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Significado Bíblico
Fora da BíbliaPseudepígrafoavançada

Apocalipse de Pedro

O Apocalipse de Pedro é um livro perdido da Bíblia?

Ficha do documento

Data provável
c. 130-150 d.C.
Língua
grego (original), etíope - ge'ez (tradução)
Autoria atribuída
Apóstolo Simão Pedro
Onde se preserva
Fragmento grego de Akhmim (Egito, manuscrito dos séculos VIII-IX) e versão etíope mais completa, publicada no início do século XX

A erudição, no entanto, sustenta: Autor cristão anônimo do século II, provavelmente egípcio, escrevendo sob o nome de Pedro

Status por tradição

Tradição judaicaFora do cânonNão se aplica: texto cristão, posterior e sem relação com o cânone hebraico.
Igreja CatólicaFora do cânonClassificado como apócrifo do Novo Testamento, sem autoridade canônica.
Igreja OrtodoxaFora do cânonNão incluído entre os livros litúrgicos ou canônicos recebidos pela tradição bizantina.
Ortodoxa EtíopeFora do cânonPreservado como parte importante da literatura cristã etíope, mas fora da lista de livros canônicos usados na liturgia.
Tradições protestantesFora do cânonTratado como escrito apócrifo pós-apostólico, fora do cânone das 66 escrituras reconhecidas.

Resposta curta

O Apocalipse de Pedro é um texto apocalíptico cristão do século II d.C. que se apresenta como revelação de Jesus ao apóstolo Pedro, descrevendo o destino dos justos no paraíso e os tormentos dos condenados no inferno, cada castigo espelhando o pecado cometido em vida. Composto em grego, é conhecido hoje por um fragmento grego achado em Akhmim, no Egito, e por uma versão etíope mais completa.

Nos primeiros séculos, circulou com prestígio real: Clemente de Alexandria parece tê-lo tratado como escritura, e o Cânone de Muratori o lista ao lado do Apocalipse de João, já registrando divergência sobre seu uso litúrgico. Eusébio de Cesareia, porém, o classificou entre os escritos disputados, e ele ficou fora do Novo Testamento — exemplo concreto de como o cânone cristão se formou por debate ao longo de séculos, não por decreto único.

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Em palavras simples

O Apocalipse de Pedro é um livro cristão antigo, escrito cerca de cem anos depois de Jesus, mas atribuído ao apóstolo Pedro. Ele conta uma visão do céu e do inferno, com detalhes fortes sobre os castigos de cada tipo de pecado. Alguns cristãos dos primeiros séculos o liam quase como parte da Bíblia, e ele quase entrou no Novo Testamento — mas, com o tempo, a maioria das igrejas decidiu não incluí-lo, e hoje ele é lido como um documento histórico importante, não como escritura sagrada.

O que o documento conta

O Apocalipse de Pedro nasceu num período em que o cristianismo ainda não tinha uma lista fechada de livros sagrados. Escrito provavelmente entre 130 e 150 d.C. — alguns estudiosos associam sua composição ao clima de tensão messiânica em torno da revolta de Bar Kokhba, na Judeia (132-135 d.C.) —, o texto se apresenta como palavras que o próprio Jesus ressuscitado teria dito a Pedro, revelando o que acontece com as almas após a morte. É um dos primeiros textos cristãos a descrever, com riqueza de imagens, tanto o paraíso quanto um inferno de castigos correspondentes a pecados específicos, um recurso literário conhecido como "pena de talião" espiritual, já presente em tradições judaicas apocalípticas anteriores.

O texto sobreviveu por dois caminhos distintos. Um fragmento em grego foi encontrado em 1886-1887 numa escavação em Akhmim, no Alto Egito, dentro do túmulo de um monge, no mesmo códice que preservou um fragmento do Evangelho de Pedro e trechos gregos de 1 Enoque — um achado que, de uma só vez, trouxe à luz vários textos que a igreja majoritária havia deixado de copiar. Esse manuscrito grego, porém, é de séculos depois da composição original (entre os séculos VIII e IX). Já uma versão etíope mais longa e, segundo boa parte dos especialistas, mais próxima da forma original do texto, foi identificada e publicada só no início do século XX, preservada dentro da tradição literária cristã da Etiópia.

Nos primeiros séculos, o texto teve peso real: é citado com respeito por autores cristãos antigos e aparece listado, ao lado do Apocalipse de João, no chamado Cânone de Muratori — uma das primeiras listas conhecidas de livros aceitos pela igreja, ainda que essa mesma lista já registre que "alguns de nós não querem que seja lido na igreja". Esse tipo de nota mostra que a fronteira do cânone, nessa época, era discutida localmente, e não fixada de uma vez por um único concílio.

Aprofundamento

O Apocalipse de Pedro se estrutura como um diálogo: Pedro pergunta a Jesus sobre o fim dos tempos e o destino das almas, e recebe uma visão guiada, primeiro do paraíso — descrito como um jardim luminoso, cheio de flores e frutos, onde os justos vivem em glória — e depois do inferno, apresentado em uma sequência de compartimentos, cada um reservado a um tipo de pecador, com um castigo que reflete, de forma quase poética, a natureza da falta cometida: caluniadores são pendurados pela língua, adúlteras pelos cabelos sobre um poço de imundície, assassinos atormentados à vista de suas vítimas. Essa técnica narrativa — o castigo como espelho do pecado — viria a influenciar, direta ou indiretamente, toda uma tradição posterior de literatura sobre o além, da qual a Divina Comédia de Dante, muitos séculos depois, é a expressão mais conhecida.

Existem hoje duas testemunhas principais do texto, e elas não coincidem totalmente. O fragmento grego de Akhmim contém uma seção sobre a ressurreição dos corpos e uma disputa com falsos profetas que praticamente não aparece na versão etíope, e os estudiosos discutem se essa diferença reflete uma expansão posterior do grego ou um corte na tradução etíope. A versão etíope, por sua vez, é bem mais longa na seção dos tormentos infernais e é considerada por autores como Richard Bauckham a testemunha textual mais próxima da composição original do século II, apesar de ter chegado até nós numa tradução copta-árabe-etíope tardia, dentro de uma obra mais ampla ligada à literatura pseudo-clementina.

O valor histórico do texto está menos no que ele revela sobre o além — que é, evidentemente, uma composição literária cristã do século II, não um relato de testemunha ocular — e mais no que ele revela sobre a própria formação do cânone bíblico. Ele mostra que, por gerações, comunidades cristãs distintas liam, copiavam e discutiam obras que hoje consideramos "fora da Bíblia" com uma seriedade que beirava o uso litúrgico, e que a decisão final sobre quais livros comporiam o Novo Testamento levou séculos e não foi unânime em cada etapa nem em cada região do império.

Vale notar, por fim, que existe um outro texto de título quase idêntico — um "Apocalipse de Pedro" de caráter gnóstico, achado na biblioteca de Nag Hammadi em 1945 —, mas trata-se de uma obra totalmente diferente, escrita por outro círculo teológico, com outra cristologia e sem relação direta de conteúdo com o texto tratado aqui. Confundir os dois é um engano comum entre leitores que encontram apenas o título e não o conteúdo de cada obra.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O Apocalipse de Pedro é o mesmo texto do 'Apocalipse de Pedro' encontrado em Nag Hammadi.

    São duas obras diferentes com título semelhante. A de Nag Hammadi (achada em 1945) é um texto gnóstico, de outro círculo teológico e outra data, sem relação de conteúdo com o Apocalipse de Pedro tratado aqui, que é mais antigo e de origem cristã não gnóstica.

  • Dizem que:O texto foi banido ou proibido pela igreja antiga.

    Não há registro de uma proibição formal contra ele. O que houve foi um longo processo de discussão e consenso gradual sobre quais livros comporiam o Novo Testamento, no qual o Apocalipse de Pedro, com o tempo, deixou de ser copiado e usado como as obras que permaneceram no cânone.

  • Dizem que:A doutrina cristã do inferno nasceu com este texto.

    A ideia de um julgamento pós-morte com castigo já aparece no próprio Novo Testamento (; ) e em tradições judaicas apocalípticas anteriores. O Apocalipse de Pedro não criou essa doutrina; ele a desenvolveu com uma riqueza de imagens que viria a influenciar a literatura cristã posterior sobre o além.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Catolicismo

    Trata o texto como apócrifo do Novo Testamento: valioso para a história da fé e da piedade antiga, mas sem autoridade de escritura inspirada, já que não foi recebido pelo cânone confirmado pela igreja.

  • Ortodoxia

    Reconhece o peso histórico que o texto teve entre os primeiros cristãos gregos, inclusive sua menção respeitosa por Clemente de Alexandria, mas o situa fora dos livros litúrgicos e do cânone recebido pela tradição bizantina.

  • Protestantismo

    Geralmente o trata como um dos muitos escritos apocalípticos pseudonímicos do período pós-apostólico, útil para estudo histórico do desenvolvimento doutrinário sobre céu e inferno, mas claramente distinto da Escritura canônica sola scriptura.

  • Ortodoxia Etíope

    Preservou uma das duas grandes testemunhas textuais do documento dentro de sua rica tradição literária cristã, ao lado de outras obras não recebidas na liturgia central, sem por isso lhe atribuir estatuto de escritura canônica.

O que fazer com isso

Ler o Apocalipse de Pedro com equilíbrio significa reconhecê-lo pelo que ele é: um documento valioso para entender como a igreja antiga imaginava o julgamento final e como o cânone bíblico foi debatido antes de se fixar — não uma revelação concorrente às Escrituras nem uma fraude a ser descartada. Documentos de fronteira como este ajudam o leitor a distinguir entre autoridade canônica e valor histórico, sem precisar tratá-los como ameaça.

Fontes consultadas4 obras
  • Richard Bauckham. The Fate of the Dead: Studies on the Jewish and Christian Apocalypses (inclui estudos sobre o Apocalipse de Pedro), 1998.
  • J. K. Elliott. The Apocryphal New Testament, 1993.
  • Bart D. Ehrman. Lost Scriptures: Books that Did Not Make It into the New Testament, 2003.
  • Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, 325.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Apocalipse de Pedro está na Bíblia?

Não. Apesar de ter circulado com prestígio nos primeiros séculos e de aparecer citado no Cânone de Muratori ao lado do Apocalipse de João, ele acabou excluído do Novo Testamento e não é reconhecido como escritura canônica por nenhuma tradição cristã hoje.

Foi realmente escrito pelo apóstolo Pedro?

A grande maioria dos especialistas considera que não. A obra é datada de cerca de 130-150 d.C., quando o apóstolo Pedro já havia morrido há décadas; trata-se de um pseudepígrafo, prática comum na literatura apocalíptica antiga, em que um autor escreve sob o nome de uma figura de autoridade.

Por que ele quase entrou no Novo Testamento?

Porque, nos primeiros séculos, ainda não havia uma lista fechada de livros sagrados. O Cânone de Muratori o inclui ao lado do Apocalipse de João, e Clemente de Alexandria parece tê-lo tratado com autoridade de escritura, embora já houvesse divergência sobre seu uso litúrgico registrada na própria época.

É o mesmo texto do Apocalipse de Pedro achado em Nag Hammadi?

Não. Existe outro texto com título quase idêntico entre os manuscritos gnósticos de Nag Hammadi (achados em 1945), mas é uma obra totalmente diferente, de outro círculo teológico e outra época, sem relação de conteúdo com o texto tratado aqui.

Onde posso ler o texto hoje?

Ele sobrevive em duas formas principais: um fragmento grego achado em Akhmim, no Egito, e uma versão etíope mais completa. Traduções para português aparecem em coletâneas acadêmicas de literatura apócrifa cristã, geralmente ao lado de outros textos como o Evangelho de Pedro.

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Publicado em 08/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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