
'Esquecendo-me das coisas que ficaram para trás': Paulo manda apagar o passado?
Filipenses 3:13 manda esquecer o passado, inclusive os erros e as dores que carregamos?
Irmãos, não considero como se já a tivesse obtido; mas uma coisa faço: esqueço as coisas que ficam para trás, e avanço para as que estão adiante, e prossigo para o alvo, ao prêmio do chamado de cima, de Deus em Cristo Jesus.
Resposta curta
é muito usado para dizer que o cristão deve esquecer o passado. Mas Paulo não fala de apagar a memória, e sim de uma decisão de corredor: não ficar olhando para trás, mas esticar-se para a frente em direção ao prêmio. No contexto, o que ele deixa para trás é o seu currículo religioso, descrito nos versículos 4 a 6, com sua origem, formação e zelo, que ele passou a considerar perda por causa de Cristo. O verbo grego sugere esquecer no sentido de não depender nem deixar que o passado determine o presente. O texto, portanto, não pede amnésia sobre feridas, nem silêncio sobre pecados, mas convida a viver a partir do que Cristo conquistou, com o olhar no alvo.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO currículo de Paulo é contrastado com o ganho de conhecer a Cristo. A justiça que vem da fé em Cristo substitui a justiça própria, e o prêmio é a chamada de Deus em Cristo Jesus.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Paulo usa a imagem de um corredor que não olha para trás. O que ele deixa para trás é, antes de tudo, o seu currículo religioso, que já não serve de base para a sua segurança diante de Deus. Esquecer, aqui, não é apagar a memória nem negar os erros, mas não deixar que o passado mande no presente. O olhar fica no prêmio que Cristo oferece, e a corrida continua com humildade.
Contexto histórico
A carta aos Filipenses foi escrita por Paulo na prisão a uma igreja que ele amava e que o havia sustentado. No capítulo 3, o tom muda de repente: depois de mandar que se alegrem, Paulo adverte contra os que mutilam a carne, uma referência irônica aos que defendiam a circuncisão como obrigação para os gentios. Ele afirma que os verdadeiros circuncidados são os que adoram pelo Espírito de Deus e não confiam na carne. Em seguida, apresenta o seu próprio currículo, que poderia ser motivo de confiança: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, fariseu quanto à lei, perseguidor da igreja quanto ao zelo, irrepreensível quanto à justiça que há na lei. Tudo isso, diz ele, passou a ser perda por causa de Cristo. Paulo considera essas coisas como refugo, skubala, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, mas a que vem pela fé. Nos versículos 10 a 12, expressa o desejo de conhecer a Cristo, o poder da sua ressurreição e a comunhão dos seus sofrimentos, e admite que ainda não alcançou a perfeição. É nesse ponto que entram os versículos 13 e 14: irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. O texto continua dizendo que os maduros devem pensar assim, e depois adverte contra os inimigos da cruz de Cristo. Todo o capítulo trata de onde a pessoa coloca sua confiança. Filipos era uma colônia romana, com forte orgulho de cidadania e de posição social, e Paulo lembra no versículo 20 que a cidadania dos crentes está nos céus. A imagem do corredor, familiar a quem frequentava os jogos da época, ajudava os leitores a entender a ideia de esforço contínuo, em contraste com a autossatisfação de quem acha que já chegou.
Aprofundamento
A imagem do versículo 13 e 14 vem do esporte. O verbo epekteinomenos, traduzido por avançando, descreve o corredor que se estica para a frente, quase se inclinando em direção à linha de chegada. O verbo diokō, prossigo, é o mesmo que em outros trechos significa perseguir, e Paulo o usa com ironia: ele que perseguia a igreja agora persegue o alvo. A cena é de uma corrida, e a frase de esquecer o que ficou para trás nasce dessa imagem. Um corredor que olha para trás perde velocidade e posição. O verbo epilanthanomai, esquecendo, tem o sentido de não dar atenção, deixar de ter em vista, e não de apagar a memória. Paulo, aliás, lembra do passado em vários lugares: reconhece que perseguiu a igreja em e conta sua vida anterior em . Portanto, o texto não pode significar que o passado deva ser negado ou reprimido. O que ele deixa para trás depende do contexto, e o contexto são as realizações e credenciais do versículo 4 a 6. A lição é que esse currículo não pode ser a base de sua justiça nem de sua segurança. Alguns intérpretes ampliam e incluem também os fracassos, como o fato de ter perseguido a igreja. Isso é possível: Paulo não vive preso à culpa, porque a justiça que tem vem de Cristo, e não do que fez. Ambas as leituras concordam que o passado não é o critério. Gordon Fee observa que o tema do capítulo é a justiça por Cristo, e que a imagem do corredor serve para mostrar que a vida cristã é movimento, e não posse tranquila. Peter O'Brien destaca que o prêmio é a chamada para cima, a plena comunhão com Cristo na ressurreição. Há também um ponto de humildade: Paulo, que poderia se considerar maduro, diz que ainda não alcançou, e que seu esforço é resposta a ter sido alcançado por Cristo, como diz o versículo 12. A ordem é essa: Cristo o agarrou primeiro, e ele corre porque foi agarrado. Isso afasta uma leitura de autoajuda, em que a pessoa se esforça para ser melhor. O esforço de Paulo é gratidão e perseverança, e não tentativa de conquistar posição. Também vale notar o contraste entre o ritmo do verbo no presente, prossigo, e a tranquilidade de quem sabe que a chegada está garantida pela vocação de Deus. O corredor de Paulo corre sem ansiedade de aprovação, porque a aprovação já foi dada em Cristo. Essa combinação de segurança e movimento é o que o texto quer comunicar, e explica por que o capítulo termina falando de esperança da ressurreição do corpo, e não de resultados alcançados.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Esquecer o passado significa apagar da memória e nunca mais falar do que aconteceu.
Paulo mesmo fala de seu passado em várias cartas. O verbo grego indica deixar de ter como prioridade, não amnésia. O texto trata de não depender do passado nem se prender a ele.
Dizem que:O texto trata apenas de pecados e fracassos passados.
No contexto, o que Paulo deixou para trás é seu currículo religioso e suas credenciais, que consideraria motivos de orgulho. Os fracassos podem ser incluídos por extensão, mas não são o foco.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura contextual (a maioria dos comentaristas)
O passado deixado para trás são as credenciais de Paulo, descritas em 3:4-6. O versículo ensina a não confiar nas realizações pessoais e a seguir adiante em Cristo.
Leitura ampla (aplicação pastoral)
Inclui também os fracassos e a culpa, pois a justiça vem de Cristo. A imagem do corredor é aplicada à superação de qualquer coisa que impeça o avanço, sem negar a memória.
No original3 termos
ἐπεκτεινόμενοςepekteinomenos
Esticando-se para a frente. Imagem do corredor que se projeta em direção à linha de chegada, com o corpo inclinado e os olhos fixos no alvo.
σκύβαλαskubala
Refugo, lixo, o que se joga fora. Em , é a palavra forte com que Paulo descreve suas credenciais comparadas ao ganho de conhecer a Cristo.
ἐπιλανθανόμενοςepilanthanomenos
Esquecendo, no sentido de deixar de dar atenção. Não indica apagar a memória, e sim não manter algo como referência ou prioridade.
O que fazer com isso
Não se trata de fingir que o passado não existe, mas de impedir que ele defina quem você é diante de Deus. Isso vale tanto para fracassos que pesam quanto para conquistas que dão orgulho. Se você anda travado pela culpa ou pela vaidade, olhe de novo para o alvo e dê o próximo passo, apoiado no que Cristo já fez.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas3 obras
- Peter T. O'Brien. The Epistle to the Philippians (New International Greek Testament Commentary), 1991.
- Gordon D. Fee. Paul's Letter to the Philippians (New International Commentary on the New Testament), 1995.
- Gerald F. Hawthorne. Philippians (Word Biblical Commentary), 1983.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Então devo esquecer meus erros passados?
Não no sentido de apagar a memória. O texto convida a não ser definido pelo passado, apoiando-se na justiça de Cristo e seguindo adiante. A lembrança honesta do passado continua legítima.
O que é o prêmio de Filipenses 3:14?
É a chamada de Deus para cima em Cristo Jesus, isto é, a plena comunhão com Cristo e a participação na ressurreição, descrita no contexto como o alvo da vida cristã.
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