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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

O que significa "não considerou a igualdade a Deus algo a que se apegar"?

Filipenses 2:6 afirma ou nega a divindade de Cristo?

mesmo ele sendo em forma de Deus, não considerou a igualdade a Deus como algo para se apegar;

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

A frase depende de uma palavra grega rara: *harpagmos*, que aparece uma única vez em todo o Novo Testamento.

Ela pode significar algo a ser agarrado — que ainda não se tem — ou algo a que se agarrar — que já se tem e se recusa a soltar. As traduções em português refletem as duas: "usurpação" e "algo para se apegar".

A primeira leitura sugere que ele não tentou tomar o que não era dele; a segunda, que ele não reteve o que já era. E o restante do parágrafo aponta claramente para a segunda.

Como isso aponta para Jesus

Cumprimento direto

O hino termina aplicando a Jesus uma frase que coloca na boca do próprio SENHOR — "diante de mim se dobrará todo joelho" —, e o faz num capítulo em que Deus repete "eu sou o SENHOR, e não há outro". É uma das afirmações mais fortes do Novo Testamento sobre a identidade de Cristo, e ela aparece como conclusão de um argumento sobre humildade.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

Esse versículo depende de uma palavra rara, que aparece uma única vez em toda a Bíblia, e admite dois sentidos opostos: "algo a usurpar" — que ele não tinha e não tentou tomar —, ou "algo a que se apegar" — que já tinha e escolheu não segurar. O resto do texto aponta para a segunda opção: descreve alguém que possuía a igualdade com Deus e a soltou, assumindo a condição de servo até a morte.

"Esvaziar-se" não significa deixar de ser quem era — o texto explica isso como assumir uma nova condição, não perder a anterior. E o motivo de citar tudo isso é quase inesperado: não é um tratado sobre quem Jesus é, é um argumento para resolver uma briga numa igreja pequena, como exemplo máximo de humildade.

Contexto histórico

é reconhecido como um hino, provavelmente anterior à carta, com estrutura poética e vocabulário distinto do restante do texto.

O contexto em que Paulo o cita é surpreendentemente prático. Ele acabou de pedir que os filipenses tenham "o mesmo sentimento", que nada façam "por contenda ou por vanglória", e que cada um considere os outros superiores a si.

E então: "haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus".

O hino é citado como argumento sobre humildade em conflitos de igreja. É um dos textos mais elevados do Novo Testamento sobre a pessoa de Cristo, e a razão de estar ali é uma briga entre duas mulheres, Evódia e Síntique, mencionadas no capítulo 4.

Aprofundamento

O hino tem dois movimentos: descida e subida.

A descida tem cinco passos: sendo em forma de Deus, não reteve a igualdade, esvaziou-se, tomou forma de servo, humilhou-se até a morte de cruz.

A subida é declarada em um verbo: "por isso também Deus o exaltou soberanamente".

A palavra *morphe*, "forma", aparece duas vezes — "forma de Deus" e "forma de servo" —, e é a mesma nos dois casos. Isso é relevante: se "forma de servo" significa que ele era realmente servo, "forma de Deus" significa que era realmente Deus.

A palavra *kenoo*, "esvaziou-se", gerou a discussão sobre kenosis. Do que ele se esvaziou? O texto não diz — e a resposta que o próprio versículo dá é indireta: "tomando a forma de servo". O esvaziamento é descrito como assunção, não como perda.

Sobre *harpagmos*, o debate é antigo. A leitura "usurpação" — não tentou tomar o que não era seu — foi usada por quem sustenta que ele não era igual a Deus. A leitura "algo a reter" foi a que prevaleceu entre os estudiosos do grego, e é a que as traduções recentes adotam.

O argumento decisivo é o fluxo do hino: ele descreve alguém que possui algo e o solta. Uma leitura em que ele não possuía nada a soltar deixa a sequência sem sentido.

O clímax é a citação de — "diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua jurará" —, texto em que o SENHOR fala de si mesmo, aplicado a Jesus com todas as letras. Num dos capítulos mais explicitamente monoteístas do Antigo Testamento.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O versículo nega que Cristo fosse igual a Deus.

    A leitura depende de traduzir *harpagmos* como "usurpação". O fluxo do hino descreve alguém que possui algo e o solta, e "forma de Deus" usa a mesma palavra de "forma de servo".

  • Dizem que:"Esvaziou-se" significa que ele deixou de ser Deus.

    O texto explica o esvaziamento por uma assunção: "tomando a forma de servo". Não descreve perda de natureza, e sim adoção de condição.

  • Dizem que:O hino é um tratado de cristologia.

    Paulo o cita para resolver uma disputa de posição numa igreja pequena, ilustrando "cada um considere os outros superiores a si". O conteúdo é altíssimo; a função no texto é prática.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • "Algo a reter"

    Ele possuía a igualdade e não se agarrou a ela. Leitura majoritária entre estudiosos do grego, adotada pelas traduções recentes. Explica o fluxo do hino.

  • "Usurpação"

    Ele não tentou tomar o que não lhe pertencia. Leitura das traduções mais antigas, e usada por grupos que negam a divindade de Cristo. Deixa a sequência de descida sem objeto.

No original3 termos
  • ἁρπαγμόςharpagmos

    Palavra rara, ocorrência única no Novo Testamento. Pode indicar algo a ser agarrado ou algo a que se agarrar, e é o centro da discussão.

  • μορφήmorphe

    "Forma". Usada duas vezes no hino — "forma de Deus" e "forma de servo" —, o que sustenta o paralelismo entre as duas afirmações.

  • κενόωkenoo

    "Esvaziar". Base do termo *kenosis*. O texto explica o esvaziamento pela assunção da forma de servo, e não por perda declarada.

O que fazer com isso

A razão de Paulo citar o hino é a mais desconcertante do texto: uma discussão entre duas pessoas numa igreja pequena.

Ele não o cita para ensinar cristologia. Cita para dizer que ninguém deve buscar posição, e apresenta como modelo alguém que tinha a maior posição possível e a soltou.

O argumento é de escala. Se aquele desceu daquela altura, uma disputa por reconhecimento numa comunidade é uma discussão sobre nada.

E a instrução prática vem antes: "cada um considere os outros superiores a si mesmo". É o versículo que o hino ilustra.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
  • Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
  • John Lightfoot. Horae Hebraicae et Talmudicae, 1675.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Do que exatamente Cristo se esvaziou?

O texto não especifica, e a discussão teológica é longa. As propostas incluem o uso independente de atributos, a glória visível, e a posição — e o próprio versículo explica o esvaziamento como assunção da forma de servo.

Por que se diz que o trecho é um hino?

Pela estrutura rítmica, pelo vocabulário distinto do restante da carta e pelo paralelismo das linhas. A maioria dos estudiosos entende que Paulo cita material anterior, possivelmente já usado em cultos.

Qual tradução em português adotar?

As versões recentes tendem a "não considerou como algo a que se apegar", que reflete a leitura majoritária. Versões antigas trazem "usurpação", e vale saber que a diferença vem de uma palavra que ocorre uma vez só.

Temas

Publicado em 22/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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