Onesíforo
Quem foi Onesíforo, o amigo que não se envergonhou das correntes de Paulo?
Ficha do personagem
Éfeso e Roma, c. 64-67 d.C.
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Resposta curta
Onesíforo é um cristão mencionado apenas duas vezes, ambas na Segunda Carta a Timóteo. Paulo, preso em Roma e perto do fim da vida, lembra que ele o aliviou muitas vezes, não se envergonhou de suas correntes e, ao chegar a Roma, procurou-o com empenho até o encontrar. Paulo ora para que o Senhor conceda misericórdia à "casa de Onesíforo" e a ele mesmo "naquele dia", e lembra os serviços prestados em Éfeso.
No final da carta, Paulo manda saudações à casa de Onesíforo, e não a ele, o que levou alguns a se perguntar se já tinha morrido. O texto não responde a isso. Os Atos de Paulo e Tecla, do século II, falam de um Onesíforo de Icônio, mas são tardios, e não se sabe se é o mesmo homem.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaOnesíforo serve a um prisioneiro por causa de Cristo e sem esperar retribuição. Isso lembra o que Jesus diz sobre o juízo final: "estive preso e fostes ver-me" (), e quem visita os pequenos o faz ao próprio Senhor. Paulo, ao pedir que Onesíforo ache misericórdia "naquele dia", liga seu serviço ao dia em que Cristo julgará. O texto não afirma uma recompensa merecida, e sim misericórdia concedida pelo Senhor.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Onesíforo foi um amigo de Paulo. Quando Paulo estava preso em Roma, quase todos os seus conhecidos o abandonaram, mas Onesíforo foi até lá, procurou o apóstolo por toda a cidade até encontrá-lo e não teve vergonha de suas correntes. Ele também já havia ajudado Paulo em Éfeso. Paulo pede a Deus que tenha misericórdia dele e de sua família. Fora de 2 Timóteo, a Bíblia não conta mais nada sobre sua vida, e as histórias de livros antigos sobre ele vêm de muito depois.
O mundo dele
Onesíforo aparece em 2 Timóteo, carta que a tradição situa nos últimos anos de Paulo, quando ele estava preso em Roma, por volta de 64-67 d.C. Paulo escreve a Timóteo, seu colaborador em Éfeso, em um tom de despedida () e fala de um abandono quase geral: "todos os da Ásia me abandonaram" (). Nesse cenário, Onesíforo é apresentado como exceção. Ao contrário dos que se afastaram, ele não se envergonhou das "cadeias" de Paulo, expressão que indica a situação de um prisioneiro que passava por vergonha pública.
A prisão romana dessa época não era como a de hoje. O preso era mantido por conta própria ou de amigos, muitas vezes acorrentado a um soldado, e dependia de visitantes para comida, roupas e notícias. Visitar um acusado era também um risco, pois quem aparecia podia ser identificado como seguidor de um réu condenado, e o cristianismo era visto com suspeita pelas autoridades romanas, sobretudo depois do incêndio de Roma em 64 d.C. Por isso Paulo dá importância ao fato de Onesíforo "procurar" por ele com solicitude, em um verbo que sugere esforço e busca em uma cidade grande, sem endereço certo.
O nome Onesíforo é grego e significa algo como "portador de proveito" ou "o que traz benefício", um nome comum entre pessoas livres e escravos. Os estudiosos discutem a autoria das cartas pastorais: a tradição cristã as atribui a Paulo, enquanto parte da crítica moderna as vê como obra posterior, de um discípulo, no final do século I ou início do século II. Em qualquer das duas leituras, o texto apresenta Onesíforo como alguém que serviu a Paulo em Éfeso e depois em Roma, e os dois lugares marcam o alcance de sua ajuda: uma cidade de grande comunidade cristã e a capital do império, onde ser visto ao lado de um preso tinha seu preço.
A história
Os dois trechos que mencionam Onesíforo são curtos, mas dizem bastante. Em , Paulo diz que ele "muitas vezes me deu alívio" e que "não se envergonhou das minhas cadeias". O verbo traduzido por "aliviar" tem o sentido de refrescar, reanimar. Quando Onesíforo chegou a Roma, "procurou-me solicitamente e me achou". O detalhe da busca sugere que Paulo não estava em um lugar fácil de localizar. Em seguida, Paulo faz duas orações curtas, uma pela família e outra pelo próprio amigo: que o Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo e que Onesíforo ache misericórdia "naquele dia", expressão comum nas cartas pastorais para o juízo final (; 4:8). A seguir, Paulo diz a Timóteo que ele sabia melhor do que ninguém como Onesíforo o havia servido em Éfeso.
O outro trecho está em , na lista de saudações: "Saúda Prisca e Áquila e a casa de Onesíforo". Em ambos os lugares, Paulo fala da casa, isto é, da família e dos dependentes, e não de Onesíforo diretamente. Muitos comentaristas deduzem que ele já havia morrido ou que estava ausente da família. Outros lembram que Paulo também fala da "casa de Estéfanas" (; 16:15) quando Estéfanas está vivo e presente (), de modo que a expressão, sozinha, não prova a morte de ninguém. A distinção entre o pedido à casa e o pedido a Onesíforo "naquele dia" é sugestiva, mas não decisiva. Alguns leitores católicos e ortodoxos veem nessa oração um apoio à prática de orar pelos mortos, enquanto muitos protestantes respondem que o texto não afirma a morte de Onesíforo e que um pedido por misericórdia no juízo pode ser feito por alguém vivo.
Os Atos de Paulo e Tecla, escritos provavelmente no século II e preservados dentro dos Atos de Paulo, apresentam um Onesíforo de Icônio que sai ao encontro de Paulo com a mulher e os filhos e o recebe em casa. Esse relato é uma obra de piedade popular, sem autoridade canônica e com elementos lendários, e Tertuliano diz que o autor foi afastado de seu ofício por tê-lo escrito. A coincidência do nome pode ser real, mas também pode ter nascido do desejo do autor de dar um cenário concreto a Paulo usando um personagem já conhecido de 2 Timóteo. Ou seja, o que o relato conta de Icônio deve ser tratado como tradição, e não como fato histórico confirmado. Listas bizantinas posteriores o incluem entre os setenta discípulos, mas essa informação é tardia e não tem apoio nos textos do Novo Testamento.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:2 Timóteo prova que Onesíforo já estava morto e que se deve orar pelos mortos.
O texto só menciona a "casa de Onesíforo" em 1:16 e 4:19 e pede que ele ache misericórdia "naquele dia". Não diz que ele morreu. Paulo também saúda a casa de outras pessoas sem que isso implique morte. A leitura de que ele estava morto é possível, mas não é afirmada, e é apenas uma dedução de alguns intérpretes.
Dizem que:O Onesíforo de 2 Timóteo é, com certeza, o mesmo Onesíforo de Icônio dos Atos de Paulo e Tecla.
Os Atos de Paulo e Tecla são do século II, bem posteriores a Paulo, e seu autor pode ter tomado o nome de 2 Timóteo para compor a cena. A identidade entre os dois não pode ser confirmada com as fontes disponíveis.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Muitos intérpretes católicos leem o pedido de como indício de que Onesíforo já estava morto e de que a oração pelos falecidos era prática cristã antiga. Reconhecem, porém, que o texto não afirma a morte dele e que a doutrina se apoia também em outras passagens e na tradição.
Reformada
Comentaristas reformados costumam observar que o texto não diz que Onesíforo estava morto. Entendem que ele podia estar viajando, e que a oração por misericórdia no dia do juízo é compatível com a vida dele. Veem na passagem um modelo de gratidão, e não uma base para orar pelos mortos.
Ortodoxa
A tradição ortodoxa guarda a memória de Onesíforo em calendários litúrgicos posteriores, que o contam entre os setenta discípulos. Essa informação é tardia, e a passagem é valorizada sobretudo como exemplo de hospitalidade a um perseguido.
O que fazer com isso
Onesíforo é lembrado por algo simples e custoso: estar presente quando acompanhar um prisioneiro envolvia constrangimento e risco. Paulo não registra sermões ou milagres dele, e sim visitas, buscas e serviço. A passagem sugere que a fidelidade se reconhece na disposição de não se afastar de quem sofre, mesmo quando é mais confortável manter distância ou fingir que não se conhece a pessoa.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- George W. Knight III. The Pastoral Epistles (New International Greek Testament Commentary), 1992.
- William D. Mounce. Pastoral Epistles (Word Biblical Commentary), 2000.
- Raymond F. Collins. 1 & 2 Timothy and Titus: A Commentary, 2002.
- Wilhelm Schneemelcher (ed.). New Testament Apocrypha, vol. 2, 1992.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que significa o nome Onesíforo?
É um nome grego, formado por palavras que sugerem "o que traz proveito" ou "portador de benefício". Era um nome comum no mundo grego e não indica, por si só, origem ou condição social.
Onesíforo já estava morto quando Paulo escreveu?
O texto não diz. Paulo manda saudações à casa dele em e pede misericórdia para ele "naquele dia", o que levou alguns a concluir que estava morto. Outros pensam que estava ausente da família, em viagem. Não há como decidir com certeza.
Onesíforo é o mesmo de Onésimo?
Não. Onésimo é o escravo de Filemom, de quem Paulo fala na carta a Filemom e em . Onesíforo é outro personagem, mencionado só em 2 Timóteo. Os nomes têm raiz parecida, mas as histórias são diferentes.
Onde Onesíforo ajudou Paulo?
Em Éfeso, onde Paulo lembra a Timóteo que sabe bem quanto ele o serviu, e em Roma, onde ele o procurou com insistência até encontrá-lo na prisão. A carta não dá detalhes dos serviços prestados.