
'O Senhor criou uma coisa nova na terra': o enigma da mulher que cerca o homem
O que significa 'a mulher cercará o homem' em Jeremias 31:22?
Até quando andarás sem rumo, ó filha rebelde? Pois o SENHOR criará uma coisa nova sobre a terra: uma fêmea cercará ao varão.
Resposta curta
fecha um dos oráculos mais líricos do livro com uma frase que intriga tradutores há séculos: 'o Senhor criou uma coisa nova na terra: a mulher cercará o homem'. O verbo hebraico traduzido por 'cercará', tesobeb, cobre um leque grande de sentidos, rodear, proteger, cortejar, até envolver por completo, e essa amplitude é a raiz da controvérsia. Leitores modernos costumam entender a frase como inversão social, a mulher tomando a iniciativa que normalmente caberia ao homem, sinal do mundo virado ao contrário que a restauração traz consigo. Já a tradição patrística, de Jerônimo a Agostinho, viu ali uma alusão à concepção virginal, a mulher que contém o homem sem intervenção masculina. O hebraico isolado não resolve essa disputa entre leituras tão diferentes.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA tradição patrística, sobretudo Jerônimo na Vulgata, leu 'a mulher cercará o homem' como prenúncio da concepção virginal, a mulher que envolve o homem sem que ele seja o agente da geração. É uma leitura antiga e respeitável, mas nenhum autor do Novo Testamento cita a propósito do nascimento de Jesus, diferente do que ocorre com em . Por isso a ligação, se existe, é indireta e tipológica, não uma citação de cumprimento profético.
Em palavras simples
diz que Deus vai criar 'uma coisa nova', descrita como 'a mulher cercará o homem'. O verbo hebraico usado é tão amplo que pode significar rodear, proteger ou cortejar, e ninguém sabe com certeza qual desses sentidos o profeta tinha em mente. Alguns leem como uma inversão social, mulheres tomando iniciativa num mundo restaurado, outros como uma imagem antiga da concepção virginal de Jesus. As duas leituras são possíveis e nenhuma delas é imposta pelo hebraico sozinho, o que torna este um dos versículos mais discutidos de todo o livro de Jeremias.
Contexto histórico
pertence ao chamado Livro da Consolação, os capítulos 30 a 33, o bloco mais esperançoso de um livro dominado por anúncios de ruína. Depois de trinta capítulos de acusação e julgamento contra Judá, o profeta muda de tom para prometer o retorno dos exilados, a reconstrução de Israel e Judá e, poucos versículos depois deste, a promessa da nova aliança, o texto mais citado de Jeremias no Novo Testamento. O capítulo começa com Efraim chorando, Raquel lamentando os filhos perdidos, e Deus respondendo com promessas de retorno e de alegria restaurada, virgens dançando, jovens e velhos se alegrando juntos, o luto transformado em festa. É dentro desse clima de reviravolta total que aparece a fórmula 'o Senhor criou uma coisa nova na terra', introduzindo a frase sobre a mulher que cerca o homem como o exemplo concreto dessa novidade. O problema é que o texto não explica o que essa novidade é, deixando ao leitor decidir se ela descreve um comportamento social, uma imagem afetiva de proteção aos exilados exaustos que voltam, ou algo mais amplo sobre a ordem natural sendo revertida como sinal da intervenção divina. A palavra para 'mulher' aqui, nekevah, é o termo mais genérico e biológico do hebraico para o sexo feminino, não a palavra comum para esposa ou moça, o que já indica que o autor está falando de algo conceitual, o feminino diante do masculino, não de um casal específico. Do lado masculino, gever é uma palavra que frequentemente designa o homem forte, o guerreiro, o que abre a possibilidade de a frase estar comentando sobre soldados exauridos sendo acolhidos, e não sobre relações de casal comuns. Essa ambiguidade de vocabulário, somada à raridade da construção verbal, explica por que comentaristas discordam tanto sobre o que a linha realmente quer dizer dentro do oráculo de consolo.
Aprofundamento
O centro da dificuldade está no verbo tesobeb, forma intensiva da raiz sabab, que no restante do Antigo Testamento aparece para descrever cercar uma cidade em cerco militar, rodear em procissão, e também abraçar ou envolver com proteção. Não há paralelo claro que fixe o sentido aqui como sexual, romântico ou apenas espacial, e é essa amplitude que produz traduções tão diferentes. A King James verteu 'a mulher cercará o homem' de modo quase literal, preservando a ambiguidade. Versões mais recentes tentam decidir por um lado, 'a mulher abraçará o homem', 'a mulher protegerá o homem', ou ainda 'cortejará', dependendo de qual campo semântico do verbo o tradutor privilegia. A tradição judaica clássica, representada por comentaristas como Rashi, tende a ler a frase como descrição de um comportamento social invertido, mulheres buscando os homens em vez de esperar ser buscadas, um detalhe concreto da novidade radical que a restauração inaugura, paralelo a outros textos proféticos que descrevem o mundo pós-exílio com imagens de reviravolta. A leitura patrística cristã seguiu outro caminho, lendo 'mulher' como prenúncio da virgem que geraria o Messias sem concurso masculino, 'conter' o homem sem ele ser o agente da concepção, uma leitura tipológica que Jerônimo defendeu explicitamente na Vulgata e que a tradição latina manteve por séculos. Essa leitura tem o mérito de dialogar com o restante do capítulo, que fala em 'coisa nova', mas carece de qualquer citação no Novo Testamento amarrando este versículo especificamente ao nascimento de Jesus, ao contrário de , que Mateus cita de forma direta. Comentaristas críticos contemporâneos, como Jack Lundbom e William McKane, tendem a preferir a leitura da inversão social ou da proteção afetiva, situando a frase dentro do vocabulário de espanto e paradoxo que marca todo o oráculo, sem exigir um salto messiânico que o próprio texto hebraico não obriga. Há ainda quem note que o verbo tesobeb está numa forma verbal intensiva, o que reforça a ideia de uma ação envolvente e contínua, não um gesto pontual, favorecendo leituras de proteção duradoura mais do que de simples cortejo passageiro. William Holladay chama atenção para o paralelismo com outras 'coisas novas' anunciadas no mesmo bloco de capítulos, sugerindo que o autor está empilhando imagens de reversão surpreendente, e que a força da frase está em sua estranheza, não em resolver-se numa explicação única e tranquilizadora. O resultado é um dos raros casos em que a tradução para o português, ou para qualquer língua moderna, precisa necessariamente decidir por uma leitura em vez de outra, perdendo a amplitude original que o hebraico preserva.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:Jeremias 31:22 é uma profecia direta do nascimento virginal de Jesus, no mesmo nível de Isaías 7:14.
Nenhum autor do Novo Testamento cita este versículo a respeito do nascimento de Jesus, enquanto é citado explicitamente em . A leitura messiânica de é uma tradição patrística posterior, não uma citação de cumprimento dentro da própria Bíblia.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica clássica (Rashi e comentaristas rabínicos)
A frase descreve uma inversão social concreta, mulheres tomando a iniciativa de buscar os homens, um dos sinais visíveis da novidade radical trazida pela restauração pós-exílio.
Patrística e Vulgata latina (Jerônimo)
'A mulher' prenuncia a virgem que geraria o Messias sem concurso masculino, lendo 'cercar' como conter ou envolver dentro de si, uma tipologia messiânica lida a partir do Novo Testamento.
Crítica histórica moderna (Lundbom, McKane)
O verbo tesobeb expressa proteção ou acolhimento afetivo, provavelmente ligado à imagem de exilados exauridos sendo recebidos de volta, sem necessidade de leitura messiânica.
No original3 termos
תְּסוֹבֵבtesobebH5437
Forma verbal de sabab, 'rodear, cercar, envolver'; pode indicar cerco militar, proteção afetiva ou movimento circular, dependendo do contexto.
נְקֵבָהnekevahH5347
Termo genérico e biológico para 'fêmea, mulher', mais abstrato que a palavra comum para esposa, sugerindo que o texto fala do feminino em geral.
גֶּבֶרgeverH1397
'Homem, homem forte, guerreiro'; usado com frequência para designar combatentes ou homens em situação de vulnerabilidade física.
O que fazer com isso
Diante de um versículo genuinamente ambíguo, a honestidade exige resistir à tentação de fechar a questão com mais confiança do que o texto permite. O valor duradouro da passagem não depende de decifrar exatamente o que 'cercar' significa, mas de reconhecer o que o capítulo afirma sem ambiguidade nenhuma, que Deus promete fazer algo genuinamente novo depois do desastre do exílio, revertendo o esperado. Aprender a conviver com um enigma textual, sem forçar clareza artificial, também é parte de ler a Bíblia com seriedade.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas3 obras
- Jack R. Lundbom. Jeremiah 21-36 (Anchor Bible), 2004.
- William McKane. A Critical and Exegetical Commentary on Jeremiah (ICC), 1996.
- William L. Holladay. Jeremiah 2 (Hermeneia), 1989.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Jeremias 31:22 fala sobre Maria, mãe de Jesus?
É uma leitura tradicional, defendida por Jerônimo e outros pais da igreja, mas o Novo Testamento nunca cita este versículo a respeito do nascimento de Jesus. A ligação é uma tipologia posterior, não uma citação profética confirmada dentro da própria Bíblia.
Por que as traduções da Bíblia divergem tanto nesse versículo?
Porque o verbo hebraico tesobeb tem um leque de sentidos muito amplo, de cercar militarmente a abraçar com proteção, e cada tradução precisa escolher um sentido específico onde o hebraico original mantinha a ambiguidade.
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