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Epístola de Barnabé

O que é a Epístola de Barnabé e por que ela aparece junto com a Bíblia no Codex Sinaiticus?

Ficha do documento

Data provável
c. 130 d.C. (janela possível: 70-135 d.C.)
Língua
grego koiné
Autoria atribuída
Barnabé, companheiro de Paulo mencionado em Atos (tradição patrística antiga, sem confirmação histórica)
Onde se preserva
Codex Sinaiticus (séc. IV, grego completo); Codex Hierosolymitanus (1056 d.C., grego completo); tradução latina antiga (apenas os capítulos 1-17)

A erudição, no entanto, sustenta: Autor cristão anônimo, provavelmente de uma comunidade de língua grega próxima a Alexandria, não identificável com o Barnabé de Atos

Status por tradição

Tradição judaicaFora do cânonescrito cristão, fora do escopo do cânone hebraico
Igreja CatólicaFora do cânonnunca incluída no cânone; obra dos Pais Apostólicos
Igreja OrtodoxaFora do cânonvalorizada historicamente, sem uso litúrgico ou canônico
Ortodoxa EtíopeFora do cânonnão integra nem o cânone bíblico amplo etíope
Tradições protestantesFora do cânonfora do cânone; tratada como fonte histórica dos Pais Apostólicos

Resposta curta

A Epístola de Barnabé é um escrito cristão anônimo, provavelmente composto entre o fim do século I e a primeira metade do século II d.C., num ambiente próximo a Alexandria. Apesar do título, a atribuição a Barnabé, o companheiro de Paulo citado em Atos, não tem confirmação histórica: é uma tradição registrada já por autores cristãos antigos, mas rejeitada pela maioria dos estudiosos modernos, que preferem falar em um autor anônimo, o "Pseudo-Barnabé".

O texto tem duas partes: dezessete capítulos de leitura fortemente alegórica do Antigo Testamento, defendendo que a lei ritual judaica sempre apontou simbolicamente para Cristo, seguidos por um bloco ético chamado os "Dois Caminhos". Copiada ao final do Codex Sinaiticus, um dos manuscritos bíblicos mais importantes que existem, ela circulou com grande prestígio nos primeiros séculos sem jamais ser aceita como Escritura canônica em nenhuma tradição cristã.

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Em palavras simples

A Epístola de Barnabé é um texto cristão muito antigo, escrito por volta do ano 100 d.C. por um autor que não se sabe ao certo quem foi, embora tenha sido atribuído a Barnabé, amigo de Paulo. Ela interpreta histórias e leis do Antigo Testamento como símbolos de Cristo e termina com ensinamentos sobre viver bem. Foi tão respeitada que apareceu copiada junto com a Bíblia em um manuscrito antigo, mas nunca chegou a ser considerada parte das Escrituras.

O que o documento conta

O período entre o fim do século I e meados do século II d.C. foi de intensa reconfiguração para as comunidades cristãs, sobretudo as de origem ou vizinhança judaica. A destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C. pelos romanos deixou em aberto uma pergunta urgente: o que fazer com as leis rituais judaicas — sacrifícios, leis alimentares, circuncisão, sábado — agora que boa parte de sua prática original já não era possível ou já não parecia central para comunidades cristãs cada vez mais compostas por não judeus? A Epístola de Barnabé responde a essa pergunta de um jeito radical: argumenta que os judeus, desde o início, interpretaram mal essas leis ao lê-las de modo literal, quando elas sempre foram, segundo o autor, símbolos espirituais que apontavam para Cristo e para a comunidade cristã.

Essa leitura, hoje chamada de supersessionista por retirar de Israel a posse legítima da aliança, era uma entre várias posições em disputa nas primeiras gerações cristãs sobre a relação com a herança judaica — outras vozes do mesmo período, como o autor de Mateus ou os judeus-cristãos que continuavam observando a lei, discordariam do tom da carta. O texto provavelmente nasceu numa comunidade cristã de língua grega com fortes vínculos intelectuais a Alexandria, cidade conhecida pela tradição de interpretar textos por meio de alegoria, método que também marcou autores judeus como Fílon de Alexandria.

Não se sabe se a carta foi escrita para uma congregação específica em crise ou como um tratado de caráter mais geral. A menção, no capítulo 16, a um templo sendo reconstruído é um dos poucos ganchos históricos que os estudiosos usam para tentar fixar uma data, mas o texto é ambíguo o bastante para sustentar leituras que vão da década de 70 até os anos anteriores à revolta de Bar Kokhba, por volta de 132 d.C. Essa incerteza cronológica é normal para textos cristãos desse período que não mencionam eventos ou nomes claramente datáveis, e por isso os especialistas preferem trabalhar com uma janela ampla em vez de uma data fechada.

Aprofundamento

A Epístola de Barnabé se organiza em vinte e um capítulos com duas metades bem distintas. Os capítulos 1 a 17 formam um tratado de exegese alegórica: o autor lê episódios e mandamentos do Antigo Testamento como códigos que, corretamente decifrados, sempre falaram de Cristo e da cruz. Entre os exemplos mais citados estão a serpente de bronze erguida por Moisés (), o bode expiatório do Dia da Expiação () e, no caso mais célebre, os 318 servos armados por Abraão em — o autor lê o número em grego (que também funciona como sigla) como um criptograma que aponta simultaneamente para o nome de Jesus e para a forma da cruz. É um tipo de exegese numerológica que vai muito além do que o Novo Testamento pratica em textos como , onde a serpente de bronze é usada como figura de Cristo de modo mais direto e sóbrio. Os capítulos 18 a 21 mudam de gênero: apresentam os "Dois Caminhos", o caminho da luz e o caminho das trevas, um formato de instrução ética que a carta compartilha quase palavra por palavra com a Didaquê, outro texto do mesmo período, o que sugere que ambos bebem de uma fonte catequética comum mais antiga.

A carta foi escrita em grego koiné e teve boa circulação nos primeiros séculos: Clemente de Alexandria e Orígenes chegam a citá-la com respeito, quase como fariam com um livro bíblico, o que mostra como as fronteiras do cânon ainda estavam sendo negociadas naquele momento. Mais tarde, porém, Eusébio de Cesareia a classificou entre os escritos "espúrios" (notha) — respeitados, lidos, mas não reconhecidos como Escritura — e essa acabou sendo a posição que prevaleceu. A prova física mais marcante de seu prestígio é sua presença no Codex Sinaiticus, manuscrito grego do século IV que é uma das cópias mais completas e antigas de toda a Bíblia: ali, a Epístola de Barnabé aparece copiada logo depois do livro de Apocalipse, ao lado do Pastor de Hermas, num apêndice que testemunha o quanto certos textos podiam ser lidos publicamente sem, com isso, integrar o cânone fechado. Outro testemunho importante é o Codex Hierosolymitanus, de 1056 d.C., que preserva o texto grego completo; já uma tradução latina antiga conserva apenas os dezessete primeiros capítulos, sugerindo que, em algum momento, a parte ética circulou de forma independente da parte alegórica. Vale ainda separar esse escrito de um texto muito mais tardio e de origem diferente, o chamado Evangelho de Barnabé, um relato pseudo-evangélico medieval, provavelmente dos séculos XIV ou XV, que nada tem a ver com a carta grega dos Pais Apostólicos além do nome atribuído.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:A Epístola de Barnabé foi escrita pelo Barnabé companheiro de Paulo, mencionado em Atos.

    A atribuição é uma tradição antiga, mas a maioria dos estudiosos modernos considera o autor anônimo: o estilo, o grego e as referências históricas do texto combinam melhor com uma comunidade cristã de geração posterior, provavelmente de Alexandria, do que com um judeu levita do círculo apostólico de meados do século I.

  • Dizem que:A Epístola de Barnabé é o mesmo texto que o famoso 'Evangelho de Barnabé'.

    São obras completamente diferentes. A Epístola é um escrito grego dos Pais Apostólicos, do fim do século I ou início do II. O 'Evangelho de Barnabé' é um relato medieval muito mais tardio, dos séculos XIV-XV, escrito num contexto de polêmica religiosa e sem qualquer relação de origem com a carta antiga além do nome atribuído.

  • Dizem que:Por estar copiada dentro do Codex Sinaiticus, a Epístola de Barnabé fazia parte oficial do cânon bíblico daquela igreja.

    A presença física num códice não equivale a status canônico. O Codex Sinaiticus também traz o Pastor de Hermas na mesma seção final, e ambos os textos são classificados por autores antigos como Eusébio de Cesareia como leitura respeitada, mas não como Escritura reconhecida.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • catolica

    Reconhece o valor histórico da carta como testemunho patrístico do pensamento cristão do início do século II — inclusive citada com respeito por autores como Clemente de Alexandria e Orígenes — mas trata sua autoria tradicional como incerta e nunca a considerou parte do cânone das Escrituras.

  • ortodoxa

    Valoriza a presença da carta em manuscritos bíblicos antigos como o Codex Sinaiticus como sinal do respeito que ela recebeu nos primeiros séculos, mas mantém a distinção clara entre textos lidos com proveito espiritual e os livros reconhecidos litúrgica e canonicamente como Escritura.

  • protestante

    Tende a enfatizar a descontinuidade entre a Epístola e o cânon do Novo Testamento, apontando sua alegorização extrema — como a leitura numerológica dos 318 servos de Abraão — como exemplo do tipo de exegese distante do sentido histórico e literal que a tradição da Reforma buscou evitar.

  • ortodoxa-etiope

    Embora o cânon bíblico amplo etíope inclua outros escritos extrabíblicos venerados, como Enoque e Jubileus, a Epístola de Barnabé não integra essa lista mais ampla, permanecendo também nessa tradição um texto patrístico de referência histórica, e não um livro escriturístico.

O que fazer com isso

Ler a Epístola de Barnabé com equilíbrio significa reconhecê-la pelo que é: um testemunho valioso de como cristãos do início do século II liam o Antigo Testamento e discutiam sua relação com a lei judaica, não um guia de interpretação bíblica a ser copiado. Sua alegoria extrema, especialmente a numerologia em torno da cruz, serve de alerta sobre os limites entre encontrar padrões legítimos de Cristo nas Escrituras e projetar significados que o texto original nunca sustentou.

Fontes consultadas4 obras
  • Bart D. Ehrman. The Apostolic Fathers, Volume II (Loeb Classical Library), 2003.
  • James Carleton Paget. The Epistle of Barnabas: Outlook and Background, 1994.
  • Michael W. Holmes (ed.). The Apostolic Fathers: Greek Texts and English Translations, 2007.
  • Bruce M. Metzger. The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance, 1987.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

A Epístola de Barnabé é a mesma coisa que o 'Evangelho de Barnabé'?

Não. São textos completamente diferentes, de épocas e contextos distintos. A Epístola é um escrito cristão grego do fim do século I ou início do II d.C., enquanto o 'Evangelho de Barnabé' é uma obra medieval muito mais tardia, dos séculos XIV-XV, sem relação de origem com a carta antiga.

Por que a Epístola de Barnabé aparece no Codex Sinaiticus se não é canônica?

Manuscritos antigos às vezes reuniam, num mesmo volume, textos considerados edificantes ao lado dos livros canônicos, sem que isso significasse igual status de Escritura. No Codex Sinaiticus, ela aparece após o Apocalipse, junto ao Pastor de Hermas, num apêndice de leitura recomendada.

Quem realmente escreveu a Epístola de Barnabé?

Não se sabe ao certo. A tradição antiga a atribuiu a Barnabé, companheiro de Paulo, mas a maioria dos estudiosos modernos considera essa atribuição improvável e trata o autor como anônimo, provavelmente ligado a uma comunidade cristã de língua grega próxima a Alexandria.

Do que trata o conteúdo da carta?

A primeira parte interpreta de forma alegórica leis e episódios do Antigo Testamento como símbolos de Cristo; a segunda parte traz uma instrução ética conhecida como os 'Dois Caminhos', também encontrada na Didaquê.

Alguma igreja hoje considera a Epístola de Barnabé Escritura?

Não. Nenhuma tradição cristã atual — católica, ortodoxa, protestante ou ortodoxa etíope — a inclui em seu cânone bíblico. Ela é estudada como um dos chamados Pais Apostólicos, textos cristãos primitivos de grande valor histórico, mas sem status canônico.

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Publicado em 09/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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