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Significado Bíblico
Fora da BíbliaPseudepígrafointermediária

2 Baruque (Apocalipse Siríaco de Baruque)

O que é o livro de 2 Baruque e por que ele não está na Bíblia?

Ficha do documento

Data provável
fim do séc. I a início do séc. II d.C. (provavelmente entre 95 e 120 d.C.)
Língua
Hebraico ou aramaico (original perdido, provável), Grego (tradução intermediária, quase toda perdida), Siríaco (única versão completa preservada)
Autoria atribuída
Baruque ben Neriah, escriba do profeta Jeremias (século VI a.C.)
Onde se preserva
Texto completo preservado em um único manuscrito siríaco, o Códice Ambrosiano (Biblioteca Ambrosiana, Milão, cerca do século VI–VII d.C.), que também contém a Peshitta do Antigo Testamento. Um pequeno fragmento grego (Papiro Oxirrinco 403) preserva parte dos capítulos 12–14.

A erudição, no entanto, sustenta: Autor judeu anônimo, provavelmente da Judeia, escrevendo depois de 70 d.C.

Status por tradição

Tradição judaicaFora do cânonNão incluído no Tanakh; preservado fora da tradição rabínica, por transmissão cristã.
Igreja CatólicaFora do cânonNão incluído no cânon católico, nem entre os deuterocanônicos.
Igreja OrtodoxaFora do cânonNão faz parte do cânon bizantino, embora círculos cristãos de língua siríaca tenham preservado e valorizado o texto.
Ortodoxa EtíopeFora do cânonO amplo cânon etíope inclui outros escritos ligados a Baruque (como 1 Baruque e o Paralipômenos de Jeremias/4 Baruque), mas não este Apocalipse Siríaco.
Tradições protestantesFora do cânonNão incluído no cânon protestante nem tratado como apócrifo/deuterocanônico por essa tradição.

Resposta curta

2 Baruque, ou Apocalipse Siríaco de Baruque, é um escrito judaico atribuído a Baruque, escriba do profeta Jeremias no século VI a.C. Foi composto bem depois, entre o fim do século I e o início do século II d.C., como resposta à destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C. O autor usa a queda anterior de Jerusalém, em 586 a.C., como cenário literário para refletir sobre o trauma recente.

O texto combina lamento, um diálogo intenso com Deus sobre a justiça divina e visões sobre o rumo da história até um reinado messiânico de restauração. Encerra com uma carta às tribos dispersas, pedindo fidelidade à Lei mesmo sob domínio estrangeiro. Sobrevive completo apenas em siríaco, língua irmã do aramaico, numa tradução feita a partir do grego de um original hebraico ou aramaico hoje perdido.

Passagens bíblicas relacionadas

Em palavras simples

2 Baruque é um livro judaico antigo escrito como se fosse do escriba Baruque, ajudante do profeta Jeremias. Na realidade, foi escrito bem depois, por volta do ano 100 d.C., para ajudar o povo judeu a entender por que Deus permitiu que os romanos destruíssem o Templo de Jerusalém. O texto mistura lamento, perguntas sobre a justiça de Deus e visões de um futuro melhor. Ele só sobreviveu completo numa tradução antiga para o siríaco, uma língua parecida com o aramaico que Jesus falava.

O que o documento conta

A destruição do Segundo Templo por Roma, em 70 d.C., foi um trauma que sacudiu profundamente a fé e a identidade judaicas. Se Deus havia prometido Jerusalém e o Templo ao seu povo, por que permitiu que fossem arrasados por um poder pagão? Diversos escritores judeus da época tentaram responder a essa pergunta por meio de apocalipses — textos que usam visões e revelações para interpretar a história à luz de um plano divino maior. 2 Baruque é um dos exemplos mais elaborados desse esforço.

O autor, cuja identidade real é desconhecida, escreveu em nome de Baruque ben Neriah, o escriba fiel que ajudou o profeta Jeremias a registrar suas profecias no século VI a.C. e que testemunhou a primeira destruição de Jerusalém, pelos babilônios, em 586 a.C. Ao emprestar a voz de Baruque para lamentar aquele desastre antigo, o autor na verdade processava o desastre recente de 70 d.C. — um recurso literário comum entre judeus da época, também usado no livro contemporâneo de 4 Esdras (2 Esdras), com o qual 2 Baruque compartilha temas, estrutura e provavelmente até uma relação direta de influência, ainda que os estudiosos discordem sobre qual texto veio primeiro.

A maioria dos especialistas, como Matthias Henze e John J. Collins, situa a composição entre cerca de 95 e 120 d.C., num ambiente judaico de língua semítica, provavelmente na Judeia. O texto original — hebraico ou aramaico — se perdeu; restou uma tradução grega, hoje quase toda perdida também (sobrevive um fragmento em papiro), e, a partir dela, uma tradução siríaca, a única versão completa conhecida. Essa cadeia de traduções mostra como comunidades cristãs de língua siríaca preservaram e transmitiram literatura judaica que, de outro modo, teria se perdido por completo.

2 Baruque nunca foi aceito como parte da Bíblia hebraica nem de nenhum cânon cristão, mas circulou como leitura respeitada em certos círculos, sobretudo entre cristãos de tradição siríaca, por seu valor edificante e por sua reflexão profunda sobre sofrimento, justiça e esperança.

Aprofundamento

2 Baruque está estruturado como uma sucessão de lamentos, diálogos com Deus e visões, entremeados por jejuns e orações do próprio Baruque. Logo no início, Deus anuncia que Jerusalém será destruída, mas consola Baruque dizendo que a cidade terrena não é a verdadeira Jerusalém — a que importa está guardada no céu, junto com o Paraíso, desde antes da criação. Essa ideia de uma Jerusalém celestial, preexistente e destinada a ser revelada no fim dos tempos, aparece também em outros textos judaicos do período e ecoa, séculos depois, em imagens cristãs de uma cidade celestial.

Uma das visões mais estudadas do livro é a da nuvem com águas negras e brilhantes alternadas (capítulos 53–74): cada cor representa um período da história, alternando momentos de fidelidade e de apostasia, dos tempos de Adão até o fim, quando surge um Messias que julga as nações, restaura Israel e inaugura um reinado de paz. Nesse reinado, conforme o capítulo 29, os justos participarão de um banquete em que serão servidos como alimento o Leviatã e o Behemoth — os monstros primordiais do mar e da terra mencionados em –41 —, imagem de fartura extraordinária num mundo finalmente reconciliado.

O livro também discute longamente a ressurreição dos mortos e a transformação dos corpos dos justos, que brilharão como anjos, enquanto os corpos dos culpados definharão (capítulos 49–51). Um trecho famoso (54:15,19) afirma que, embora o pecado tenha entrado no mundo por Adão, cada pessoa é responsável pelo próprio pecado — "cada um de nós se tornou o seu próprio Adão". Estudiosos como R.H. Charles já notaram a proximidade — e a diferença — entre essa ideia e a teologia de Paulo sobre Adão em , sem que isso implique dependência direta entre os textos.

O livro termina com uma carta de Baruque às "nove tribos e meia" dispersas além do rio Eufrates (capítulos 78–87), incentivando-as a permanecer fiéis à Lei mesmo no exílio — um apêndice que, por sua utilidade prática, chegou a circular separadamente do restante da obra em alguns manuscritos.

2 Baruque importa hoje porque documenta, com riqueza rara, como pensadores judeus processaram teologicamente a perda do Templo numa época muito próxima da formação dos primeiros escritos cristãos. Compartilha vocabulário, imagens e perguntas com textos do Novo Testamento — sobre ressurreição, justiça divina e o fim dos tempos — sem que um dependa do outro; ambos bebem da mesma tradição apocalíptica judaica do Segundo Templo.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:2 Baruque é um livro perdido da Bíblia que a Igreja escondeu do povo.

    Ele nunca fez parte de nenhum cânon bíblico, judaico ou cristão. Sempre circulou abertamente como literatura judaica de fora da Escritura, preservado por comunidades cristãs de língua siríaca ao longo dos séculos, sem qualquer ocultamento.

  • Dizem que:O livro foi realmente escrito por Baruque, o escriba de Jeremias.

    A atribuição a Baruque é um recurso literário comum na época, chamado pseudepigrafia: um autor posterior escreve em nome de uma figura reverenciada do passado. O vocabulário e as referências do texto apontam para uma composição bem posterior, depois de 70 d.C., cerca de setecentos anos depois da vida de Baruque.

  • Dizem que:O banquete com Leviatã e Behemoth mostra que essa literatura prega canibalismo ou algo bizarro do gênero.

    Leviatã e Behemoth são criaturas simbólicas do mar e da terra já mencionadas em –41, usadas na literatura apocalíptica judaica como imagens das forças primordiais do caos. Servi-las no banquete messiânico é uma metáfora de abundância e de vitória final sobre o caos, não a descrição literal de um cardápio.

Como diferentes tradições leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica e ortodoxa oriental (leitura patrística)

    Valorizam 2 Baruque como testemunho do ambiente judaico que moldou parte do vocabulário e das imagens de ressurreição e renovação cósmica presentes no Novo Testamento, sem atribuir ao texto qualquer inspiração — um pano de fundo histórico útil para entender a época dos apóstolos.

  • Igrejas de tradição siríaca (que preservaram o texto)

    Historicamente trataram 2 Baruque como literatura edificante herdada de sua própria tradição literária de língua siríaca, apta para leitura e reflexão espiritual, ainda que sem estatuto de Escritura canônica.

  • Protestante evangélica

    Reconhece o valor de 2 Baruque como pano de fundo histórico para compreender ideias judaicas sobre ressurreição e juízo, mas insiste em manter distinção clara entre esse pano de fundo e a autoridade exclusiva da Escritura canônica.

O que fazer com isso

Conhecer 2 Baruque ajuda a situar textos do Novo Testamento — como a discussão de Paulo sobre Adão em , a esperança da ressurreição em ou a imagem do banquete messiânico nos evangelhos — dentro do universo de perguntas e imagens que já circulavam entre judeus do primeiro século. Isso evita dois exageros: tratar essas ideias como invenção exclusivamente cristã, ou supor que o Novo Testamento copiou fontes judaicas. Ajuda a responder, com mais precisão histórica, quem pergunta de onde vêm essas imagens.

Fontes consultadas4 obras
  • R.H. Charles. The Apocalypse of Baruch, 1896.
  • A.F.J. Klijn (trad.), em James H. Charlesworth (org.). The Old Testament Pseudepigrapha, vol. 1, 1983.
  • Matthias Henze. Jewish Apocalypticism in Late First Century Israel: Reading Second Baruch in Context, 2011.
  • John J. Collins. The Apocalyptic Imagination, 1998.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

2 Baruque está na Bíblia?

Não. Ele não faz parte do cânon judaico nem de nenhum cânon cristão, incluindo o etíope, que é o mais amplo entre as tradições cristãs. É um escrito judaico preservado fora da Escritura.

Quem escreveu 2 Baruque de verdade?

O autor é desconhecido. Escreveu em nome de Baruque, o escriba de Jeremias, mas os estudiosos datam a composição real de cerca de 95 a 120 d.C., quase setecentos anos depois da vida do Baruque histórico.

Por que se chama 'Apocalipse Siríaco de Baruque'?

Porque a única versão completa que sobreviveu está em siríaco, e esse nome o distingue de outros escritos atribuídos a Baruque, como o Livro de Baruque grego (1 Baruque) e o Apocalipse Grego de Baruque (3 Baruque).

2 Baruque tem relação com o livro de 4 Esdras?

Sim. Os dois textos foram escritos por volta da mesma época, tratam do mesmo trauma — a destruição do Templo — e compartilham temas e estrutura muito semelhantes. Estudiosos discutem qual influenciou qual, ou se ambos vieram de uma tradição comum.

O banquete messiânico com Leviatã e Behemoth é para ser lido ao pé da letra?

A maioria dos especialistas o lê como imagem simbólica de fartura e vitória sobre o caos no tempo da restauração final, e não como descrição literal de uma refeição.

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Publicado em 23/08/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica: __REVISOR__

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