
Por que Isaías 53:2-3 descreve o Servo como sem beleza e desprezado?
Isaías 53:2-3 fala de Jesus? Por que o Servo do Senhor é descrito sem beleza, desprezado e “homem de dores”?
Pois foi crescendo como renovo perante ele, e como raiz de terra seca; não tinha boa aparência nem formosura; e quando olhávamos para ele, não havia nele boa aparência, para que o desejássemos. Ele era desprezado e rejeitado entre os homens, era homem de dores, e experiente em enfermidade; ele era como alguém de quem os outros escondiam o rosto; era desprezado, e não lhe estimávamos.
Resposta curta
apresenta o Servo do Senhor como um broto que sai de terra seca, sem beleza que atraia, desprezado, rejeitado e “homem de dores, experimentado nos sofrimentos”. Trata-se do quarto Canto do Servo (52:13–53:12), um dos textos mais discutidos entre judeus e cristãos. O cristianismo o lê como profecia de Jesus, que o Novo Testamento cita em várias passagens. A leitura judaica tradicional, por sua vez, identifica o Servo com Israel sofredor, ou com um justo em particular. O texto descreve rejeição social e fragilidade, não necessariamente feiura física, e prepara o anúncio de que esse sofrimento carrega as dores de outros. O ponto central é um contraste: o Servo não tem o brilho que se esperaria de um libertador.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO Novo Testamento lê como realizado em Jesus: rejeitado pelos seus, familiarizado com a dor e entregue por pecados que não eram seus. A cena de Filipe com o eunuco etíope mostra a igreja primitiva partindo desse capítulo para anunciar Jesus. Reconhece-se, no entanto, que a identificação do Servo é debatida na tradição judaica.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
descreve alguém sem aparência de importância, como uma planta em terra seca, desprezado e acostumado à dor. O texto faz parte do quarto Canto do Servo. Cristãos veem aí uma profecia de Jesus, e o Novo Testamento cita o capítulo várias vezes. Judeus tradicionais costumam entender o Servo como o povo de Israel sofrendo. O verso fala de rejeição e fragilidade, e não precisa ser lido como descrição de feiura física.
Contexto histórico
–55 se dirige a um povo em exílio, na Babilônia, que se sente abandonado por Deus. Nesses capítulos aparecem quatro cantos do Servo (42:1-4; 49:1-6; 50:4-9; 52:13–53:12). O último começa com Deus declarando que o Servo prosperará e será exaltado (52:13), para depois mostrar, na voz de um grupo que diz “nós”, como o Servo foi visto e tratado: “quem creu em nossa pregação?” (53:1).
Os versículos 2 e 3 descrevem a aparência e a posição social desse Servo. “Subiu como renovo” traz a imagem de um broto frágil, e “raiz de terra seca” indica solo sem condições de produzir vida. “Não tinha beleza nem formosura” significa que não havia nele o esplendor que chama atenção, como a de um rei. Depois vem a rejeição: ele é desprezado e abandonado pelos homens, familiar com o sofrimento e a doença.
A identidade do Servo é um ponto de debate já nos primeiros tempos. Em outros cantos, o Servo é chamado “Israel” (49:3), mas também tem uma missão em relação a Israel (49:5-6), o que gera tensão. A tradição judaica, de Rashi a Ibn Ezra, e muitos judeus modernos, entendem Israel como o Servo que sofre e é desprezado pelas nações, e que no final será reconhecido. O Targum de Jônatas, uma tradução aramaica antiga, interpreta o Servo como o Messias, embora ligue o sofrimento a outros sujeitos. Já o cristianismo, desde o Novo Testamento, enxerga em Jesus o cumprimento da figura.
Também importa a data. A maioria dos estudiosos situa –55 no fim do exílio, no século VI antes de Cristo, embora a tradição tradicional atribua todo o livro ao profeta do século VIII; em ambos os casos, o texto é muito anterior ao nascimento de Jesus. O contexto de um povo humilhado, que perdeu terra, templo e rei, dá peso à imagem de um Servo sem brilho. Os exilados também se sentiam desprezados pelas nações.
Por isso, ao ler esses versículos, é preciso distinguir três coisas: o que o texto diz, como a tradição judaica o leu e como o Novo Testamento o aplica, sem tratar nenhuma delas como a única possibilidade histórica.
Aprofundamento
O versículo 2 usa duas palavras que merecem atenção. Yoneq, “renovo”, designa um broto tenro que sai de uma raiz, um rebento delicado. É diferente do rebento régio de , que usa outras palavras (choter e netser); aqui a imagem é de fragilidade, não de dinastia. A “raiz de terra seca” completa o quadro: algo nasce onde não se espera vida. Por essa razão muitos comentaristas entendem que o Servo é um sobrevivente improvável, saído de um povo devastado.
“Não tinha beleza nem formosura” é uma frase que a tradição cristã muitas vezes leu como descrição da aparência de Jesus. O texto, porém, usa linguagem de estatura pública: ele não tinha o porte de um rei. O Salmo 45:2, que chama o rei de mais belo dos homens, mostra o contraste. Por isso, o foco não é a feiura, mas a ausência de atrativos que os homens associam a um libertador. O versículo 3 mostra o desdobramento social: bazah, “desprezado”, e chadal ishim, expressão que pode significar “rejeitado pelos homens” ou “o último dos homens”.
“Homem de dores” traduz ish makovot, em que makob é dor, sofrimento. “Experimentado nos sofrimentos” traduz yedua choli, literalmente “conhecido de doença”. A palavra choli pode indicar doença física, mas também dor e fraqueza em geral. Em seguida, o texto diz que “escondemos o rosto”, gesto de quem evita ver o que incomoda. Em 53:4, o grupo reconhece que o Servo carregava as dores deles, o que muda a leitura: o desprezo foi um erro.
Sobre a leitura judaica, a interpretação de Israel como Servo é antiga e forte. Rashi aplica o texto aos judeus sofrendo entre as nações, e os que o ouvem são os reis estrangeiros que se admiram ao ver a exaltação final. O livro de Driver e Neubauer, de 1876-1877, reúne comentários judaicos medievais sobre o capítulo. O Targum identifica o Messias como Servo, e alguns sábios talmúdicos relacionam o capítulo ao Messias sofredor. Nenhuma dessas leituras é unânime.
O Novo Testamento aplica o capítulo a Jesus de modos diferentes. cita para as curas, cita 53:1 sobre a incredulidade, mostra Filipe explicando 53:7-8 ao eunuco etíope, e usa o capítulo como modelo de sofrimento inocente. O cristianismo vê aqui um cumprimento em Jesus, um homem rejeitado que carregou pecados alheios; o debate com a leitura judaica não se resolve por apelo à gramática apenas, e sim por perspectivas sobre o conjunto das Escrituras e da história.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Isaías 53:2 prova que Jesus era fisicamente feio.
O texto fala da falta de esplendor régio e de atrativos públicos, num contexto de rejeição social. Os Evangelhos não descrevem a aparência de Jesus, e o versículo não precisa ser lido como juízo estético.
Dizem que:Os judeus nunca leram ou ignoram Isaías 53.
Há uma longa tradição judaica de interpretação do capítulo, de Rashi e Ibn Ezra ao Targum de Jônatas e a comentaristas modernos. A diferença é que muitos identificam o Servo com Israel, e não com Jesus.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura cristã (cumprimento messiânico)
O Servo é Jesus, que foi rejeitado, sofreu e carregou os pecados dos outros. O Novo Testamento cita ou ecoa em , , e .
Leitura judaica tradicional (Israel como Servo)
Rashi, Ibn Ezra e outros entendem o Servo como Israel sofrendo entre as nações, e as nações como o grupo que depois reconhece o erro. A rejeição descrita é a do povo no exílio.
Leitura messiânica judaica antiga (Targum de Jônatas)
O Targum identifica o Servo como o Messias, mas desloca parte do sofrimento para outros sujeitos, mostrando que a ideia de um Messias ligado ao capítulo não é invenção cristã.
No original3 termos
יוֹנֵקyoneqH3126
Broto, renovo tenro, rebento que mama da raiz. Indica fragilidade, não força.
אִישׁ מַכְאֹבוֹתish makovotH4341
“Homem de dores”; makob é dor, sofrimento. A expressão descreve alguém marcado pela dor, não só por doença.
חֳלִיcholiH2483
Doença, enfermidade, fraqueza. Em 53:3-4 pode abranger dor física e sofrimento em geral.
O que fazer com isso
desfaz a ideia de que o poder de Deus sempre aparece com brilho. O Servo foi desprezado e, mesmo assim, estava cumprindo o propósito divino. Isso consola quem se sente ignorado e alerta contra julgar pessoas e ministérios pela aparência. Ao mesmo tempo, convida a olhar com respeito a leitura judaica do texto, sem caricaturas, e a lembrar que o sofrimento de alguém não é sinal de abandono de Deus.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- John Goldingay. Isaiah (New International Biblical Commentary), 2001.
- Claus Westermann. Isaiah 40–66: A Commentary, 1969.
- Edward J. Young. The Book of Isaiah, vol. 3, 1972.
- S. R. Driver e A. Neubauer. The Fifty-third Chapter of Isaiah According to the Jewish Interpreters, 1876.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Os judeus acreditam que Isaías 53 fala de Jesus?
A tradição judaica geralmente não identifica o Servo com Jesus. Muitos comentaristas, como Rashi, veem Israel sofrendo entre as nações; há também leituras messiânicas antigas, como a do Targum de Jônatas.
Isaías 53 foi escrito antes de Jesus?
Sim. O texto vem de séculos antes de Jesus, e cópias de Isaías, como o grande rolo de Qumran, são anteriores ao Novo Testamento. A aplicação a Jesus é feita pelos autores do Novo Testamento.
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