
Por que Paulo diz que podemos nos gloriar nas tribulações?
Como alguém pode se alegrar no sofrimento? Paulo está dizendo que devemos gostar de sofrer?
E não somente isso, mas também nos alegramos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz paciência; a paciência produz experiência, e a experiência produz esperança. E a esperança não frustra, porque o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.
Resposta curta
Em , Paulo afirma que os cristãos se gloriam também nas tribulações, porque a tribulação produz perseverança, a perseverança produz caráter aprovado, e o caráter produz esperança, uma esperança que não decepciona. O gancho para entender o trecho está no que vem antes: Paulo acabou de dizer que os justificados pela fé têm paz com Deus e se gloriam na esperança da glória divina. O sofrimento, portanto, não é celebrado por si mesmo nem apresentado como método de crescimento automático. Ele é lido à luz de uma esperança já garantida pelo amor de Deus, derramado pelo Espírito. O trecho oferece consolo sem negar a dor e sem prometer vida fácil.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO versículo 5 fala do amor de Deus derramado pelo Espírito, e os versículos seguintes mostram onde esse amor se manifestou: Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. A esperança do crente nas tribulações repousa nesse acontecimento histórico, não em sua própria força.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Paulo diz que os cristãos se gloriam até nas tribulações. Não é gostar de sofrer. Ele quer dizer que o sofrimento, vivido por quem já foi justificado e recebeu o Espírito, pode fortalecer a firmeza e a esperança. Essa esperança não decepciona porque Deus derramou seu amor no coração dos que creem. O texto consola sem negar a dor e sem prometer vida fácil.
Contexto histórico
abre uma nova etapa na carta. Depois de mostrar, nos capítulos 1 a 4, que judeus e gentios estão igualmente sob o pecado e são justificados pela fé em Cristo, Paulo começa o capítulo 5 com as consequências dessa justificação: temos paz com Deus, temos acesso pela fé à graça em que estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus (5:1-2). Só então, no versículo 3, ele acrescenta: 'e não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações'. O 'também' é decisivo. O gloriar-se na esperança já era a primeira coisa; as tribulações entram como um segundo objeto de glória, algo que, num primeiro momento, soa contraditório. O contexto histórico ajuda a entender o peso da palavra. A igreja de Roma era composta de judeus e gentios que viviam numa capital imperial, onde crer em Cristo e recusar o culto cívico podia custar relações, trabalho e segurança. Pouco antes de Paulo escrever, os judeus haviam sido expulsos de Roma por decreto de Cláudio, e logo viria a perseguição sob Nero. Tribulação, no vocabulário de Paulo, não é só sofrimento genérico; é pressão, aperto, aflição vinda de fora por causa da fé, mas pode incluir toda a fragilidade da condição mortal. A igreja, portanto, conhecia de perto o que a palavra significava. Em , ele voltará ao tema dizendo que o sofrimento presente não se compara à glória futura. O versículo 5 fecha a cadeia com o fundamento: o amor de Deus derramado pelo Espírito. A seguir, em 5:6-8, Paulo explicará esse amor pela morte de Cristo por pecadores. Vale lembrar que o capítulo 5 inteiro fala de reconciliação, e não de ascetismo. Portanto, a frase sobre gloriar-se nas tribulações não é uma instrução isolada de autoajuda, e sim uma dedução teológica: se Deus já justificou e deu o Espírito, nem o sofrimento pode anular a esperança.
Aprofundamento
A cadeia de 5:3-4 tem quatro elos: tribulação, perseverança, caráter e esperança. O primeiro ponto a observar é o verbo. Paulo não diz que a tribulação 'gera' automaticamente virtude; diz que ela 'produz' ou 'opera' perseverança, e o sujeito da frase não é a dor, mas o crente que sabe (5:3: 'sabendo que'). O conhecimento é o que faz a diferença: quem sabe que o sofrimento não é o fim consegue resistir sem ser destruído. O segundo ponto é o sentido de cada termo. 'Perseverança' traduz uma palavra que designa constância sob pressão, firmeza de quem permanece em seu lugar; não é passividade. 'Caráter', em muitas Bíblias 'experiência', traduz um termo que indica a qualidade de algo que passou pelo teste, como o metal aprovado no fogo; o crente testado é reconhecido como genuíno. E 'esperança' fecha o círculo, voltando ao começo do trecho, onde já nos gloriávamos na esperança da glória (5:2). Paulo, portanto, não sai de um ponto a outro; faz um círculo. A esperança que dá coragem para suportar é a mesma que o sofrimento, suportado, fortalece. O terceiro ponto é a garantia: esta esperança 'não confunde', ou seja, não envergonha nem decepciona. Isso ecoa linguagem do Antigo Testamento, em que ser envergonhado era ver a confiança frustrada (; 25:3). A razão não é a força do crente, e sim o amor de Deus, derramado em nossos corações pelo Espírito. Uma leitura frequente, de Calvino a John Stott, vê aí a certeza interna do Espírito; Moo e Cranfield destacam que o amor é primeiro o amor de Deus por nós, provado em Cristo (5:8), e não o nosso amor por ele. Há também um debate sobre se 'tribulações' devem ser lidas à luz de uma tradição judaica de sofrimentos que precedem a era vindoura; nesse caso, o cristão já vive as dores do parto da nova criação, tema desenvolvido em 8:18-25. Convém dizer o que o texto não afirma, para que a cadeia não vire fórmula. Paulo não diz que Deus causa cada sofrimento para ensinar uma lição, nem que o cristão deva procurar a dor ou fingir que ela não machuca. Em outros textos ele confessa angústia, choro e até desespero de viver (). O que afirma é que, para quem está em Cristo, a aflição não tem a última palavra, e que a comunidade de fé, não o indivíduo isolado, é o lugar onde essa esperança se aprende e se sustenta.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Paulo ensina que o cristão deve procurar o sofrimento porque ele sempre produz santidade.
O texto diz que quem sofre, sabendo o que sabe, pode ser fortalecido; não manda buscar a dor nem afirma que ela melhora qualquer pessoa. O próprio Paulo pede livramento e confessa abatimento em e 12:7-9.
Dizem que:Gloriar-se nas tribulações significa sentir alegria e não sentir tristeza.
A palavra grega indica confiança e orgulho de fundo, não emoção agradável. O mesmo Paulo chora e sofre com os que sofrem (; 12:15); a glória aqui é a firmeza de quem tem uma esperança segura.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada (Calvino, Stott)
O texto ensina a perseverança dos santos e a certeza do Espírito: a esperança não envergonha porque o amor de Deus é testemunhado no coração do crente.
Exegese contemporânea (Moo, Cranfield)
Paulo faz uma cadeia circular que parte da esperança e volta a ela, apoiada primeiro no amor de Deus provado na cruz, e só depois na experiência subjetiva.
Leitura escatológica (Käsemann, Wright)
As tribulações são as dores da nova era em curso; o crente participa já do sofrimento do mundo velho à espera da glória, tema desenvolvido em .
No original4 termos
θλῖψιςthlipsisG2347
Pressão, aperto, aflição. Em Paulo, designa o sofrimento causado por oposição ou perseguição, mas também pode abranger toda dificuldade da existência.
ὑπομονήhypomonēG5281
Perseverança, constância ativa sob pressão; não é resignação passiva, mas firmeza de quem permanece.
δοκιμήdokimēG1382
Prova superada, qualidade comprovada de alguém ou algo que passou pelo teste; por isso 'caráter aprovado' ou 'experiência'.
καυχάομαιkauchaomaiG2744
Gloriar-se, orgulhar-se, ter confiança jubilosa; em Romanos pode ter sentido positivo, quando o motivo é Deus.
O que fazer com isso
Este texto não pede que ninguém finja alegria diante da dor, nem que a trate como prova de que Deus está ensinando algo. Ele oferece uma razão para continuar firme quando a aflição chega: a esperança em Cristo já está garantida pelo amor derramado pelo Espírito. Pode ajudar a nomear o sofrimento com honestidade, buscar apoio na comunidade e lembrar que perseverar não é suportar sozinho.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Douglas J. Moo. The Epistle to the Romans (NICNT), 1996.
- C. E. B. Cranfield. A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans (ICC), 1975.
- John Stott. A Mensagem de Romanos, 1994.
- João Calvino. Comentário à Epístola aos Romanos, 1540.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Paulo está dizendo que o sofrimento é bom?
Não. Ele diz que o crente pode se gloriar nas tribulações por saber o que elas podem produzir quando suportadas na esperança. O texto não afirma que o sofrimento seja bom em si, nem que Deus o envie para ensinar.
Qual a diferença entre gloriar-se na esperança e nas tribulações?
A esperança da glória de Deus (5:2) é o primeiro motivo. As tribulações vêm como um segundo motivo, não por serem agradáveis, mas porque, na esperança, elas fortalecem a perseverança.
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