
Nossa cidadania 'está nos céus': o que significa politeuma em Filipenses 3:20-21?
O que Paulo quis dizer ao afirmar que a nossa cidadania está nos céus, e isso significa que o cristão deve se desligar deste mundo?
Mas nós somos cidadãos dos céus, de onde também esperamos um Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso degradante corpo, para que seja conforme o seu corpo glorioso, segundo a operação do seu poder de sujeitar para si todas as coisas.
Resposta curta
Em , Paulo diz que o politeuma dos cristãos está nos céus, de onde aguardam o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o corpo de humilhação em corpo de glória. A palavra grega aparece só aqui no Novo Testamento e as versões oscilam entre cidadania, pátria e conversação. O gancho histórico é Filipos, uma colônia romana cujos moradores eram orgulhosos de sua cidadania, mesmo vivendo longe de Roma. Paulo usa essa imagem para dizer que a igreja é uma colônia do céu na terra: vive aqui com as leis e lealdades de outro lugar. O texto não convida à fuga do mundo, pois a esperança descrita é a transformação do corpo, não o abandono dele.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO trecho se encaixa na trajetória de Cristo traçada na carta: humilhação e cruz no capítulo 2, glória e senhorio depois. O que Cristo viveu, descida e exaltação, é o caminho que seu povo também percorrerá, e o corpo de glória do versículo 21 é o fim dessa trajetória. Os títulos Salvador e Senhor afirmam o senhorio de Jesus diante de qualquer outro soberano.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Paulo escreve a uma cidade cheia de cidadãos romanos que viviam longe de Roma, mas se orgulhavam de pertencer a ela. Ele diz que a verdadeira pátria dos cristãos é o céu, e que de lá virá Jesus. Isso não é fugir do mundo: Jesus vai transformar o corpo atual, frágil, num corpo de glória, parecido com o dele. Assim, o cristão vive aqui com os olhos e a lealdade em outro lugar.
Contexto histórico
Filipos era uma cidade da Macedônia que, depois da batalha de 42 a.C. entre os assassinos de César e as forças de Antônio e Otaviano, recebeu veteranos romanos e foi organizada como colônia. a chama de colônia romana, e os colonos tinham o direito de se considerar cidadãos de Roma, com vantagens legais e fiscais, ainda que vivessem a centenas de quilômetros da capital. Latim, moedas, leis e símbolos imperiais marcavam a vida local. Paulo conhecia bem essa cidade, onde havia fundado a igreja e fora preso, e onde ele e Silas invocaram a cidadania romana para exigir que as autoridades reconhecessem o erro cometido contra eles. A carta aos Filipenses foi escrita com Paulo preso, provavelmente em Roma, a uma igreja que enfrentava pressão e sofrimento. Em 1:27, ele pede que vivam como cidadãos dignos do evangelho, com um verbo da mesma família de politeuma. No capítulo 2, Cristo é descrito na trajetória de humilhação e exaltação, e todo joelho se dobrará diante dele como Senhor. No capítulo 3, Paulo abre mão de seu currículo religioso para conhecer Cristo e contrasta isso com os que vivem como inimigos da cruz, cujo deus é o ventre e cuja mente está nas coisas terrenas. Em seguida vem o contraste dos versículos 20 e 21: a lealdade de quem pertence a Cristo está em outro lugar, e daí vem o Salvador. Há ainda um fundo político. Salvador e Senhor eram títulos usados para o imperador romano, e Paulo os aplica a Jesus. A própria carta mostra que a comunidade de Filipos era relativamente pobre e afetada por perseguição, como indicam as menções ao sofrimento em 1:29-30. Para pessoas nessa situação, a afirmação de que a cidadania verdadeira está no céu não era consolo vago, mas uma redefinição de quem eram e a quem pertenciam. Quem sofre por causa da lealdade a Cristo não está perdendo status, mas vivendo como cidadão de outro reino, cujo rei voltará para acertar tudo. Também é útil lembrar que Paulo, cidadão romano, conhecia o valor prático desse documento e, mesmo assim, o relativiza diante de Cristo.
Aprofundamento
A palavra politeuma deriva de polis, cidade, e pode designar o corpo de cidadãos, o direito de cidadania, a constituição de uma cidade ou uma colônia de estrangeiros organizada em uma terra distante. Por isso as traduções variam. A tradução cidadania enfatiza o status jurídico, pátria enfatiza o lugar de origem, e conversação, em versões antigas em português, reflete um uso do vocabulário que significava modo de viver. Uma proposta conhecida é entender o termo como colônia: os cristãos seriam uma colônia do céu, vivendo na terra com os costumes da pátria celeste. Não há consenso entre os comentaristas sobre qual desses sentidos Paulo tinha em primeiro plano, mas o contexto de Filipos favorece a ideia de cidadania com lealdade. O que importa na imagem é a direção do movimento. Uma colônia romana não esperava ser levada para Roma; esperava a chegada do imperador ou de seu poder, e vivia entre tanto como um pedaço de Roma. Do mesmo modo, a igreja aguarda um Salvador que vem do céu, e não uma evacuação do mundo. O versículo 21 diz o que ele fará: transformará o corpo da nossa humilhação para ser conforme ao corpo da sua glória, pelo poder que o capacita a sujeitar todas as coisas a si mesmo. O verbo transformar fala de mudança de forma, e conformes remete à ideia de ter a mesma forma de Cristo ressurreto. A palavra humilhação não condena o corpo como mau; descreve sua condição atual, frágil e sujeita à morte, a ser transformada, e não descartada. Esse ponto é decisivo para entender a esperança cristã como ressurreição do corpo, e não como alma livre da matéria. A ética decorre disso. Quem tem cidadania celeste vive aqui de modo coerente com esse vínculo, como pede Paulo em 1:27, e rejeita as lealdades que contradizem o Senhor. A cidadania não afasta o cristão de suas responsabilidades; cobra que as exerça de outra maneira, e com outra esperança. Há ainda uma relação com o capítulo anterior que costuma passar despercebida. Em 2:6-11, o hino mostra Cristo que não se apegou à sua condição divina, humilhou-se até a morte de cruz e foi exaltado por Deus. Em 3:21, o mesmo vocabulário de forma e condição reaparece: o corpo de humilhação do crente será conformado ao corpo de glória. A ordem é a mesma, primeiro o rebaixamento, depois a glória. O poder que sujeita todas as coisas a Cristo é o mesmo que opera a transformação, o que liga o destino pessoal ao destino do cosmos. A esperança é, portanto, coletiva e cósmica, e não apenas individual.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Dizer que a cidadania está nos céus significa que o cristão não tem compromisso com a sociedade em que vive, pois está só de passagem.
Paulo usa a imagem de uma colônia romana, que mantinha sua identidade mas vivia plenamente onde estava. Em 1:27 ele pede que vivam como cidadãos dignos do evangelho, e a esperança do versículo 21 é a transformação do corpo, não a fuga dele.
Dizem que:Politeuma significa claramente cidadania e não admite outra tradução.
A palavra aparece só aqui no Novo Testamento e pode significar cidadania, comunidade de cidadãos, constituição ou colônia. As traduções antigas em português usaram pátria e conversação. A escolha depende do contexto, e o de Filipos favorece cidadania, sem anular os outros matizes.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura de cidadania jurídica (a mais comum)
Politeuma indica o status e os direitos de cidadão. O cristão possui, no céu, a certidão que define sua identidade, com direitos e deveres, e a vive na terra como colono de uma pátria maior.
Leitura de colônia ou comunidade
Politeuma designaria a própria igreja como colônia do céu na terra, uma comunidade organizada segundo as leis de outra capital. Essa leitura é conhecida na fórmula de que somos colônia do céu, e destaca a vida coletiva.
Leitura escatológica
Ênfase na vinda do Salvador: a cidadania só se completa quando ele aparece e transforma o corpo. O foco recai na esperança futura, que sustenta a perseverança presente.
No original4 termos
πολίτευμαpoliteumaG4175
cidadania, comunidade de cidadãos, colônia, forma de governo; aparece só aqui no Novo Testamento.
σωτήρsoter
salvador, libertador; título aplicado também ao imperador romano, e aqui a Jesus.
μετασχηματίζωmetaschematizo
transformar, mudar a forma exterior; o que Cristo fará com o corpo da nossa humilhação.
σύμμορφοςsymmorphos
conforme, de mesma forma; o corpo transformado terá a forma do corpo de glória de Cristo.
O que fazer com isso
A imagem de cidadania pede que o cristão se pergunte a quem pertence sua lealdade última sem desprezar o lugar onde vive. Nas decisões do cotidiano, isso significa viver com os valores do reino, trabalhar pelo bem de onde se mora e esperar sem desespero. A esperança do corpo transformado também dá dignidade ao corpo presente, com seus limites, doenças e cansaço.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Gordon D. Fee. Paul's Letter to the Philippians (NICNT), 1995.
- Peter T. O'Brien. The Epistle to the Philippians (NIGTC), 1991.
- Markus Bockmuehl. The Epistle to the Philippians (Black's New Testament Commentary), 1997.
- Moisés Silva. Philippians (BECNT), 1992.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Paulo usa a ideia de cidadania em Filipenses?
Porque Filipos era uma colônia romana, cheia de pessoas que valorizavam a cidadania de Roma. Paulo aproveita um conceito que os leitores entendiam bem para afirmar que a lealdade do cristão pertence ao céu.
O corpo de glória significa que o corpo será abandonado?
Não. O verbo é transformar, não abandonar. Paulo fala de um corpo transformado, conforme ao de Cristo ressuscitado, o que sustenta a esperança cristã na ressurreição.
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