1 Enoque
o livro de enoque é verdadeiro?
Ficha do documento
- Data provável
- séc. III a.C. a I d.C.
- Língua
- aramaico, grego, ge'ez
- Autoria atribuída
- Enoque, bisavô de Noé (Gênesis 5:21-24)
- Onde se preserva
- Texto completo só sobreviveu em ge'ez (etíope clássico); fragmentos aramaicos entre os manuscritos do Mar Morto, em Qumran; trechos em grego preservados por autores posteriores, como Jorge Sincelo.
A erudição, no entanto, sustenta: Múltiplos autores judaicos anônimos, ao longo de vários séculos — o livro é uma coletânea de cinco seções distintas, não obra de um só punho.
Status por tradição
| Tradição judaica | Fora do cânon | |
| Igreja Católica | Fora do cânon | |
| Igreja Ortodoxa | Fora do cânon | Fora do cânon bíblico, mas citado com familiaridade por vários autores cristãos dos primeiros séculos. |
| Ortodoxa Etíope | Canônico | Único ramo do cristianismo que o inclui no cânon bíblico até os dias de hoje. |
| Tradições protestantes | Fora do cânon |
Resposta curta
1 Enoque é uma coletânea de textos judaicos escritos entre os séculos III a.C. e I d.C., atribuída a Enoque, o bisavô de Noé que "caminhou com Deus" em . Não é Escritura para judeus, católicos, ortodoxos nem protestantes — mas é canônico para a Igreja Ortodoxa Etíope, a única tradição cristã que o inclui na Bíblia até hoje.
O livro narra anjos que descem à terra, se casam com mulheres humanas e geram gigantes; é dali, e não de , que vem boa parte do que se imagina sobre os "nefilins". cita uma frase dele quase palavra por palavra — o que não faz do livro Escritura, mas mostra que autores do Novo Testamento o conheciam bem.
Passagens bíblicas relacionadas
Em palavras simples
1 Enoque é uma coletânea de textos judaicos antigos atribuída a Enoque, o bisavô de Noé. Fala de anjos que descem à terra, casam com mulheres humanas e geram gigantes. Não está na Bíblia da maioria das igrejas — só a Igreja Ortodoxa Etíope o considera Escritura. Mas , no Novo Testamento, cita uma frase dele quase igual.
O que o documento conta
1 Enoque não é obra de um autor só, nem de uma época só: é uma coletânea de cinco seções, compostas em momentos diferentes e reunidas depois num só livro — o Livro dos Vigilantes (caps. 1-36), o Livro das Parábolas (37-71), o Livro Astronômico (72-82), o Livro dos Sonhos (83-90) e a Epístola de Enoque (91-108). A mais antiga, o Livro dos Vigilantes, remonta ao século III a.C.; a mais tardia, o Livro das Parábolas, é datada entre o século I a.C. e o I d.C., e é a única seção que não apareceu entre os manuscritos do Mar Morto.
O gênero é a apocalíptica judaica — revelações concedidas a uma figura antiga, que enxerga o futuro e os bastidores celestes muito além do próprio tempo. Atribuir a obra a Enoque não era fraude no sentido moderno: era convenção literária reconhecida do período, o mesmo gênero que produziu Daniel dentro do cânon e o Apocalipse de Baruque fora dele. O que dava autoridade ao texto não era o nome de quem realmente segurou a pena, era a antiguidade da figura a quem se atribuía a visão — e poucas figuras bíblicas convidam tanto à especulação quanto Enoque, que "caminhou com Deus... e desapareceu, porque Deus o levou" () sem que o texto diga mais nada sobre ele.
Escrito originalmente em aramaico — os fragmentos mais antigos vieram das cavernas de Qumran —, o livro circulou depois em grego, e é essa versão grega, hoje perdida quase por completo, que serviu de base para a única tradução completa que sobreviveu: em ge'ez, a língua clássica da Etiópia, preservada porque a Igreja Ortodoxa Etíope o manteve no seu cânon quando todas as outras tradições o deixaram de fora.
Aprofundamento
O núcleo do livro, e a parte mais lida, é a história dos Vigilantes: duzentos anjos que descem ao monte Hermom, lideram-se por Semjaza, e juram entre si tomar mulheres humanas — um juramento que dá nome ao próprio monte, "porque juraram e se ligaram por imprecações mútuas sobre ele" (1 Enoque 6:6). Os filhos que nascem dessa união são gigantes de proporções descomunais, que devoram tudo o que os homens produzem e, quando isso não basta, voltam-se contra a própria humanidade. Os Vigilantes ensinam às mulheres feitiçaria, encantamentos e o corte de raízes — conhecimento proibido que o texto trata como parte do mesmo pecado da união em si.
A terra, diz o livro, "levantou acusação contra os que agiam sem lei" (7:6), e Deus responde enviando os arcanjos: Rafael amarra Azazel — nomeado entre os Vigilantes em 6:8 e apontado como o principal responsável pelo ensino proibido — e o lança na escuridão; a Gabriel cabe virar os gigantes uns contra os outros; a Miguel, prender Semjaza e seus companheiros até o julgamento final. É o mesmo Azazel do bode expiatório de , e a ligação entre os dois não é coincidência de nome — é parte do que fez estudiosos antigos lerem os dois textos um ao lado do outro.
Fora da história dos Vigilantes, o livro segue Enoque em viagens pelos confins da terra — o lugar onde as almas dos mortos esperam, os depósitos dos ventos, das estrelas, do relâmpago e do trovão — numa cosmologia detalhada que ocupa boa parte do Livro Astronômico. E no Livro das Parábolas, a seção mais tardia e mais discutida, aparece uma figura celestial chamada "Filho do Homem", que se senta no trono do julgamento e existe desde antes da criação — uma linguagem que soa notavelmente próxima da que os evangelhos põem na boca de Jesus, e que gera debate acadêmico real sobre quem influenciou quem, sem que exista consenso.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:O livro de Enoque foi banido pela Igreja num concílio, como no Concílio de Niceia.
Não há registro histórico de nenhum concílio "banindo" o livro. Ele nunca fez parte do processo de formação do cânon hebraico nem do cristão ocidental — a ausência não é banimento, é não ter sido recebido desde o início por essas tradições.
Como diferentes tradições leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Igreja Ortodoxa Etíope
Inclui 1 Enoque no cânon bíblico até hoje — a única tradição cristã viva que o faz —, lido como Escritura ao lado dos demais livros.
Tradições ocidentais (católica, protestante) e judaísmo rabínico
Reconhecem o valor histórico e literário do texto — sobretudo por iluminar o judaísmo do Segundo Templo e o pano de fundo do Novo Testamento — sem tratá-lo como Escritura.
O que fazer com isso
Ao ouvir falar do livro de Enoque — geralmente como "o livro proibido que fala dos nefilins" —, vale separar duas coisas: o livro existe, é lido e estudado há séculos, e nunca foi proibido no sentido de banido por decreto; ele simplesmente não foi recebido como Escritura pela maioria das tradições. E o que ele diz sobre os Vigilantes e os gigantes é bem mais detalhado — e bem mais estranho — do que qualquer resumo de internet costuma sugerir.
Fontes consultadas2 obras
- R. H. Charles (trad.). The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament, 1917.
- George W. E. Nickelsburg. 1 Enoch 1: A Commentary on the Book of 1 Enoch, Chapters 1-36; 81-108, 2001.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O livro de Enoque é verdadeiro?
"Verdadeiro" depende do que se pergunta. É um documento judaico antigo genuíno, e conta uma história que quase nenhuma tradição cristã ou judaica considera factual ou inspirada — exceto a Igreja Ortodoxa Etíope, que o tem como Escritura.
Por que o livro de Enoque não está na Bíblia?
Porque não foi recebido como Escritura pelas comunidades que fixaram o cânon hebraico nem pela maioria das tradições cristãs — não por ter sido descoberto tarde ou escondido, mas por uma decisão editorial antiga sobre o que contava como Escritura.
A Bíblia cita o livro de Enoque?
Sim — reproduz quase literalmente 1 Enoque 1:9. Isso não torna o livro Escritura: Paulo também cita poetas gregos () sem que isso os canonize.
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