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Significado Bíblico
Fora da BíbliaPseudepígrafoavançada

Evangelho de Maria

O que é o Evangelho de Maria e ele deveria estar na Bíblia?

Ficha do documento

Data provável
c. 120-180 d.C. (composição); manuscrito copta do séc. V
Língua
copta (saídico), grego (fragmentos)
Autoria atribuída
Maria Madalena (segundo o título do texto)
Onde se preserva
Papiro Berolinensis 8502 (Museu Egípcio de Berlim); fragmentos gregos P.Oxy. 3525 e P.Ryl. 463

A erudição, no entanto, sustenta: Autor cristão anônimo do século II d.C., não identificado

Status por tradição

Tradição judaicaFora do cânonTexto cristão, sem relevância para o cânone judaico
Igreja CatólicaFora do cânonNunca incluído em lista canônica alguma; classificado como apócrifo
Igreja OrtodoxaFora do cânonNunca incluído em lista canônica alguma
Ortodoxa EtíopeFora do cânonNão consta entre os textos ampliados aceitos por essa tradição
Tradições protestantesFora do cânonNunca incluído em lista canônica alguma

Resposta curta

O Evangelho de Maria é um texto cristão fragmentário, provavelmente composto em grego em meados do século II d.C. Hoje é conhecido sobretudo pela versão copta preservada no Papiro Berolinensis 8502, o Códice de Berlim, copiado por volta do século V. Dois fragmentos gregos mais antigos, de Oxirrinco e da coleção Rylands, mostram que o texto já circulava nos séculos II e III.

O manuscrito de Berlim foi comprado no Cairo em 1896, mas sua publicação atrasou quase sessenta anos, adiada por um acidente com as provas de impressão, pela Primeira Guerra Mundial e pela morte do primeiro editor, saindo só em 1955. O texto narra Maria Madalena recebendo de Jesus ressuscitado um ensino privado sobre a jornada da alma e o transmitindo aos apóstolos, o que provoca desconfiança em Pedro e André. Nenhuma tradição cristã jamais o considerou canônico.

Passagens bíblicas relacionadas

Em palavras simples

O Evangelho de Maria é um texto cristão antigo, escrito bem depois da época de Jesus, que conta uma versão diferente dos acontecimentos após a ressurreição. Nele, Maria Madalena recebe de Jesus um ensinamento particular, que os outros discípulos não ouviram, e o compartilha com o grupo, o que deixa Pedro e André desconfiados. O texto só foi encontrado e comprado no Egito em 1896, mas ficou décadas sem ser publicado. Nenhuma igreja cristã o inclui na Bíblia; ele é lido hoje como um documento histórico sobre os primeiros séculos do cristianismo, não como parte das Escrituras.

O que o documento conta

O testemunho mais completo do Evangelho de Maria está num códice de papiro em copta saídico conhecido como Papiro Berolinensis 8502, o Códice de Berlim, copiado por volta do século V, embora o texto original tenha sido composto bem antes, provavelmente em grego, em algum momento do século II d.C. Essa datação mais antiga se apoia em dois fragmentos gregos independentes: o Papiro Oxirrinco 3525, do início do século III, e o Papiro Rylands 463, também do século III, ambos preservando trechos do mesmo evangelho e mostrando que ele já circulava décadas antes de sua tradução para o copta.

O Códice de Berlim foi comprado no Cairo em 1896 pelo erudito alemão Carl Reinhardt e levado ao Museu Egípcio de Berlim. Ele reúne quatro textos coptas, entre eles o Evangelho de Maria, o Apócrifo de João e o Ato de Pedro. A publicação do Evangelho de Maria, porém, atrasou quase sessenta anos: as provas de impressão preparadas pelo primeiro editor, Carl Schmidt, se perderam num acidente com tubulação de água em 1912, a Primeira Guerra Mundial interrompeu o trabalho, e Schmidt morreu em 1938 sem concluir a edição. O texto só veio a público em 1955, na edição de Walter Till, revisada depois por Hans-Martin Schenke em 1972.

O manuscrito copta chegou incompleto: faltam as páginas 1 a 6, com o início do texto, e as páginas 11 a 14, parte do relato de Maria, de modo que quase metade da obra se perdeu — provavelmente arrancadas do caderno antes de chegar ao mercado de antiguidades do Cairo. O texto não pertence ao conjunto de Nag Hammadi, achado apenas em 1945 e cerca de cinquenta quilômetros ao sul, embora trate de temas parecidos e seja lido, com frequência, ao lado daqueles manuscritos, por compartilhar um ambiente cristão semelhante, mais espiritualizado e voltado à experiência interior do que ao relato biográfico de Jesus.

Quanto à datação da composição original, a maioria dos especialistas a situa entre 120 e 180 d.C., já que o texto pressupõe debates típicos do cristianismo do século II sobre autoridade e conhecimento espiritual, sem que se possa fixar uma data mais precisa.

Aprofundamento

O que resta do Evangelho de Maria se divide em duas partes. Na primeira, que já começa em andamento, pois as seis páginas iniciais se perderam, Jesus ressuscitado responde a perguntas dos discípulos sobre a natureza da matéria e do pecado, dá suas últimas instruções e parte. Os discípulos ficam com medo de sair pregando, temendo sofrer o mesmo destino de Jesus. É Maria Madalena quem os consola, lembrando que a graça de Cristo os protege; Pedro então pede que ela conte um ensino que Jesus lhe teria dado em particular, "que nós não ouvimos".

Aqui começa a segunda parte, também incompleta, faltando as páginas 11 a 14. Maria relata uma visão em que a alma, ao deixar o corpo, sobe pelos céus e precisa atravessar quatro "potestades", chamadas Trevas, Desejo, Ignorância e Ira, que tentam barrar sua ascensão com acusações. A alma responde a cada uma afirmando que já foi liberta pelo conhecimento e pela união com o que é verdadeiramente seu, e segue em silêncio.

Quando Maria termina, André duvida do que ouviu, dizendo que aquilo soa estranho às ideias que conhece de Jesus; Pedro vai além e questiona se Jesus realmente falaria em segredo com uma mulher, preterindo os demais discípulos. É Levi quem intervém, repreendendo Pedro por sua atitude contenciosa e afirmando que Jesus "a amou mais do que a nós" e a conhecia melhor. O texto termina com os discípulos saindo para pregar.

Esse enredo situa o Evangelho de Maria num debate mais amplo em textos cristãos do século II sobre autoridade de ensino: quem tem o direito de interpretar as palavras de Jesus, e se essa autoridade vem da proximidade espiritual com ele ou de um cargo como o apostolado de Pedro. Tensão parecida entre Pedro e Maria aparece, com variações, no Evangelho de Tomé e na Pistis Sophia, sugerindo divisões reais entre grupos cristãos.

Estudiosos debatem até que ponto o texto é "gnóstico" em sentido técnico: ele compartilha a ideia de salvação pelo autoconhecimento e certa desconfiança do corpo material, mas não traz a mitologia de criação elaborada do Apócrifo de João, com o qual divide o mesmo códice. Por isso, parte da pesquisa recente, como a de Karen King, prefere descrevê-lo como testemunho de um cristianismo primitivo diverso e ainda em formação, e não como produto de uma seita "gnóstica" já plenamente organizada e distinta da corrente que viria a se tornar majoritária.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O Evangelho de Maria foi escrito pela própria Maria Madalena.

    Como a maioria dos textos apócrifos do período, é pseudepígrafo: atribuído a Maria por convenção literária, mas composto por um autor anônimo do século II, décadas depois da morte dela, que usou seu nome para dar autoridade ao ensino apresentado.

  • Dizem que:O texto mostra que Jesus e Maria Madalena eram casados ou tinham um relacionamento romântico.

    O Evangelho de Maria não menciona casamento nem relação amorosa; trata de um ensino espiritual privado sobre a ascensão da alma. Essa ideia vem de leituras populares posteriores (como as popularizadas por obras de ficção), não do conteúdo do manuscrito.

  • Dizem que:O Evangelho de Maria foi encontrado junto com os manuscritos de Nag Hammadi.

    São achados distintos: o Códice de Berlim, com o Evangelho de Maria, foi comprado no Cairo em 1896, quase cinquenta anos antes da descoberta dos códices de Nag Hammadi em 1945, ainda que os dois conjuntos compartilhem características do cristianismo do período.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Catolicismo

    Reconhece o valor histórico do texto como testemunho da diversidade do cristianismo primitivo, mas o considera apócrifo e não inspirado; a cosmologia da ascensão da alma através de "potestades" diverge da doutrina sobre graça e ressurreição do corpo, o que reforça, para essa tradição, por que o texto nunca foi recebido como Escritura.

  • Ortodoxia oriental

    Situa o Evangelho de Maria entre os escritos que os primeiros escritores antieréticos, como Irineu de Lyon, já classificavam como estranhos à tradição apostólica recebida; é lido como documento de interesse histórico sobre correntes que a igreja antiga considerou desviantes, sem valor litúrgico ou doutrinário.

  • Protestantismo evangélico

    Enfatiza que a autoridade das Escrituras repousa nos textos reconhecidos desde cedo pela igreja como apostólicos; o Evangelho de Maria é útil para entender por que critérios como testemunho apostólico e uso litúrgico contínuo levaram à formação do cânon do Novo Testamento, mas não é tratado como palavra normativa.

  • Teologia acadêmica feminista cristã

    Lê o texto como indício de que, em certos círculos cristãos do século II, a liderança e o ensino espiritual de mulheres como Maria Madalena eram defendidos e disputados, oferecendo uma janela sobre debates de autoridade e gênero na igreja antiga, sem por isso afirmar que a cena narrada seja historicamente factual.

O que fazer com isso

Ler o Evangelho de Maria com equilíbrio significa tratá-lo como fonte histórica sobre debates do século II, não como revelação escondida sobre Jesus. Ele não substitui nem corrige os quatro evangelhos canônicos; mostra como alguns cristãos primitivos discutiam autoridade, ensino espiritual e o papel das mulheres. Vale como janela para a diversidade do cristianismo antigo, não como testemunho factual adicional sobre a vida de Jesus.

Fontes consultadas4 obras
  • Karen L. King. The Gospel of Mary of Magdala: Jesus and the First Woman Apostle, 2003.
  • Christopher Tuckett. The Gospel of Mary (Oxford Early Christian Gospel Texts), 2007.
  • Walter C. Till (ed.). Die gnostischen Schriften des koptischen Papyrus Berolinensis 8502, 1955.
  • Esther A. de Boer. The Gospel of Mary: Beyond a Gnostic and a Biblical Mary Magdalene, 2004.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Evangelho de Maria foi escrito por Maria Madalena?

Não. É um texto pseudepígrafo, composto por um autor anônimo, provavelmente em grego, no século II d.C. — muito depois da época em que Maria Madalena teria vivido.

Esse evangelho está na Bíblia ou deveria estar?

Não está em nenhuma versão da Bíblia usada por tradição cristã alguma. Nunca circulou como candidato firme ao cânon; é lido hoje como fonte histórica sobre o cristianismo primitivo, não como Escritura.

Por que faltam partes do texto?

O único manuscrito quase completo, em copta, perdeu páginas antes de ser adquirido no Cairo em 1896: faltam as seis primeiras páginas e mais quatro páginas do meio, cerca de metade do conteúdo original.

O Evangelho de Maria prova que Jesus tratava as mulheres de forma diferente dos evangelhos canônicos?

Ele mostra que, em certos círculos cristãos do século II, havia defesa de um papel de ensino privilegiado para Maria Madalena, mas isso reflete debates daquele período sobre autoridade, não uma informação histórica adicional e confirmada sobre a vida terrena de Jesus.

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Publicado em 09/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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