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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

Por que o Evangelho de Marcos termina com as mulheres com medo?

por que marcos 16 termina de repente sem jesus aparecer

Havendo passado o sábado, Maria Madalena, e Maria mãe de Tiago, e Salomé, compraram especiarias, para irem o ungir. E de manhã muito cedo, o primeiro dia da semana, vieram ao sepulcro, ao nascer do sol. E diziam umas às outras: Quem rolará para nós a pedra da porta do sepulcro? Pois era muito grande. E quando observaram, viram que já a pedra estava havia sido rolada; e entrando no sepulcro, viram um rapaz sentado à direita, vestido com uma roupa comprida branca; e elas se espantaram. Mas ele lhes disse: Não vos espanteis. Vós buscais a Jesus Nazareno crucificado. Ele já ressuscitou, não está aqui. Eis aqui o lugar onde o puseram. Porém ide, dizei a seus discípulos e a Pedro, que ele vai adiante de para a Galileia; ali o vereis, como ele vos disse. Então elas, saindo apressadamente, fugiram do sepulcro, porque temor e espanto as haviam tomado; e não disseram nada a ninguém, porque tinham medo.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

No primeiro dia da semana, Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé foram ao sepulcro de Jesus para completar o ritual de unção interrompido pela chegada do sábado. Encontraram a pedra removida e, dentro do túmulo, um jovem vestido de branco anunciou: "Ele já ressuscitou, não está aqui." As mulheres deveriam avisar os discípulos e Pedro que Jesus os esperava na Galileia, como ele mesmo havia dito.

O evangelho de Marcos, porém, termina de forma abrupta no versículo 8: as mulheres fogem trêmulas e atônitas, e não contam nada a ninguém, porque tinham medo. Os manuscritos gregos mais antigos param exatamente aí, sem narrar nenhuma aparição de Jesus ressuscitado — o que gerou séculos de debate entre estudiosos sobre se esse final foi proposital ou se a página original do livro se perdeu.

Como isso aponta para Jesus

Cumprimento direto

Esta passagem não aponta indiretamente para Cristo — ela é o próprio anúncio do evento central que dá sentido a todo o Novo Testamento. O jovem no sepulcro declara o cumprimento exato do que Jesus predissera repetidas vezes durante seu ministério: que o Filho do Homem seria morto e, três dias depois, ressuscitaria. O túmulo vazio e a mensagem "ele já ressuscitou, não está aqui" confirmam, no próprio lugar onde o corpo fora depositado, que a predição se cumpriu literalmente. É esse mesmo acontecimento que Paulo, poucos anos depois, resume como o núcleo da mensagem cristã: Cristo morreu, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, aparecendo a numerosas testemunhas.

Respaldo no Novo Testamento: ;

Contexto histórico

O relato de se passa no contexto dos costumes fúnebres judaicos do primeiro século. Jesus havia sido sepultado às pressas na sexta-feira, pouco antes do início do sábado, quando qualquer trabalho — inclusive preparar um corpo com especiarias aromáticas — era proibido. Assim que o sábado terminou e já de manhã bem cedo no domingo, Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé se dirigiram ao sepulcro trazendo especiarias, provavelmente óleos e resinas perfumadas, para completar a unção que a pressa do sepultamento havia deixado incompleta.

No caminho, elas se perguntavam quem removeria a pedra que fechava a entrada do túmulo — sepulcros escavados na rocha, comuns na época, costumavam ser selados com uma pedra pesada, que exigia força de vários homens para mover. Ao chegarem, encontram a pedra já removida e, ao entrar, veem um jovem (no grego, neaniskos) sentado à direita, vestido com uma roupa branca comprida, uma descrição que os leitores antigos reconheceriam como figura celestial, ainda que o texto não use a palavra "anjo". Ele anuncia que Jesus, o Nazareno crucificado, ressuscitou, e as instrui a avisar "seus discípulos e a Pedro" — a menção específica a Pedro, que havia negado Jesus três vezes pouco antes, é lida por comentaristas como sinal precoce de restauração. A ordem é que se encontrem com Jesus na Galileia, cumprindo o que ele mesmo havia predito antes de morrer.

O versículo 8, porém, encerra a cena — e, nos manuscritos mais antigos, o próprio evangelho — com as mulheres fugindo trêmulas e atônitas, sem contar nada a ninguém, porque tinham medo. Essa reação de medo e silêncio, em vez de alegria imediata, é consistente com o padrão que Marcos usa ao longo de todo o livro, no qual testemunhas de atos poderosos de Jesus reagem com espanto, confusão ou temor, mais do que com fé plena e instantânea.

Aprofundamento

A dificuldade central de não está no conteúdo do anúncio — a ressurreição de Jesus —, mas no fato de que, nos dois manuscritos gregos mais antigos e respeitados do Novo Testamento, o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, ambos do século IV, o evangelho termina exatamente no versículo 8. Não há relato de nenhuma aparição do Jesus ressuscitado, nenhuma comissão final aos discípulos, nenhuma ascensão — apenas mulheres em fuga, com medo, em silêncio. Esse final é gramaticalmente incomum: a última palavra da frase grega é gar ("porque"), partícula explicativa que raramente fecha uma sentença, e mais raramente ainda uma obra literária inteira. Ainda assim, há outros exemplos, na literatura grega antiga, de textos que terminam com gar, o que enfraquece o argumento de que seria impossível Marcos ter planejado esse final.

Diante disso, os estudiosos se dividem, sem consenso definitivo, entre duas leituras principais. A primeira defende que Marcos encerrou o evangelho de propósito nesse ponto, como recurso literário: ao longo de todo o livro, discípulos e testemunhas reagem aos atos de Jesus com medo, incompreensão e fuga, e terminar com as mulheres também em silêncio e temor deixaria ao leitor a pergunta em aberto — você vai crer, mesmo sem ver o que elas viram? A segunda leitura considera que o final original se perdeu, possivelmente pelo dano da última página de um rolo ou códice antigo, e que Marcos teria relatado ao menos um encontro com Jesus ressuscitado, como os outros evangelhos fazem.

Manuscritos posteriores, a partir do século V, trazem duas tentativas de completar o relato: um "final breve", poucas linhas informando que as mulheres finalmente avisaram Pedro e os outros, e o chamado "final longo" (versículos 9-20), que inclui aparições de Jesus, a grande comissão e sinais como falar em novas línguas e manusear serpentes. O erudito Bruce Metzger, em seu comentário textual clássico sobre o Novo Testamento grego, documenta que esse final longo já circulava no século II, sendo citado por Irineu de Lião, mas seu vocabulário e estilo diferem visivelmente do restante de Marcos, o que leva a maioria dos especialistas em crítica textual a considerá-lo um acréscimo posterior, não obra do autor original.

Vale separar duas perguntas que se confundem na dúvida popular: onde termina o documento chamado Evangelho de Marcos é uma questão de crítica textual; se Jesus realmente ressuscitou é uma questão histórica atestada de forma independente por Mateus, Lucas, João e por Paulo, que já na década de 50 d.C. cita testemunhas oculares em . A incerteza sobre o final de um livro não abala o testemunho do conjunto do Novo Testamento sobre o fato central que ele anuncia.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Como o final mais antigo de Marcos não narra nenhuma aparição de Jesus ressuscitado, isso prova que a ressurreição foi uma invenção acrescentada depois aos evangelhos.

    O anúncio da ressurreição já está no texto indiscutido de Marcos, no versículo 6, dito pelo jovem no sepulcro. O que está em discussão é apenas até onde vai o texto original do livro, não se a ressurreição é mencionada. Além disso, Mateus, Lucas, João e as cartas de Paulo, escritos de forma independente, registram aparições do Jesus ressuscitado.

  • Dizem que:Faltam versículos na Bíblia porque a igreja escondeu ou apagou parte do texto de Marcos.

    A questão é o oposto de um encobrimento: praticamente toda edição crítica e tradução moderna imprime os versículos 9-20 com uma nota explicando que os manuscritos gregos mais antigos não os trazem. A diferença é discutida abertamente há séculos por eruditos cristãos, documentada em obras como o comentário textual de Bruce Metzger.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Reconhece os versículos 9-20 como parte legítima do cânone recebido pela Igreja, tradicionalmente presente na Vulgata e usado na liturgia, sem que a questão textual abale sua autoridade doutrinária.

  • Ortodoxa

    Usa o texto litúrgico bizantino, que inclui os versículos 9-20 nas leituras pascais, tratando a continuidade do relato como parte da tradição recebida da Igreja desde os primeiros séculos.

  • Reformada/luterana

    Segue a crítica textual baseada nos manuscritos mais antigos, reconhecendo que os versículos 9-20 provavelmente não são do autor original, e costuma imprimi-los entre colchetes ou com nota explicativa, sem que isso afete a doutrina da ressurreição.

  • Pentecostal/carismática

    Mesmo ciente do debate textual, valoriza os sinais mencionados nos versículos 17-18 (línguas, cura, expulsão de espíritos) como parte da tradição recebida da Igreja e ainda válidos para a vida cristã hoje.

No original4 termos
  • γάρgarG1063

    Partícula explicativa ('porque', 'pois'), última palavra do texto grego no final mais antigo de Marcos — uma construção incomum para encerrar uma frase ou uma obra.

  • μνημεῖονmnēmeionG3419

    Sepulcro, túmulo memorial; palavra usada para o local onde o corpo de Jesus fora depositado.

  • νεανίσκοςneaniskos

    Jovem, rapaz; termo usado para descrever a figura vestida de branco que anuncia a ressurreição, entendida pelos leitores antigos como um mensageiro celestial.

  • ἠγέρθηēgerthēG1453

    Forma verbal de 'ressuscitar', 'levantar-se'; usada na declaração 'ele já ressuscitou'.

O que fazer com isso

O final de Marcos retrata as primeiras testemunhas da ressurreição não como heroínas triunfantes, mas como mulheres trêmulas, confusas, incapazes de processar de imediato o que viram. Isso pode aliviar quem sente que sua fé deveria vir sempre acompanhada de certeza serena diante do que é grande demais para entender de uma vez. Reconhecer o medo diante do que ultrapassa a própria compreensão, e ainda assim seguir a instrução recebida — ir contar o que se viu —, é um caminho tão legítimo quanto a fé que nunca parece vacilar.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
  • William L. Lane. The Gospel of Mark (New International Commentary on the New Testament), 1974.
  • N. T. Wright. The Resurrection of the Son of God, 2003.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Marcos 16:9-20 não está na Bíblia então?

A maioria das traduções modernas inclui esses versículos, mas com uma nota explicando que os manuscritos gregos mais antigos não os trazem. A informação é tratada de forma aberta pelas próprias edições da Bíblia, não omitida.

Isso significa que a ressurreição de Jesus é incerta?

Não. Mateus, Lucas, João e as cartas de Paulo registram, de forma independente, relatos de aparições de Jesus ressuscitado. A dúvida é sobre onde termina um documento específico, não sobre o fato histórico central da fé cristã.

Por que a frase termina com a palavra "porque" (gar) em grego?

É uma construção rara, mas existem outros exemplos na literatura grega antiga de textos que terminam assim. Isso alimenta o debate entre quem vê aí um final proposital de Marcos e quem imagina que a página final da obra se perdeu.

Temas

Faz parte de

Publicado em 24/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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