Mercenário (Misthotos)
O que significa Mercenário na Bíblia?
A palavra no original
μισθωτός
misthotos · Strong G3411
Empregado contratado, quem trabalha por salário (misthos).
Tudo isto ao mesmo tempo
- trabalho assalariado
- pastoreio contratado
- falta de vínculo com o rebanho
- contraste com o bom pastor
- crítica a líderes que se servem do povo
Resposta curta
Mercenário, no português de hoje, costuma evocar o soldado de aluguel que luta por dinheiro, e por extensão quem age só por interesse. O grego μισθωτός (misthotos), porém, é mais simples e mais amplo: designa o empregado contratado, quem trabalha por salário (misthos). Aparece em , onde Jesus contrasta o bom pastor, que dá a vida pelas ovelhas, com o 'mercenário', que as abandona quando vê o lobo chegar, e em , onde os trabalhadores contratados de Zebedeu ficam no barco. O ponto da comparação não é que todo assalariado seja mau, mas que as ovelhas não lhe pertencem e, por isso, ele não arrisca nada por elas.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO texto constrói um contraste explícito: de um lado, o mercenário, que foge porque as ovelhas não lhe pertencem; de outro, Jesus, o bom pastor, que as conhece, é conhecido por elas e dá a vida por elas (). A imagem retoma a promessa de , em que o próprio Senhor assume o cuidado das ovelhas que os pastores abandonaram, e o Evangelho a aplica à pessoa e à morte voluntária de Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Mercenário, em , não é o soldado de aluguel que a palavra sugere hoje. O grego misthotos significa simplesmente 'empregado', alguém pago para trabalhar. Jesus o compara ao bom pastor: o empregado cuida do rebanho enquanto tudo vai bem, mas, quando o lobo aparece, foge, porque as ovelhas não são dele e ele não se importa com elas como o dono. O bom pastor, ao contrário, arrisca a própria vida. A cena mostra a diferença entre quem cumpre uma função e quem ama de verdade o que cuida.
De onde vem a palavra
Quem lê 'mercenário' em tende a imaginar um soldado estrangeiro pago para guerrear, e a cena fica deslocada. O quadro de Jesus é pastoril. No mundo rural da Palestina, o dono de um rebanho podia contratar alguém para vigiá-lo, sobretudo quando tinha muitas ovelhas ou outras ocupações. Esse trabalhador era pago por seu serviço, e o grego o chama misthotos, derivado de misthos, 'salário, paga'. Não há nada de condenável em ser contratado: a própria Lei exigia que o salário do diarista fosse pago no mesmo dia (; ), e Jesus mesmo diz que 'o trabalhador é digno do seu salário' ().
O que dá peso ao contraste é a diferença entre os que têm e os que não têm vínculo com o rebanho. Em , Jesus se apresenta como o 'bom pastor' (poimen ho kalos), que dá a vida pelas ovelhas. Em seguida descreve o mercenário: 'aquele que não é pastor, de quem não são as ovelhas', vê o lobo vir, deixa as ovelhas e foge, e o lobo as arrebata e dispersa. O texto explica o motivo da fuga em uma frase curta: 'porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas'. Ele não é descrito como cruel, e sim como alguém cujo interesse é limitado pelo contrato.
O pano de fundo imediato é o capítulo 9, em que os fariseus expulsam da sinagoga o cego curado. Jesus fala então de pastores que não entram pela porta e de ladrões que vêm para roubar, matar e destruir (10:1, 8, 10). O Antigo Testamento já criticava os líderes de Israel com essa imagem: acusa os pastores que se apascentavam a si mesmos e deixavam o rebanho disperso, e fala do 'pastor inútil' que abandona as ovelhas. O mercenário de pertence a essa tradição de crítica à liderança que serve a si mesma.
Aprofundamento
A palavra μισθωτός (misthotos, Strong G3411) é um substantivo formado a partir de μισθός (misthos), termo que o Novo Testamento usa tanto para o salário devido por trabalho (; ) quanto para a recompensa que Deus dá (). O sufixo indica o agente: quem recebe misthos. No Novo Testamento, misthotos ocorre em apenas três versículos: e 10:13, e , onde os filhos de Zebedeu deixam o pai 'no barco com os empregados' para seguir Jesus. Nesse último texto, a palavra é neutra, apenas descreve os trabalhadores contratados da pescaria. Isso indica que o sentido básico é 'empregado' e que o tom pejorativo de vem do contexto, não da palavra.
A tradução 'mercenário' é antiga e vem da Vulgata, que usa mercennarius, 'que trabalha por paga'. Em latim e nas línguas românicas a palavra também serviu para o soldado de aluguel, e o português acumulou essa conotação. Muitas traduções modernas preferem 'empregado' ou 'assalariado' (a Nova Versão Internacional usa 'empregado'), justamente para evitar a sugestão de soldado. A escolha de tradução, portanto, não muda o texto grego, mas muda a imagem que o leitor forma.
O que o texto afirma sobre o misthotos tem duas partes. Primeiro, uma condição objetiva: 'de quem não são as ovelhas' (hou ouk estin ta probata idia). Segundo, uma consequência afetiva: ele 'não se importa' com elas (ou melei autō peri tōn probatōn). O verbo melei, 'importar-se, ter cuidado', é o mesmo que aparece na pergunta dos discípulos em . Jesus liga a fuga à falta de posse e de cuidado, e não a uma maldade específica. O bom pastor, ao contrário, 'conhece as suas ovelhas' e é conhecido por elas, e põe a vida (tēn psychēn tithēsin) por elas. A diferença decisiva é de relação e de custo pessoal.
A quem Jesus se refere é discutido. A leitura mais comum vê nos líderes religiosos de Israel contemporâneos de Jesus o pano de fundo, em continuidade com . Agostinho, em seus Tratados sobre o Evangelho de João, aplica a imagem a quem prega Cristo buscando proveito próprio, observando que mesmo assim as ovelhas podem ouvir a verdade por meio dele. Comentaristas modernos como Leon Morris e D. A. Carson preferem notar que o texto descreve uma função e uma atitude, não identifica uma pessoa ou uma instituição. Em todas as leituras, o foco permanece no contraste com o pastor que é dono e que, por amor, enfrenta o lobo.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Em João 10, 'mercenário' quer dizer soldado de aluguel.
O grego misthotos significa empregado pago por salário e, em , designa os trabalhadores contratados de uma pescaria. A cena de é pastoril. A ideia de soldado vem da evolução posterior da palavra 'mercenário' em português, não do texto.
Dizem que:O texto condena todo pastor ou líder que recebe salário.
Jesus mesmo afirma que o trabalhador é digno do seu salário (), e Paulo diz o mesmo em . O problema em não é o pagamento, mas a falta de vínculo e de cuidado que leva o empregado a abandonar as ovelhas diante do perigo.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura profética (continuidade com Ezequiel 34)
Vê no mercenário uma figura dos líderes religiosos de Israel que se serviam do rebanho, no sentido da crítica dos profetas, e em Jesus o cumprimento da promessa de que o próprio Deus seria o pastor de suas ovelhas.
Agostinho e a tradição patrística
Aplica a imagem ao ministro que prega buscando vantagem própria. Nos Tratados sobre João, Agostinho reconhece que ele pode transmitir a verdade, mas sem a disposição de dar a vida pelo rebanho que caracteriza o bom pastor.
Exegese moderna
Autores como Leon Morris e D. A. Carson destacam que o texto descreve uma atitude e não identifica pessoas: o mercenário é o contraponto que faz ressaltar o amor sacrificial de Cristo, sem exigir um alvo histórico específico.
O que fazer com isso
Mercenário, em , não é um insulto genérico a quem recebe salário, e sim o retrato de quem cuida de algo sem se comprometer com ele. A passagem convida a perguntar, sem acusar ninguém, qual é o custo que alguém está disposto a assumir pelas pessoas de que cuida. Tanto no pastoreio quanto na vida familiar e no trabalho, a diferença entre cumprir uma função e se importar de fato aparece quando surge o perigo.
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Fontes consultadas6 obras
- Bauer, W.; Danker, F. W.; Arndt, W.; Gingrich, F. W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Morris, L.. The Gospel according to John, 1971.
- Carson, D. A.. The Gospel according to John, 1991.
- Brown, R. E.. The Gospel according to John (I-XII), 1966.
- Agostinho de Hipona. Tratados sobre o Evangelho de João.
- Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Mercenário na Bíblia é o mesmo que soldado de aluguel?
Não. O grego misthotos quer dizer empregado contratado, quem trabalha por salário. A associação com soldado de aluguel vem do uso posterior da palavra 'mercenário'. Em , o mercenário é um pastor contratado, não um combatente.
Onde a palavra misthotos aparece no Novo Testamento?
Em três versículos: e 10:13, na parábola do bom pastor, e , onde os empregados de Zebedeu ficam no barco quando seus filhos seguem Jesus. No segundo caso a palavra é neutra e só descreve os trabalhadores contratados.
Por que o mercenário foge do lobo?
Jesus dá dois motivos no texto: as ovelhas não são dele e ele não se importa com elas. Sem vínculo de propriedade nem de cuidado, não há razão para arriscar a vida. O bom pastor, que é o dono e ama as ovelhas, enfrenta o perigo.
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