
“Por pouco me persuades a fazer-me cristão”: o que Agripa quis dizer?
Agripa quase se converteu em Atos 26:28, ou estava debochando de Paulo?
E Agripa disse a Paulo: Por pouco tu me convences a me tornar cristão. E Paulo disse: Meu desejo a Deus é que, por pouco ou por muito, não somente tu, mas todos os que estão me ouvindo hoje, tais vos tornásseis assim como eu sou, a não ser por estas correntes.
Resposta curta
Em , o rei Agripa II responde ao testemunho de Paulo com uma frase difícil de traduzir. A versão tradicional, por pouco me persuades a fazer-me cristão, foi lida durante séculos como confissão de quase conversão, e inspirou hinos e apelos evangelísticos. O grego diz literalmente en olígo, em pouco, o que pode significar em pouco tempo, com pouco esforço ou quase. A resposta de Paulo no versículo seguinte reaproveita a expressão, dizendo que pediria a Deus que, em pouco ou em muito, todos os ouvintes se tornassem como ele, exceto pelas correntes. Isso favorece a leitura de que Agripa falava de tempo ou de esforço, talvez com ironia, e não de quase se converter. A frase merece cautela como texto de apelo.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO nome cristão, que Agripa pronuncia, significa pertencente a Cristo e aparece aqui como designação dada de fora ao movimento que Paulo representa. Paulo, por sua vez, resume a mensagem do Messias que sofre e ressuscita como cumprimento de Moisés e dos profetas (26:22-23). Não há tipologia forçada: a ligação é com o próprio nome e com a pregação resumida no discurso.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Agripa disse uma frase que pode significar quase me convences a ser cristão ou você acha que em tão pouco tempo me convence a ser cristão? Os estudiosos discordam, mas a resposta de Paulo, que repete pouco ou muito, sugere que a segunda leitura é mais provável. Em vez de reconhecer uma conversão quase feita, o rei provavelmente se esquivou com ironia. O versículo é bonito para sermões, mas não prova que Agripa quase se converteu.
Contexto histórico
Paulo está preso em Cesareia há mais de dois anos quando o novo governador Festo recebe a visita do rei Herodes Agripa II e de sua irmã Berenice (). Festo não sabe o que escrever ao imperador sobre o caso e pede a Agripa, que conhece os costumes judaicos, que ouça o prisioneiro. Agripa II era o último dos herodianos a reinar, bisneto de Herodes, o Grande, e tinha autoridade sobre o templo de Jerusalém, incluindo o direito de nomear sumos sacerdotes. Paulo é trazido diante de uma plateia de oficiais e personalidades da cidade e dirige sua defesa a Agripa, a quem considera conhecedor dos costumes e controvérsias dos judeus (26:2-3).
Paulo conta sua vida como fariseu, sua perseguição aos cristãos, a visão no caminho de Damasco e a missão de abrir os olhos dos gentios. Ele afirma que nada diz além do que os profetas e Moisés disseram que haveria de acontecer: que o Cristo havia de padecer e, sendo o primeiro da ressurreição dos mortos, anunciaria luz ao povo e aos gentios (26:22-23). Festo o interrompe em alta voz e diz que está louco, que as muitas letras o fazem delirar (v. 24). Paulo responde que fala palavras de verdade e de bom senso e se volta diretamente para o rei: O rei, diante de quem falo com ousadia, sabe dessas coisas, pois nada disso aconteceu em algum canto escondido. Crês, ó rei Agripa, nos profetas? Bem sei que crês (v. 26-27).
É nesse ponto que Agripa fala: En olígo me peítheis Christianòn poiêsai (v. 28). Paulo responde no versículo 29, e logo depois o rei, o governador, Berenice e os que estavam sentados se levantam e conversam em particular. Concordam que o homem nada fez digno de morte ou de prisão, e Agripa diz a Festo que ele poderia ter sido solto se não tivesse apelado a César (v. 30-32).
Aprofundamento
A frase de Agripa tem três problemas ao mesmo tempo: o sentido de en olígo, o sentido de peítheis e a maneira de entendê-la como afirmação, pergunta ou ironia. O texto grego original não traz sinais de pontuação, de modo que a decisão depende do contexto. Em primeiro lugar, en olígo significa literalmente em pouco, e a expressão pode se referir a quantidade, a tempo ou a esforço. Em segundo lugar, o verbo peítho, persuadir, está no presente, e pode significar que Paulo está tentando persuadir ou que está persuadindo. Em terceiro lugar, a frase pode ser lida com tom sério, interrogativo ou irônico.
Isso gerou ao menos três leituras. A primeira é a tradicional, associada à versão King James em inglês e à tradução em português que consta no título desta página: por pouco, ou quase, me persuades. Nessa leitura, Agripa admite estar perto de aceitar o evangelho. Ela inspirou o hino Quase persuadido, de Philip Bliss, de 1871, e ainda aparece em sermões. A segunda leitura entende en olígo como em pouco tempo ou com pouco esforço: Você acha que em tão pouco tempo pode me persuadir a fazer-me cristão?, com tom de recusa polida ou de zombaria. Versões modernas, como a NVI, seguem esse caminho. A terceira é uma variante da segunda, em que a frase é uma ironia aberta, parecida com Em tão pouco tempo você quer fazer de mim um cristão?, o que combina com o ambiente de um rei que mantém a imagem diante dos romanos.
A resposta de Paulo no versículo seguinte é o melhor argumento. Ele diz: Prouvera a Deus que, ou em pouco ou em muito (en olígo kaì en megálo), não somente tu, mas todos os que hoje me ouvem se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias. A repetição da expressão sugere que Paulo estava retomando o termo do rei, e a oposição entre pouco e muito tem mais sentido com tempo ou esforço do que com quase. Por isso a maioria dos comentaristas modernos prefere a leitura de que Agripa não estava confessando que quase cria, e sim reagindo com ironia ou desvio.
Isso importa para o uso do versículo. O apelo de quase persuadido pressupõe que Agripa estivesse à beira da conversão e a perdeu por hesitar. O texto não afirma isso. O que se vê é um rei que escapa da pergunta de Paulo, uma conversa em particular e uma conclusão de que Paulo era inocente. A resposta de Paulo, por sua vez, é um modelo de cortesia e firmeza: ele deseja que todos se tornem como ele, sem a ressalva das correntes, que são para ele um sinal de fidelidade, não uma humilhação. O termo cristão aparece só três vezes no Novo Testamento (:28 e ), e sempre como designação vista de fora ou sob perseguição, o que fortalece a ideia de que Agripa o usava com distância.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Agripa quase se converteu e perdeu a salvação por pouco.
O texto não diz que Agripa estava perto de crer. A frase grega admite leituras sobre tempo ou esforço, e a resposta de Paulo repete pouco ou muito, o que enfraquece o sentido de quase. O que Lucas narra depois é uma conversa reservada e a conclusão de que Paulo não merecia prisão.
Dizem que:O grego de Atos 26:28 diz claramente quase me persuades.
A palavra quase não aparece no grego. A expressão é en olígo, em pouco, e pode indicar pouco tempo, pouco esforço ou pouca quantidade. A tradução tradicional é uma entre várias possibilidades, e por isso as versões divergem.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Quase convencido
Agripa reconhece que o argumento de Paulo quase o convenceu. Foi a leitura da tradição inglesa e de muitas versões antigas, e inspirou o hino Quase persuadido, de 1871.
Em pouco tempo ou com pouco esforço
Agripa pergunta, com certa incredulidade, se Paulo espera convertê-lo em tão pouco tempo. A resposta de Paulo, com pouco ou muito, combina melhor com essa leitura.
Ironia ou esquiva
A frase é uma saída diplomática de um rei que não quer se comprometer diante de Festo, de Berenice e dos oficiais presentes, desviando a pergunta direta de Paulo sobre os profetas.
No original3 termos
ὀλίγοςolígosG3641
Pouco, pequeno. Em en olígo pode indicar pouco tempo, pouca quantidade ou pouco esforço; Paulo o retoma no versículo 29 em contraste com em muito.
πείθωpeíthoG3982
Persuadir, convencer. No presente, a forma de pode expressar a tentativa de persuadir ou a persuasão em curso.
ΧριστιανόςChristianósG5546
Cristão, seguidor de Cristo. Termo que aparece só três vezes no Novo Testamento e que tem origem como designação externa ao movimento.
O que fazer com isso
Antes de usar um versículo em um apelo, vale perguntar o que o texto de fato diz. não prova que Agripa quase se converteu, e pode ter sido uma saída diplomática diante de Paulo. O que o capítulo oferece é a atitude de Paulo: respeitosa com o rei, firme na mensagem e livre diante das correntes. Quem fala de Cristo a quem tem poder e prestígio pode aprender dessa combinação de cortesia, clareza e desejo sincero de que o outro creia.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- F. F. Bruce. The Book of the Acts (NICNT), 1988.
- I. Howard Marshall. Acts (Tyndale New Testament Commentaries), 1980.
- C. K. Barrett. A Critical and Exegetical Commentary on the Acts of the Apostles (ICC), vol. 2, 1998.
- Joseph A. Fitzmyer. The Acts of the Apostles (Anchor Bible 31), 1998.
- Ben Witherington III. The Acts of the Apostles: A Socio-Rhetorical Commentary, 1998.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Agripa era cristão?
Não há indício de que tenha se tornado cristão. Lucas narra que ele conversou em particular com Festo e Berenice e concluiu que Paulo era inocente. Ele não confessa fé em Cristo em nenhum momento.
O que Paulo quis dizer com exceto estas cadeias?
Paulo deseja que todos tenham a fé e a esperança que ele tem, sem precisar sofrer a prisão. A ressalva, feita diante de um rei, mostra bom humor e cortesia, e também que ele não vê as cadeias como sinal de derrota.
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