segunda-feira, 10 de agosto de 2026
"Força-os a entrar" foi usado para justificar conversão forçada
Lucas 14:21-24
E aquele servo, ao voltar, anunciou estas coisas a seu senhor. Então o chefe da casa, irritado, disse a seu servo: Sai depressa pelas ruas e praças da cidade, e traze aqui aos pobres, e aleijados, e mancos e cegos. E o servo disse: Senhor, está feito como mandaste, e ainda há lugar. E o senhor disse ao servo: Sai pelos caminhos, e trilhas, e força-os a entrar, para que minha casa se encha. Porque eu vos digo, que nenhum daqueles homens que foram convidados experimentará da minha ceia.
Três palavras desta parábola tiveram consequência histórica maior que a de quase qualquer outra frase dos evangelhos: força-os a entrar. Agostinho as usou, no século V, para justificar o uso do poder imperial contra os donatistas — e o argumento dele virou o texto de referência para coerção religiosa no Ocidente por mais de mil anos, citado em contextos que vão da Inquisição às guerras de religião. Ele próprio mudou de posição para chegar lá: em obras anteriores defendia que a fé não podia ser imposta. O verbo grego de fato significa obrigar, e não convidar. O que a leitura coercitiva ignora é quem está sendo obrigado e por quê — e a resposta está no costume da mesa, não na teologia.
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