
Mateus 24:6-8: guerras são sinal do fim?
A Bíblia previu as guerras que estão acontecendo hoje?
E ouvireis de guerras, e de rumores de guerras. Olhai que não vos espanteis; porque é necessário, que tudo isto aconteça, mas ainda não é o fim. Pois se levantará nação contra nação, e reino contra reino; e haverá fomes, pestilências, e terremotos em diversos lugares. Mas todas estas coisas são o começo das dores.
Resposta curta
Em , os discípulos perguntam a Jesus, no Monte das Oliveiras, quando o templo seria destruído e que sinal marcaria sua vinda e o fim da era (). Nos versículos 6 a 8, ele lista fenômenos que os leitores do primeiro século já conheciam: guerras, boatos de guerra, fome, pestilência e terremotos. E avisa: "não vos espanteis; porque é necessário, que tudo isto aconteça, mas ainda não é o fim".
O ponto central é conter o alarmismo, não alimentá-lo. Jesus chama esses eventos de "o começo das dores", imagem das dores de parto, que se repetem e se intensificam sem indicar sozinhas o momento exato do nascimento. Guerra e desastre acompanham toda a história entre a primeira e a segunda vinda de Cristo; não formam um calendário para identificar qual conflito específico anuncia o fim.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoAs 'dores' que Jesus descreve fazem parte de uma trajetória bíblica maior: o sofrimento do mundo caído — guerra, fome, doença, desastre — como um processo que caminha para uma consumação, não como ruído sem sentido. No próprio discurso do Monte das Oliveiras, esses sinais preparam o terreno para o anúncio que vem a seguir: a volta visível do Filho do Homem 'com poder e grande glória' (). Paulo retoma a mesma imagem de dores de parto em para descrever toda a criação gemendo à espera da redenção plena, que a tradição cristã liga à obra de Cristo. Assim, o texto não aponta para um evento específico do noticiário, mas para o fato de que a história de sofrimento recorrente só encontra seu fim de fato no retorno de Cristo, que a própria passagem anuncia logo em seguida.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Os discípulos perguntam a Jesus quando o mundo vai acabar. Ele responde que vai haver guerras, fome, doenças e terremotos — mas avisa para não se assustar, porque isso ainda não é o fim, é só "o começo das dores". A ideia é como as contrações de um parto: acontecem várias vezes, cada vez mais fortes, sem que cada uma delas diga exatamente quando o bebê vai nascer. Guerra sempre existiu na história humana. Por isso, usar esse texto para apontar uma guerra específica de hoje como "sinal do fim" vai além do que Jesus realmente disse.
Contexto histórico
registra o chamado "Discurso do Monte das Oliveiras", pronunciado por Jesus pouco antes de sua prisão, em resposta a duas perguntas dos discípulos: quando o templo de Jerusalém seria destruído, e qual seria o sinal da vinda de Jesus e do fim da era (). O templo era o centro religioso, político e simbólico da vida judaica; prever sua destruição — que de fato ocorreu em 70 d.C., quando as legiões romanas comandadas por Tito arrasaram Jerusalém — era uma afirmação chocante para quem ouvia.
Nos versículos 6 a 8, Jesus lista sinais que já eram parte constante da experiência do mundo antigo: guerras entre nações e reinos, fome e pestilência (companheiras quase inseparáveis de conflitos armados na Antiguidade, já que exércitos destruíam plantações e espalhavam doenças) e terremotos, comuns na região do Mediterrâneo oriental. Comentaristas como Matthew Henry e William Barclay observam que Jesus está descrevendo o caráter normal da história entre sua primeira vinda e seu retorno, não uma sequência específica e datável de eventos.
A expressão "começo das dores" (em grego, algo próximo de "princípio das dores de parto") usa uma imagem já presente no Antigo Testamento para descrever sofrimento antes de um evento decisivo — Isaías, por exemplo, compara a angústia das nações às dores de uma mulher em trabalho de parto (). Dores de parto se repetem ao longo do processo e se intensificam, mas nenhuma contração isolada permite calcular a hora exata do nascimento. É essa lógica que sustenta o alerta de Jesus: guerras e catástrofes marcam toda a era presente, não apenas seu estágio final, e por isso não servem como calendário para prever quando o fim chegará. O verso 8 reforça a ideia justamente advertindo que "todas estas coisas são o começo", e não o fim em si.
Aprofundamento
A pergunta dos discípulos em mistura dois horizontes: a destruição do templo (evento histórico que ocorreria em 70 d.C.) e o "fim da era" (a consumação escatológica, ligada à volta de Jesus). Estudiosos discutem até hoje como Jesus distribui sua resposta entre esses dois horizontes ao longo do capítulo — e essa ambiguidade é parte do motivo pelo qual o texto é tantas vezes mal aplicado.
Os versículos 6 a 8 vêm logo depois do alerta contra falsos cristos (v. 4-5) e antes da descrição de perseguição aos discípulos (v. 9 em diante). Jesus nomeia quatro categorias de sinal: guerra, fome, pestilência e terremoto. Nenhuma delas era novidade para o público do primeiro século — o Império Romano vivia sob ameaça constante de revoltas e guerras de fronteira, e fome e peste seguiam de perto qualquer conflito armado na Antiguidade, já que exércitos destruíam colheitas, contaminavam poços e deslocavam populações. Terremotos, por sua vez, eram fenômenos conhecidos na Ásia Menor e na região da Síria-Palestina.
O verbo usado no versículo 6, muitas vezes traduzido como "é necessário", indica que esses eventos fazem parte do plano de Deus para a história — não são acidentes fora de controle —, mas Jesus é explícito: "ainda não é o fim". Essa frase funciona como um freio deliberado contra a tentação de calcular datas. A imagem de "começo das dores" (v. 8) reforça esse freio: dores de parto se repetem, aumentam de intensidade e frequência, mas nenhuma contração isolada permite ao observador dizer "é agora". O apóstolo Paulo usa a mesma metáfora em e para descrever o sofrimento presente da criação e a chegada repentina do "dia do Senhor" — sugerindo que essa era uma imagem corrente no ensino cristão primitivo para o período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo.
Comentaristas cristãos leem esse pano de fundo de formas diferentes quanto ao alcance histórico do discurso (ver interpretações), mas concordam num ponto prático: o texto não fornece uma lista de eventos específicos e identificáveis para localizar o presente numa contagem regressiva. Ele descreve o caráter normal — e trágico — da história humana caída, que continua a produzir guerra, fome, doença e desastre natural em toda geração, sem que isso, por si só, aponte para uma data. Ler manchetes de jornal como cumprimento pontual de inverte a lógica do próprio texto, que existe justamente para dizer aos discípulos "não vos espanteis" diante desses eventos recorrentes.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A frequência ou intensidade das guerras atuais é um sinal calculável de que o fim está próximo.
O próprio texto afirma o contrário: esses eventos são 'o começo das dores', um processo recorrente ao longo de toda a era, e Jesus alerta explicitamente para não se espantar nem concluir que o fim chegou a partir deles.
Dizem que:Jesus estava profetizando guerras específicas do século XXI.
A linguagem do texto é genérica e descreve um padrão histórico ('nação contra nação, reino contra reino'), não nomeia países, datas ou conflitos determinados; aplicar o texto a uma guerra específica de hoje é interpretação especulativa, não afirmação do texto.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura preterista (associada a diversas tradições reformadas)
Vê boa parte do discurso de , incluindo os versículos 6-8, cumprido principalmente na guerra judaico-romana e na destruição de Jerusalém em 70 d.C., como julgamento histórico sobre aquela geração.
Leitura futurista (comum em correntes dispensacionalistas e em setores do pentecostalismo)
Entende que esses sinais apontam sobretudo para um período final de tribulação ainda por vir, imediatamente anterior à volta visível de Cristo.
Leitura historicista
Lê os sinais como se desdobrando ao longo de toda a era da igreja, aplicando-se a diferentes guerras, fomes e desastres em várias épocas da história cristã, sem um cumprimento único e localizado.
Leitura idealista/atemporal (presente em tradições católica, ortodoxa e luterana)
Entende os sinais como uma descrição do caráter constante da história humana caída em qualquer época, com valor simbólico e pastoral mais do que cronológico.
No original4 termos
πόλεμοςpolemosG4171
guerra, combate armado
ἀκοήakoēG189
aquilo que é ouvido; relato, notícia, rumor
σεισμόςseismosG4578
abalo, tremor, terremoto
ὠδίνōdinG5604
dor de parto, contração; usada figurativamente para sofrimento que precede um evento decisivo
O que fazer com isso
O texto não pede que se vasculhe o noticiário em busca de sinais do fim, mas o contrário: que guerras e desastres não paralisem ninguém pelo medo. Viver com essa calma não significa indiferença ao sofrimento real que conflitos e catástrofes causam — significa recusar o alarmismo que promete datas e certezas que o próprio Jesus se recusou a dar. Isso libera espaço para agir com compaixão diante da dor concreta de quem sofre, em vez de gastar energia tentando decifrar calendários.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- William Barclay. The Gospel of Matthew (Daily Study Bible), 1975.
- F. F. Bruce. New Testament History, 1969.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Jesus está falando de uma guerra específica que vai acontecer antes do fim?
Não. O texto fala de guerras e rumores de guerra como um padrão recorrente da história humana, não de um conflito específico e identificável. É por isso que Jesus avisa: 'ainda não é o fim' — o objetivo é conter a especulação, não alimentá-la.
Por que Jesus chama guerra, fome e terremoto de 'começo das dores'?
A expressão evoca as dores de parto, que se repetem e se intensificam ao longo de um processo sem que cada contração isolada indique o momento exato do nascimento. Da mesma forma, esses sinais marcam toda a era entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, não um ponto específico no calendário.
É errado ver as guerras de hoje como cumprimento desta profecia?
É especulativo tratar um conflito atual como cumprimento pontual do texto, porque o próprio Jesus descreve esses eventos como recorrentes ao longo de toda a história, não como marcadores exclusivos do fim. Tradições cristãs divergem sobre o alcance histórico do discurso, mas concordam que o texto não oferece uma lista de eventos para calcular datas.
Essa passagem já se cumpriu na destruição de Jerusalém em 70 d.C.?
Alguns intérpretes cristãos (preteristas) associam boa parte do discurso à guerra judaico-romana e à queda de Jerusalém em 70 d.C. Outros veem nele um alcance que se estende até o retorno final de Cristo. Essa é uma questão de leitura teológica, não um ponto pacífico entre os cristãos.
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