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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

A confissão do eunuco etíope

Por que o versículo 37 de Atos 8 não aparece em algumas Bíblias?

E enquanto eles iam caminhando, chegaram a uma certa porção de água; e o eunuco disse: Eis aqui água; o que me impede de ser batizado? E Filipe disse: Se tu crês de todo coração, então é lícito;E respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

O versículo 37 de traz a confissão do eunuco etíope antes do batismo: 'Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.' O problema é que essa frase não aparece nos manuscritos gregos mais antigos do Novo Testamento, como o Papiro 45 e os Códices Sinaítico e Vaticano. Ela surge apenas em manuscritos do texto ocidental, a partir do século VI, e ganhou fama por entrar no Textus Receptus, base grega usada pela King James e pela Almeida tradicional.

Por isso Bíblias modernas baseadas em manuscritos antigos, como a NVI e a NAA, omitem o versículo ou o relegam a uma nota de rodapé — não porque neguem a fé cristã que ele expressa, mas porque ele provavelmente não fazia parte do texto original de Lucas.

Como isso aponta para Jesus

Cumprimento direto

O centro da cena não é o versículo controverso, mas o versículo 35, onde Filipe explica a partir de as boas notícias sobre Jesus: o próprio texto do Antigo Testamento que intriga o eunuco é lido pela igreja apostólica como profecia cumprida na paixão de Cristo. A confissão de fé — autêntica mesmo sem o versículo 37 — culmina esse movimento interpretativo: reconhecer em Jesus o Filho de Deus anunciado pelas Escrituras.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

A Bíblia, em , conta que um funcionário etíope foi batizado por Filipe depois de ler sobre Jesus no livro de Isaías. Em algumas edições, existe um versículo 37 onde ele diz 'Eu creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus' antes do batismo. Só que os textos mais antigos que temos do livro de Atos não têm essa frase — ela foi acrescentada bem depois, provavelmente porque os cristãos já usavam essa frase quando batizavam alguém. Por isso Bíblias modernas tiram esse versículo ou colocam ele numa nota pequena, sem apagar a história do eunuco.

Contexto histórico

narra o encontro entre Filipe, um dos sete diáconos escolhidos em , e um alto funcionário da corte etíope — região então conhecida como Núbia/Axum, ao sul do Egito, governada nominalmente por uma rainha-mãe chamada 'Candace' (título dinástico, não nome próprio). Esse eunuco ocupava cargo de tesoureiro real e havia viajado a Jerusalém para adorar, sinal de que era um 'temente a Deus' ou prosélito atraído ao judaísmo, ainda que sua condição física de eunuco o impedisse, segundo , de participar plenamente do culto no templo israelita.

Ele lia o rolo de Isaías — provavelmente um exemplar caro, em grego (a Septuaginta) ou hebraico, o que já indica posição social elevada — quando chegou ao texto de , sobre o servo sofredor levado 'como cordeiro ao matadouro'. Essa passagem era lida de formas variadas no judaísmo do primeiro século; não havia consenso messiânico único sobre o Servo de Isaías, o que torna a pergunta do eunuco ('de quem o profeta fala?') genuinamente aberta, não retórica.

O relato ocorre na estrada que descia de Jerusalém a Gaza, via conhecida e usada por comerciantes e peregrinos, num contexto em que a expansão do evangelho para além de Jerusalém — anunciada em — começava a incluir figuras marginais: um estrangeiro, um eunuco, alguém fisicamente excluído da assembleia cultual judaica plena. O batismo imediato, à beira do caminho, sem cerimônia prolongada, reflete a prática mais simples da igreja apostólica primitiva, ainda sem os catecumenatos estruturados que surgiriam nos séculos seguintes. É nesse ponto da narrativa — bem no meio do gesto de fé do eunuco — que a tradição manuscrita posterior inseriu a confissão explícita do versículo 37, provavelmente refletindo uma fórmula batismal já em uso litúrgico quando os copistas trabalhavam em cópias posteriores do texto grego original.

Aprofundamento

A crítica textual do Novo Testamento classifica como uma 'variante de acréscimo': o versículo está totalmente ausente de testemunhas como o Papiro 45, o Papiro 74, o Códice Sinaítico, o Códice Vaticano e a maioria dos manuscritos unciais antigos, aparecendo apenas em manuscritos do texto ocidental — como o Códice Bezae — e em citações de escritores latinos a partir de Irineu, no século II, o que sugere que a fórmula circulava oralmente ou liturgicamente antes de ser inserida no texto grego copiado depois. F. F. Bruce, em seu comentário sobre Atos, observa que a ausência nos testemunhos mais antigos e a presença de variações no próprio texto do versículo entre os manuscritos que o contêm (algumas formas mais longas, outras mais curtas) são sinais típicos de uma glosa que cresceu com o tempo, não de um texto original que foi cortado depois.

O verbo grego usado na pergunta de Filipe, no versículo 36, é kōluei ('impede'), do verbo kōluō — o mesmo termo usado em outros relatos de batismo no livro de Atos (10:47, 11:17) para marcar a ausência de barreiras ao Espírito Santo incluir gentios e marginalizados na comunidade da fé. A confissão pistéuō ('eu creio') que aparece no versículo 37 usa uma fórmula cristológica breve — 'Jesus Cristo é o Filho de Deus' — que reflete confissões batismais mais desenvolvidas do segundo século, como as encontradas em escritos patrísticos primitivos, e não necessariamente o padrão do texto lucano, que costuma ser mais econômico nesses momentos da narrativa.

Bruce M. Metzger, autoridade em crítica textual, resume o consenso acadêmico ao classificar o versículo como uma adição posterior de valor devocional, mas sem apoio nos manuscritos antigos disponíveis. Isso não torna o conteúdo teologicamente falso — a confissão de que Jesus é o Filho de Deus é ortodoxa e consistente com o restante de Atos —, mas indica que o texto, como está no versículo 37, não foi escrito por Lucas. É por isso que traduções como a ARA e a NVI mantêm a numeração tradicional, saltando do versículo 36 ao 38, com uma nota explicando a omissão, em vez de renumerar o capítulo inteiro por completo. Vale notar ainda que nenhum outro manuscrito antigo do livro de Atos apresenta lacuna física nesse ponto do texto — não há sinal de página rasgada ou de dano físico que explicasse a ausência: o espaço simplesmente nunca existiu nas cópias mais antigas conhecidas, o que reforça a conclusão de que se trata de acréscimo posterior, e não de perda acidental de conteúdo original.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Como o versículo 37 foi removido de algumas Bíblias modernas, isso prova que elas foram corrompidas de propósito.

    O processo é o oposto: traduções modernas usam manuscritos mais antigos e numericamente mais confiáveis do que o Textus Receptus usado pela King James e pela Almeida tradicional. A omissão reflete acesso a fontes anteriores, descobertas só depois do século XIX, e não uma tentativa de esconder algo — o próprio conteúdo do versículo é teologicamente ortodoxo.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    A Vulgata latina de Jerônimo inclui o versículo 37, e por isso ele apareceu tradicionalmente em traduções católicas de língua portuguesa anteriores ao Vaticano II; edições católicas modernas, como a Bíblia de Jerusalém, seguem a crítica textual atual e também o relegam a nota de rodapé.

  • Pentecostal

    Tradições que usam a Almeida Corrigida Fiel, baseada no Textus Receptus, mantêm o versículo 37 no corpo do texto sem nota, valorizando-o como confissão modelo de fé antes do batismo.

No original1 termo
  • κωλύειkōlyeiG2967

    Forma do verbo kōluō ('impedir, proibir'), usado na pergunta do eunuco 'que impede que eu seja batizado?' — o mesmo verbo aparece em outros relatos de Atos para marcar a ausência de barreiras que excluam gentios ou marginalizados do batismo (:17).

O que fazer com isso

Saber que um versículo específico entrou depois no texto não abala a confiabilidade geral do Novo Testamento — pelo contrário, mostra o rigor da crítica textual moderna, que compara milhares de manuscritos para identificar exatamente esse tipo de acréscimo. A fé não depende de um versículo isolado: a confissão de que Jesus é o Filho de Deus está presente, sólida, em dezenas de outras passagens de Atos e dos Evangelhos. Ler a Bíblia com honestidade histórica fortalece a confiança, em vez de exigir que se ignorem os dados.

Passagens relacionadas4

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas2 obras
  • F. F. Bruce. The Book of Acts (New International Commentary on the New Testament), 1988.
  • Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O versículo 37 de Atos 8 foi removido da Bíblia?

Não foi removido — ele nunca esteve nos manuscritos gregos mais antigos que temos. Ele entrou na tradição impressa através do Textus Receptus, usado por Bíblias como a King James e a Almeida tradicional, mas está ausente ou em nota nas traduções baseadas em manuscritos anteriores, como a NVI e a NAA.

Por que algumas Bíblias pulam do versículo 36 para o 38 em Atos 8?

Para preservar a numeração tradicional de versículos, já consolidada há séculos, mesmo quando o versículo 37 é considerado um acréscimo posterior sem apoio nos manuscritos mais antigos.

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Publicado em 15/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 2 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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