outras passagens do Novo Testamento, dependendo apenas do contexto. D. A. Carson, em seu comentário no Expositor's Bible Commentary, nota que boa parte da tradição popular sobre o arrebatamento se apoia menos na exegese cuidadosa deste texto específico e mais na leitura combinada e simplificada de vários textos escatológicos distintos, tratados como se descrevessem o mesmo evento único. Vale notar ainda que o objetivo retórico da passagem não é fornecer um mapa cronológico de quem vai para onde, mas alertar para a imprevisibilidade da vinda do Filho do Homem: assim como o dilúvio surpreendeu pessoas absortas na rotina, a vinda também surpreenderá quem não estiver vigilante. É esse chamado à vigilância, e não a curiosidade sobre a ordem dos eventos finais, que o próprio Jesus enfatiza no versículo seguinte, quando manda os discípulos vigiarem porque não sabem em que dia o Senhor virá. Essa ênfase pastoral ajuda a explicar por que os evangelhos preferem manter certa ambiguidade sobre o destino exato de quem é levado, deixando o peso retórico recair sobre a urgência de estar preparado, e não sobre a curiosidade de traçar de antemão o roteiro exato dos acontecimentos finais.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Mateus 24:40-41 descreve o arrebatamento pré-tribulacional da igreja, com os crentes sendo levados ao céu antes do sofrimento.

    O verbo usado para 'levado' é diferente do termo grego usado por Paulo em para o arrebatamento, e o contexto imediato liga a passagem aos dias de Noé, onde quem foi levado pelas águas morreu e quem ficou sobreviveu, sugerindo o sentido inverso ao popular.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Dispensacionalismo popular

    Lê o texto como retrato direto do arrebatamento da igreja: os fiéis são levados para o céu e os demais permanecem na terra para a tribulação, geralmente combinando esta passagem com outros textos escatológicos distintos.

  • Leitura contextual histórico-gramatical

    Mantém a comparação com os dias de Noé como controladora do sentido: ser levado equivale a ser arrebatado pelo julgamento súbito, e ser deixado equivale a permanecer protegido, invertendo a associação automática com um resgate positivo.

No original2 termos
  • παραλαμβάνεταιparalambánetai

    Verbo grego que significa 'é tomado' ou 'é levado consigo', sem carga positiva ou negativa fixa; o sentido depende inteiramente do contexto em que a ação ocorre.

  • ἀφίεταιaphíetai

    Verbo grego que significa 'é deixado' ou 'é abandonado', usado no versículo em contraste direto com 'ser levado', igualmente neutro quanto a ser bom ou mau destino.

O que fazer com isso

Mais do que satisfazer curiosidade sobre a ordem dos eventos finais, o texto convoca à vigilância diante do inesperado. A vida cotidiana, com suas rotinas de trabalho e obrigações, não é o problema; o problema é viver absorto nela sem espaço algum para a possibilidade de que tudo pode ser interrompido a qualquer momento, sem aviso prévio. Vigiar, aqui, significa manter a fé ativa e a consciência alerta mesmo quando nada de extraordinário parece estar acontecendo no dia a dia comum.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • R. T. France. The Gospel of Matthew (NICNT), 2007.
  • D. A. Carson. Matthew (The Expositor's Bible Commentary), 1984.
  • Craig L. Blomberg. Matthew (New American Commentary), 1992.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Mateus 24:40-41 é o mesmo evento descrito em 1 Tessalonicenses 4:17?

Não necessariamente. Os textos usam verbos gregos diferentes para descrever quem é 'levado', e o contexto de cada passagem é distinto; ligar os dois automaticamente como a mesma cena é uma escolha interpretativa, não uma equivalência óbvia no texto.

Então ser 'levado' em Mateus 24:40-41 é sempre algo ruim?

O texto, isolado, é ambíguo quanto a isso; mas a comparação imediata com os dias de Noé, em que quem foi levado pelas águas morreu, sugere fortemente que aqui 'levado' aponta para o juízo, e 'deixado' para a sobrevivência.

Temas

  • Últimos dias
  • #mateus-24
  • #arrebatamento
  • #segunda-vinda
  • #dias-de-noe
  • #interpretacao-biblica
  • #juizo-final

Publicado em 24/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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