
Jeremias é preso ao tentar deixar Jerusalém sitiada
por que jeremias foi preso ao tentar sair de jerusalem
E aconteceu que, quando o exército dos caldeus havia saído de Jerusalém por causa do exército de Faraó, Jeremias saiu de Jerusalém para ir à terra de Benjamim, para ali receber sua parte no meio do povo. Porém quando ele chegou à porta de Benjamim, estava ali um capitão dos da guarda, cujo nome era Jerias, filho de Selemias, filho de Hananias; o qual prendeu ao profeta Jeremias, dizendo: Estás te rendendo aos caldeus.
Resposta curta
Durante o cerco babilônico a Jerusalém, o exército de Nabucodonosor recuou por um tempo para enfrentar as tropas egípcias que vinham em socorro de Zedequias. Nesse intervalo, Jeremias tentou deixar a cidade rumo à terra de Benjamim, sua região de origem, para tratar de um assunto ligado à sua parte na herança da família. Ao chegar à porta de Benjamim, foi detido pelo capitão da guarda Jerias, que o acusou de desertar para os caldeus.
A prisão nasce de um mal-entendido: um motivo pessoal e legítimo é lido como traição política, num momento em que a cidade vivia sob suspeita generalizada. Jeremias nega a acusação, mas não é ouvido; é espancado, levado aos príncipes e trancado numa masmorra improvisada. O episódio mostra como o medo da guerra corrói a confiança social, transformando um profeta fiel em suposto inimigo do povo.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA prisão de Jeremias por uma acusação política falsa é um episódio dentro de um padrão maior que a própria Escritura reconhece: o dos mensageiros de Deus rejeitados e perseguidos por quem deveria ouvi-los. O Novo Testamento traça explicitamente essa linha até Jesus — o discurso de Estêvão lembra que os antepassados perseguiram todos os profetas e, no fim dessa história, entregaram e mataram o próprio "Justo" (). Jesus também foi condenado por uma acusação política manipulada — sedição contra Roma () — em vez do verdadeiro motivo religioso, exatamente como Jeremias foi acusado de deserção militar em vez de ser ouvido sobre seu real propósito. O texto de não aponta para Cristo por si mesmo, mas se encaixa nessa trajetória bíblica da injustiça contra o mensageiro fiel, que culmina e se resolve na cruz.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Jerusalém estava cercada pelo exército babilônico, mas as tropas recuaram por um tempo para enfrentar os egípcios que vinham ajudar o rei. Nessa folga, Jeremias tentou sair da cidade para resolver um assunto de família na terra de Benjamim, onde tinha direito a um pedaço de terra. Na porta da cidade, um guarda o deteve, achando que ele estava fugindo para se render ao inimigo. Jeremias negou, mas não foi ouvido: foi espancado e trancado numa prisão improvisada.
Contexto histórico
A cena se passa no ano dez do reinado de Zedequias, por volta de 588-587 a.C., no período final do reino de Judá. Jerusalém estava sitiada pelo exército de Nabucodonosor havia meses, e a fome já apertava dentro dos muros. Nesse momento, um fato inesperado muda o cenário: o exército egípcio, comandado pelo faraó Hofra (também chamado Apries), avança para socorrer Zedequias, que havia buscado uma aliança com o Egito contra a Babilônia. Diante da ameaça egípcia, os babilônios levantam temporariamente o cerco e se retiram de Jerusalém para enfrentar essa nova frente (). O respiro, no entanto, foi ilusório: o próprio Jeremias já havia anunciado, por ordem do Senhor, que os caldeus voltariam e tomariam a cidade (37:6-10), palavra que a história confirmou.
É nesse breve intervalo que Jeremias tenta viajar até a terra de Benjamim, território ao norte de Jerusalém onde ficava Anatote, sua cidade natal e a base de sua família sacerdotal. O texto diz que ele ia "receber sua parte no meio do povo" — uma referência a algum direito de herança ou propriedade familiar. Muitos estudiosos relacionam esse propósito com o episódio de , em que o profeta compra de seu primo Hanameel um campo em Anatote, exercendo o direito de resgate previsto na lei de Israel para terras de família (compare ). Se a ligação estiver correta, a viagem interrompida em 37:12 seria uma primeira tentativa de tratar pessoalmente desse negócio, concluído depois, já com Jeremias preso, quando o próprio Hanameel vai até ele.
O detalhe geográfico da "porta de Benjamim" — uma das entradas de Jerusalém voltada para o norte, na direção do território de Benjamim — situa a cena num ponto de saída natural da cidade sitiada, sob vigilância redobrada. Comentaristas como Keil e Delitzsch destacam que, num cerco, qualquer movimento de saída era automaticamente suspeito de deserção para o inimigo, o que explica a reação imediata do capitão da guarda Jerias diante de um homem que já havia pregado publicamente a rendição como vontade de Deus.
Aprofundamento
O verbo hebraico por trás de "receber sua parte" () é um dos pontos mais discutidos da passagem. A forma infinitiva "lachaloq", ligada à raiz "chalaq", pode significar "dividir" ou "receber um quinhão/porção" — daí traduções como "para ali receber sua parte no meio do povo" (seguida por esta versão) ou "para tomar posse de sua propriedade entre o povo" (NVI). Mas existe uma segunda raiz homônima em hebraico, "chalaq II", ligada à ideia de "ser liso, escapar, esgueirar-se", que levou traduções mais antigas, como a KJV, a verter o trecho como "para se retirar dali no meio do povo" — ou seja, para se misturar à multidão e sair despercebido. J. A. Thompson, no comentário do NICOT sobre Jeremias, observa que essa ambiguidade textual é real e não se resolve com certeza apenas pela gramática; o contexto favorece a leitura de um assunto de propriedade, já que a história de Jeremias volta a esse tema no capítulo 32, com a compra do campo de Anatote.
Essa incerteza de tradução não é um detalhe periférico: ela muda a imagem que fazemos de Jeremias no momento da prisão. Se ele ia "receber sua parte", trata-se de um propósito administrativo comum, o tipo de viagem que qualquer proprietário de terra faria. Se ele ia "escapulir-se no meio do povo", a cena ganha um tom mais furtivo, quase como se o texto admitisse alguma ambiguidade sobre a aparência da saída — ainda que o versículo seguinte deixe claro que a acusação de deserção para os caldeus era falsa (37:14). De um jeito ou de outro, o relato não apresenta Jeremias como culpado: ele nega a acusação e o narrador não o contradiz.
Vale notar também o nome do capitão da guarda, Jerias, "filho de Selemias, filho de Hananias" (37:13) — uma genealogia de três gerações que o texto registra com cuidado, algo incomum para uma figura secundária. Comentaristas como Keil e Delitzsch veem nisso um traço típico do estilo do livro de Jeremias, que costuma identificar com precisão até personagens menores, sinal de que o relato vem de testemunha próxima dos fatos, provavelmente o próprio escriba Baruque.
Por fim, o episódio se encaixa numa sequência maior de perseguição a Jeremias que atravessa os capítulos 37 e 38: prisão na casa de Jônatas, transferência ao pátio da guarda, descida a uma cisterna lamacenta e novo resgate. Cada etapa mostra a mesma dinâmica: uma cidade em pânico que trata a mensagem impopular do profeta — e agora até seus movimentos pessoais mais banais — como ameaça a ser neutralizada.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Jeremias estava tentando desertar e se render aos babilônios, provando que ele mesmo não confiava em sua profecia de resistência inútil.
O texto não apresenta esse motivo. Jeremias afirma explicitamente que ia tratar de um assunto pessoal de herança, e nega a acusação de deserção assim que é preso (37:14); o narrador não sugere que ele estivesse mentindo.
Dizem que:A prisão de Jeremias prova que ele era visto como traidor por todo o povo de Judá.
O relato mostra a ação de um único guarda suspeito e dos príncipes que o interrogam, não um julgamento popular; o clima de suspeita generalizada do cerco explica a reação, mas não significa consenso sobre a culpa de Jeremias.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
catolica
A tradição associa o sofrimento imerecido de Jeremias, o profeta perseguido por dizer a verdade, a uma figura do próprio Cristo sofredor, e por isso trechos de Jeremias e Lamentações aparecem na liturgia da Semana Santa como voz da paixão.
reformada
O episódio é lido dentro da soberania de Deus sobre a história: mesmo perseguido injustamente, Jeremias continua sendo o instrumento fiel pelo qual Deus executa e confirma seu propósito de julgamento sobre Jerusalém.
luterana
Destaca-se aqui a teologia da cruz: o justo que sofre sem culpa, incompreendido pelos seus, antecipa o padrão que se repete e se cumpre plenamente na cruz de Cristo.
pentecostal
O episódio é lido como paradigma da perseverança do servo de Deus sob perseguição injusta, encorajando o crente a manter fidelidade ao chamado mesmo quando mal interpretado e maltratado por sua própria comunidade.
No original4 termos
לַחֲלֹקlachaloq
forma infinitiva do verbo chalaq; ambíguo entre "dividir/receber uma porção" e, por uma raiz homônima, "escapar, esgueirar-se" — base da controvérsia de tradução do versículo 12
כַּשְׂדִּיםKasdimH3778
caldeus, designação do povo e exército babilônico
פַּרְעֹהPar'ohH6547
título do rei do Egito, aqui referindo-se ao faraó cujo exército forçou a retirada temporária dos babilônios
שַׁעַר בִּנְיָמִןsha'ar Binyamin
a porta de Benjamim, uma das entradas de Jerusalém voltada para o território de Benjamim, ao norte
O que fazer com isso
Vale notar como situações de medo coletivo distorcem a leitura das intenções alheias: um gesto comum vira sinal de traição quando todo mundo já está em alerta máximo. Antes de presumir o pior sobre a atitude de alguém, vale considerar se a suspeita nasce de evidência real ou apenas do clima de tensão do momento. E para quem se vê mal interpretado como Jeremias, o texto não promete reparação imediata: mostra que dizer a verdade, mesmo sem ser ouvido, ainda vale a pena.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1706.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Jeremiah, Lamentations, 1996.
- J. A. Thompson. The Book of Jeremiah (New International Commentary on the Old Testament), 1980.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Jeremias estava realmente tentando fugir para os babilônios?
Não é o que o texto indica. Jeremias ia à terra de Benjamim tratar de um assunto de herança familiar; foi o capitão da guarda quem, por suspeita, o acusou de deserção. Jeremias nega a acusação, e o relato não o contradiz.
Por que o cerco de Jerusalém foi interrompido nesse momento?
O exército babilônico recuou temporariamente para enfrentar as tropas egípcias enviadas em socorro do rei Zedequias (). A trégua foi passageira: o próprio Jeremias já havia anunciado que o cerco seria retomado.
O que aconteceu com Jeremias depois de ser preso?
Foi espancado, levado aos príncipes e trancado na casa do escriba Jônatas, transformada em prisão (37:15). Mais tarde o rei Zedequias o transfere para o pátio da guarda (37:21).
Esse assunto de herança é o mesmo do capítulo 32?
Muitos comentaristas relacionam o propósito da viagem com a compra do campo de Anatote, concluída no capítulo 32. O texto, porém, não afirma isso de forma explícita, e a ligação exata entre os dois episódios é discutida por especialistas.
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