
Por que agradou ao Senhor “moê-lo”? O difícil final de Isaías 53
Como Deus pode ter “se agradado” de moer o seu Servo? Isaías 53:10 não torna Deus cruel?
Porém agradou ao SENHOR esmagá-lo, fazendo-o ficar enfermo; quando sua alma for posta como expiação do pecado, ele verá semente, e prolongará os dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará em sua mão. A consequência do trabalho de sua alma ele verá e se fartará; com seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos, pois levará sobre si as perversidades deles. Por isso lhe darei a porção de muitos, e e com os poderosos ele repartirá despojo, pois derramou sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; e levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores.
Resposta curta
afirma que ao Senhor “agradou moê-lo, fazendo-o enfermar”. A frase escandaliza, porque parece dizer que Deus sente prazer na dor de um inocente. O verbo hebraico, porém, indica propósito e vontade, e não deleite no sofrimento. O trecho apresenta o sofrimento do Servo como “oferta pela culpa” (asham) e promete que ele verá descendência, prolongará os dias e será recompensado. O texto não esconde a dureza: o Servo é “contado com os transgressores” e leva o pecado de muitos. Este verbete examina o sentido do verbo, a ideia de oferta pela culpa, as leituras judaicas e cristãs e o problema ético que o texto levanta.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO Novo Testamento aplica a Jesus em vários textos: Filipe parte de para anunciar a boa-nova ao eunuco etíope (), e cita “pelas suas pisaduras fostes sarados”. Jesus mesmo vê em sua morte o cumprimento de “foi contado com os transgressores” () e define sua missão como dar a vida em resgate de muitos ().
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
A frase parece dizer que Deus gostou de ferir o seu Servo, mas o verbo hebraico fala de vontade e plano, não de prazer. O texto mostra o Servo como uma oferta que repara a culpa de muitos, e que depois é recompensado. O desconforto permanece, e o texto não o esconde. Judeus e cristãos leem a passagem de maneiras diferentes: Israel sofredor para uns, Jesus para outros.
Contexto histórico
a 53:12 é o quarto dos chamados “cânticos do Servo” e talvez o texto mais comentado do Antigo Testamento. Abre com a promessa de que o Servo do Senhor prosperará e será exaltado (52:13), e logo mostra que sua aparência foi tão desfigurada que as nações ficaram espantadas. O corpo do poema (53:1-9) é falado por um grupo que confessa: nós o desprezamos, e ele levava as nossas enfermidades; ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e pelas suas pisaduras fomos sarados; todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi levado como cordeiro ao matadouro, sem abrir a boca, e sepultado com os ricos, ainda que não houvesse nele violência nem engano.
Os versos 10 a 12 formam o desfecho. O verso 10 diz: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias, e a vontade do Senhor prosperará na sua mão”. O verso 11 afirma que, depois do trabalho de sua alma, o Servo verá o resultado e ficará satisfeito, e que, por seu conhecimento, o Servo justo justificará a muitos, porque levará as iniquidades deles. O verso 12 promete que ele receberá parte com os grandes e repartirá despojos com os fortes, porque derramou a sua alma na morte, foi contado com os transgressores, levou o pecado de muitos e intercedeu pelos transgressores.
O texto vem no meio de a 55, dirigido a um povo exilado. A identidade do Servo é debatida. Em outros cânticos, “o servo” é Israel (49:3), mas no capítulo 53 o Servo sofre por outros, e parece distinto do grupo que confessa. A tradição judaica medieval, com comentaristas como Rashi e Ibn Ezra, leu o Servo como Israel coletivo; a tradição cristã desde o Novo Testamento o lê como Jesus. Há ainda leituras que o identificam com um profeta ou um indivíduo histórico. O texto permanece aberto quanto ao nome, mas é claro quanto à ação: um justo sofre por muitos e é vindicado por Deus.
Aprofundamento
O primeiro problema está na frase “ao Senhor agradou moê-lo”. O verbo hebraico chafets pode significar “agradar”, “desejar” ou “querer”, e em muitos contextos indica propósito ou vontade, como em “a vontade (chefets) do Senhor prosperará”, na mesma sentença. O sentido mais convincente é que o sofrimento do Servo era parte de um plano de Deus, e não que Deus sentisse prazer na dor. O versículo 6 já tinha dito que “o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós”, e o contexto descreve a violência de quem o cercou: os agentes humanos são responsáveis (53:8-9), mas o texto afirma que a dor também cabia a um propósito de Deus. O verbo “moer” (dakka’) é forte: quebrar, esmagar. O texto não suaviza a violência.
O segundo ponto é a expressão “oferta pela culpa” (asham). Na Torá, o asham era um sacrifício específico para reparar dano e restaurar a relação, com compensação (Lv 5:14 a 6:7; 7:1-7). Nesse esquema, a culpa não desaparece magicamente: ela é reconhecida, pago o prejuízo, e a pessoa é reconciliada. Isaías aplica essa linguagem ao Servo, mas inverte o fluxo, pois o Servo mesmo é a oferta. Há uma dificuldade de tradução quanto ao sujeito da frase “se puser a sua alma”: alguns leem que o Servo oferece a si mesmo, outros que Deus faz dele a oferta. A primeira leitura enfatiza o caráter voluntário (“derramou a sua alma na morte”, v. 12), o que atenua a acusação ética de que Deus imporia dor a um inocente contra a vontade dele.
O terceiro ponto é a recompensa. O poema não termina no sofrimento: o Servo verá descendência, prolongará os dias, ficará satisfeito, justificará a muitos e repartirá despojos com os fortes. Manuscritos do Mar Morto, entre eles o grande rolo de Isaías, trazem em 53:11 a leitura “verá a luz”, que também aparece na tradução grega antiga (Septuaginta), o que indica que algumas tradições liam o texto como vindicação além da morte. A vindicação não é prêmio externo, mas o desfecho de um plano de Deus. Isso responde em parte à acusação de crueldade: o final não é sofrimento sem sentido, mas sofrimento que gera cura e reconciliação.
Quanto à leitura cristã, o Novo Testamento cita o poema com frequência: Filipe explica ao eunuco etíope o texto de aplicando-o a Jesus (At 8:32-35); retoma vários versos; cita “foi contado com os transgressores”; sintetiza a missão de Jesus como dar a vida em resgate por muitos. A teologia da substituição penal vê nesses versos a base para a ideia de que Cristo suportou a pena dos pecadores. Para o debate ético, é relevante o argumento trinitário: se o Servo é o próprio Deus que se entrega, não há um Deus que descarrega ira sobre um terceiro inocente; é o próprio Deus que assume o custo. Quem não aceita a premissa trinitária, como a leitura judaica, entende o texto de outro modo.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:Isaías 53:10 mostra um Deus que sente prazer em torturar seu Servo inocente.
O verbo hebraico chafets indica vontade e propósito, e na mesma frase aparece o substantivo relacionado (“a vontade do Senhor prosperará”). O poema atribui a violência a agentes humanos (vv. 8-9), apresenta o Servo como quem se entrega voluntariamente (v. 12) e termina com sua vindicação. O texto reconhece a dureza sem apresentar Deus como sádico.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura cristã (substituição penal e outras teorias da expiação)
O Servo é Jesus, que levou o pecado de muitos e foi vindicado. A teologia da substituição vê nisso a base da justificação; outras linhas enfatizam a vitória sobre o mal e o amor demonstrado.
Leitura judaica medieval (Rashi, Ibn Ezra)
O Servo é Israel como povo, sofredor no exílio e entre as nações, cuja vindicação final fará as nações reconhecerem seus erros.
Leitura histórico-crítica
O poema pode ser sobre um profeta ou figura histórica não identificada, ou sobre um grupo fiel dentro de Israel. O foco é o sentido do sofrimento e a ideia de substituição, mais do que a identidade exata do Servo.
No original3 termos
חָפֵץchafetsH2654
agradar-se, querer, desejar; indica vontade e propósito, não necessariamente prazer.
אָשָׁםashamH817
oferta pela culpa; sacrifício que repara dano e restaura a relação.
נָשָׂאnasa’H5375
levar, carregar; usado para quem assume o peso do pecado de outros.
O que fazer com isso
pede que o leitor não suavize o escândalo do sofrimento do inocente nem o use para justificar abusos. O texto fala de alguém que aceita a dor por outros e é vindicado; não ensina que a dor imposta por pessoas seja vontade de Deus. Pode confortar quem sofre injustamente ao lembrar que Deus não se afasta do sofrimento.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- John N. Oswalt. The Book of Isaiah: Chapters 40–66 (New International Commentary on the Old Testament), 1998.
- J. Alec Motyer. The Prophecy of Isaiah, 1993.
- R. N. Whybray. Isaiah 40–66 (New Century Bible Commentary), 1975.
- Bernd Janowski e Peter Stuhlmacher (orgs.). The Suffering Servant: Isaiah 53 in Jewish and Christian Sources, 2004.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem é o Servo de Isaías 53 para os judeus?
A leitura judaica tradicional, representada por Rashi e Ibn Ezra, identifica o Servo com Israel como povo. A leitura cristã o identifica com Jesus desde o Novo Testamento.
O texto de Isaías 53 foi escrito depois de Cristo?
Não. O grande rolo de Isaías de Qumran, anterior ao tempo de Jesus, já contém o capítulo 53. Isso mostra que o texto é pré-cristão.
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