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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

Quem é o 'exército do norte' que Deus afastará em Joel 2:20?

Quem é o exército do norte de Joel 2:20: os gafanhotos, um povo inimigo de verdade ou um símbolo do fim dos tempos?

E afastarei de vós o exército do norte, e o lançarei na terra seca e deserta; sua frente será para o mar oriental, e sua retaguarda para o mar ocidental, e exalará seu mau cheiro; subirá sua podridão, porque fez grandes coisas.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Em , Deus promete remover para longe do povo 'o exército do norte', lançá-lo numa terra seca e deserta, com a frente voltada para o mar oriental e a retaguarda para o mar ocidental. A expressão vem logo depois da descrição de uma invasão devastadora que lembra gafanhotos, e por isso é difícil de identificar. O hebraico usa uma forma rara, 'o setentrional', que não aparece em outro lugar da Bíblia e que a tradução 'exército' acrescenta por interpretação. Há leituras literais, que veem os próprios gafanhotos ou um inimigo humano, e leituras simbólicas ou apocalípticas, que veem um adversário final. Cada uma resolve parte do texto e deixa outra em aberto, e isso ajuda a explicar por que os comentaristas não chegam a um consenso.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Logo depois da promessa de livramento, Joel anuncia que o Espírito será derramado sobre toda carne e que todo o que invocar o nome do Senhor será salvo (2:28-32). Pedro cita essa passagem em Pentecostes como o que se cumpria com a obra de Jesus. A libertação do v. 20 se abre, assim, para uma restauração maior.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Depois de descrever uma invasão de gafanhotos que parecia um exército, Joel traz uma promessa: Deus afastará 'o exército do norte' e o jogará numa terra seca. Ninguém sabe ao certo quem é esse exército. Pode ser a própria praga, um povo inimigo ou um símbolo do fim dos tempos. O que o texto deixa claro é que Deus vai tirar o mal do povo que se arrependeu.

Contexto histórico

O livro de Joel não traz data nem informações sobre o profeta além do nome do pai, Petuel (1:1). Os estudiosos o situam em épocas bem diferentes, desde o século IX a.C. até o período persa, depois do exílio, e a identificação do 'exército do norte' muda conforme a data. O que o livro apresenta é uma calamidade vivida pelo povo de Judá: uma praga de insetos que devora campos, vinhas e figueiras (1:4-12), seguida de seca e fogo (1:19-20). Joel chama o povo ao luto, ao jejum e à oração (1:13-14) e anuncia o 'dia do Senhor' como algo próximo. No capítulo 2, a descrição passa a lembrar um exército em marcha: o fogo vai à frente, a terra é um jardim antes e um deserto depois, os cavalos correm, os guerreiros escalam muros, e a terra treme diante deles (2:1-11). A mesma linguagem serve para insetos e soldados. Em 2:12-17 vem o apelo ao arrependimento 'de todo o coração', com rasgar o coração e não só as vestes, e a convocação de todo o povo, até dos recém-casados, para o jejum no santuário. Em 2:18, o Senhor 'zela pela sua terra' e tem compaixão do povo, e a partir daí o tom muda. O versículo 19 promete cereais, vinho e azeite, e o versículo 20 anuncia a remoção do inimigo. Em seguida, os versículos 21 a 27 convocam a terra, os animais e os filhos de Sião a se alegrar, porque o Senhor 'fez grandes coisas', e anunciam a restituição dos anos que o gafanhoto consumiu (2:25). Depois disso vem a promessa do derramamento do Espírito (2:28-32), que Pedro cita em . Portanto, o versículo 20 está no ponto de virada do livro: o juízo vivido dá lugar à restauração. Os intérpretes também lembram que a mesma pergunta, quem é o inimigo, depende de quanto se lê o capítulo 1 e o capítulo 2 como a mesma crise ou como duas fases. Se o capítulo 2 é continuação da praga, o 'do norte' tende a ser o enxame; se é um passo além, aponta para um inimigo humano ou final. O livro não resolve a questão, e cada leitor precisa reconhecer essa abertura.

Aprofundamento

O versículo 20 contém dois problemas separados. O primeiro é a palavra traduzida como 'exército do norte'. No hebraico há apenas haTsefoni, 'o setentrional' ou 'o do norte', um adjetivo que não ocorre em outro ponto das Escrituras. A palavra 'exército' é acrescentada pelos tradutores, e algumas versões preferem 'o do norte', 'o setentrional' ou 'o inimigo do norte', o que mostra a incerteza. O segundo problema é o destino do inimigo: lançado a uma terra seca e deserta, com a frente para o 'mar oriental' (o mar Morto) e a retaguarda para o 'mar ocidental' (o Mediterrâneo). Esse mapa espalha o inimigo para os dois lados da terra de Judá, e não o devolve ao norte, o que complica a imagem de um exército que simplesmente volta para casa. A leitura literal mais simples entende que se trata dos gafanhotos. Contra essa leitura, observa-se que insetos em geral vêm do sul e do leste, não do norte, e que 'mau cheiro' e 'podridão' de insetos mortos combinam bem com a imagem. A favor dela, o livro inteiro trata da praga e a promessa de restauração (2:25) fala do gafanhoto. Uma segunda leitura vê um exército humano real, geralmente assírio ou babilônico, já que no profetismo hebraico o inimigo costuma vir do norte (; ). Nesse caso, os gafanhotos seriam a imagem e o inimigo a realidade. O problema é que a história de uma invasão desse tipo não é narrada em Joel. Uma terceira leitura, apocalíptica, entende o 'do norte' como o adversário escatológico, no mesmo registro de , em que Gogue vem do extremo norte. Ela explica a linguagem cósmica do livro, mas exige dar ao texto um sentido que os primeiros ouvintes dificilmente captariam. Há também quem combine as três: o gafanhoto como juízo histórico, o 'do norte' como o inimigo que ele simboliza e a derrota final como antecipação do último dia. A frase final, 'porque agiu grandiosamente', é ambígua: pode se referir ao inimigo, que se engrandeceu, ou ao Senhor, como no versículo 21. Em qualquer das leituras, o texto afirma que Deus tem o controle e que o povo arrependido não será abandonado. O cheiro e a podridão mencionados no final do versículo reforçam que o inimigo não só é afastado, mas liquidado, e que o ciclo da calamidade se encerra de forma visível. Nesse sentido, o debate sobre a identidade do inimigo não deve ofuscar a declaração central: a iniciativa da reversão é do Senhor, que age em resposta ao clamor de um povo que se voltou para ele de todo o coração (2:12-13, 18-19).

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Joel 2:20 é uma profecia clara sobre a Rússia ou outra nação moderna ao norte de Israel.

    O texto não menciona nação alguma. Aplicar a expressão a países atuais ignora que o 'norte' era, em toda a Bíblia, a direção de onde vinham os invasores da Mesopotâmia, e não indica um país específico.

  • Dizem que:A expressão 'exército do norte' aparece em várias passagens, sempre com o mesmo sentido.

    A forma hebraica haTsefoni ocorre uma única vez na Bíblia. Outras profecias falam de inimigos 'do norte', mas com vocabulário diferente, e não se pode simplesmente transferir o significado de um texto para o outro.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura literal (gafanhotos)

    O 'do norte' é o enxame de insetos descrito em , que o Senhor dispersa e destrói no deserto e nos mares. Muitos comentaristas a defendem por ser a mais coerente com o conjunto do livro.

  • Leitura simbólica e apocalíptica

    O 'do norte' é o inimigo do povo de Deus, que tem origem histórica (Assíria ou Babilônia) e se projeta no adversário final. Ela aparece em muitos comentários, com variações sobre quanto do texto já se cumpriu e quanto ainda está por vir.

No original2 termos
  • צְפוֹנִיtsefoniH6828

    Derivado de 'tsafon', norte. 'O setentrional', forma que só aparece aqui. O sentido de 'exército' é acrescentado pelo tradutor.

  • יָם הַקַּדְמֹנִיyam haqadmoni

    Literalmente 'mar da frente' ou 'mar oriental', isto é, o mar Morto. O 'mar ocidental' (yam ha'acharon) é o Mediterrâneo.

O que fazer com isso

O texto convida a distinguir o que é claro do que é incerto. É claro que Deus ouve o arrependimento e age para restaurar. É incerto quem exatamente é o inimigo, e admitir essa limitação protege contra leituras sensacionalistas. Em tempos de crise, a mensagem é de confiança: o mal que parece avassalador não tem a última palavra, e a conversão sincera abre espaço para a ação de Deus.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Leslie C. Allen. The Books of Joel, Obadiah, Jonah and Micah (New International Commentary on the Old Testament), 1976.
  • James L. Crenshaw. Joel: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible), 1995.
  • Douglas Stuart. Hosea-Jonah (Word Biblical Commentary), 1987.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O exército do norte são os gafanhotos?

É a leitura mais direta, porque o livro trata da praga. Mas a direção norte é incomum para gafanhotos, e por isso muitos comentaristas veem aí uma imagem ou um inimigo mais amplo.

Qual a diferença entre o mar oriental e o mar ocidental?

O mar oriental é o mar Morto, a leste da Judeia; o ocidental é o Mediterrâneo. O texto descreve o inimigo expulso e disperso entre os dois.

Temas

Publicado em 11/11/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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