
O que era o vento Euroaquilão e por que os marinheiros cingiram o navio com cabos?
Que vento era o Euroaquilão e o que significa passar cabos por baixo do navio na viagem de Paulo?
Mas não muito depois houve contra ela um vento violento, chamado Euroaquilão. E tendo o navio sido tomado por ele, e não podendo navegar contra o vento, nós deixamos sermos levados por ele. E correndo abaixo de uma pequena ilha, chamada Clauda, com dificuldade conseguimos manter o barquinho de reserva; O qual, tendo sido levado para cima, usaram de suportes para reforçarem o navio; e temendo irem de encontro aos bancos de areia, eles baixaram as velas e deixaram ir à deriva.
Resposta curta
Em , um vento violento chamado Euroaquilão (Euroclidão em algumas versões antigas) desce de Creta e arrasta o navio que levava Paulo prisioneiro a Roma. A tripulação recolhe a custo o bote, passa cabos por baixo do casco para reforçá-lo e, temendo encalhar nas Sirtes, baixa o aparelho e se deixa levar. O nome do vento é um composto que provavelmente junta o Euro, vento do leste, ao Aquilão, vento do norte, indicando uma ventania de nordeste. Os cabos eram uma técnica conhecida da navegação antiga, usada para impedir que as pranchas se abrissem sob o esforço das ondas. O relato de Lucas mostra precisão náutica e o desespero crescente da viagem.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaEste trecho é uma narrativa de navegação e não traz uma ligação tipológica. A presença de Cristo é indireta: o Deus a quem Paulo pertence e serve manda um anjo prometer que nenhuma vida se perderá, mas isso só aparece a partir do versículo 23. Nos versículos 14 a 17, o que se vê é o limite das capacidades humanas diante do mar.
Em palavras simples
O Euroaquilão era uma ventania violenta do nordeste que desceu de Creta e empurrou o navio de Paulo para o mar aberto. Os marinheiros puxaram o bote para dentro do navio e passaram cabos grossos por baixo do casco para que as tábuas não se soltassem com as ondas. Também baixaram o equipamento para frear o barco, porque temiam ser jogados nos bancos de areia da costa da Líbia, chamados Sirtes.
Contexto histórico
Paulo apelou a César e é levado para Roma como prisioneiro, sob a guarda do centurião Júlio, em um navio de Adramítio e depois em um navio de cereais de Alexandria (). A viagem começa tarde: o jejum, isto é, o Dia da Expiação, que cai no outono, já havia passado (27:9). Na Antiguidade, a navegação no Mediterrâneo ficava perigosa a partir de meados de setembro e era considerada impraticável do início de novembro ao início de março, como registram autores romanos. Paulo avisa que a viagem seria com dano e perda, mas o centurião dá mais crédito ao piloto e ao capitão. A maioria decide navegar de Bons Portos, em Creta, para Fênix, um porto da ilha, a fim de passar o inverno (v. 9-12).
Um vento brando do sul parece favorável, e eles zarpam costeando Creta. Pouco depois, desce da ilha uma ventania chamada Euroaquilão (v. 14). O navio é arrebatado e não consegue enfrentar o vento. Eles se deixam levar e passam abaixo de uma pequena ilha chamada Clauda, onde, com dificuldade, conseguem recolher o bote que vinha a reboque (v. 16). Arrastado atrás do navio, o bote era difícil de içar com o mar tão agitado, e deixá-lo na água era arriscar perdê-lo. Depois de içá-lo, os marinheiros usam socorros, passam cabos por baixo do navio para cingi-lo e, com medo de ir parar nas Sirtes, baixam o aparelho e deixam-se levar (v. 17).
O resto do capítulo narra a tempestade, que dura quatorze noites, as perdas de carga e de apetrechos, a promessa de um anjo a Paulo de que nenhuma vida se perderia e o naufrágio em Malta (v. 18-44). O trecho dos versículos 14 a 17 é, portanto, o momento em que a viagem passa do risco para a emergência, e Lucas o conta com vocabulário técnico de quem esteve a bordo, pois a narrativa usa a primeira pessoa do plural.
Aprofundamento
Sobre o nome do vento, os manuscritos divergem. A tradição textual mais antiga traz Eurakýlon, forma que a Vulgata latina conserva como Euroaquilo, e é a base das traduções modernas, como a ARA. O texto bizantino, seguido pela Almeida Corrigida (Euroclidão), traz Eurokýdon, ligado a klýdon, onda. Os dois nomes descrevem a mesma ventania: um vento do nordeste, de Eurakýlon (Euros, leste, e Aquilo, nome latino do vento do norte), ou um vento que levanta ondas, de Eurokýdon. Não são ventos diferentes, e sim leituras variantes do mesmo termo.
Esse tipo de tempestade ainda é conhecido no Mediterrâneo. Ventos fortes que descem das montanhas de Creta e atingem navios no litoral sul da ilha são relatados por navegadores. Quem sai de Bons Portos em direção a oeste, sob proteção da costa, fica exposto quando o vento muda de direção. James Smith, em seu estudo clássico de 1848 sobre a viagem de Paulo, reconstruiu o percurso e os ventos a partir da experiência de navegação e concluiu que o relato de Lucas é coerente com a deriva de um navio arrastado de Creta rumo a Malta em cerca de duas semanas, o que combina com a distância e com a direção de um vento de nordeste.
A expressão cingir o navio com cabos traduz o verbo hypozónnymi, literalmente cingir por baixo. Era uma prática conhecida: passar cabos grossos por baixo do casco e apertá-los em volta do navio para impedir que as pranchas se abrissem com o impacto das ondas. Navios antigos eram construídos sem costelas fortes como as modernas e dependiam de cabos desse tipo, que também aparecem em fontes gregas e romanas sobre a navegação, e o estudioso Lionel Casson descreve a técnica em seu livro sobre navios e navegação do mundo antigo. Era um recurso de emergência, usado em navios de carga grandes, como o alexandrino em que Paulo viajava.
A última frase, baixar o aparelho, tem duas interpretações. A palavra grega skeûos significa apetrecho, e alguns tradutores a entendem como o equipamento de vela e a vela principal, que seria arriada para diminuir a pressão do vento. Outros entendem como uma âncora flutuante ou um dispositivo de arrasto, destinado a reduzir a velocidade e evitar que o navio fosse empurrado para as Sirtes. As Sirtes eram bancos de areia traiçoeiros ao largo da costa da Líbia, o Golfo de Sidra, temidos pelos marinheiros porque o navio que encalhava ali dificilmente era salvo. O medo das Sirtes mostra que os marinheiros calculavam o rumo do vento e a distância, e não estavam apenas em pânico.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Euroclidão e Euroaquilão são dois ventos diferentes.
São duas formas do mesmo nome em tradições de manuscritos distintas. A forma Eurakýlon é a de manuscritos mais antigos e das edições críticas; Eurokýdon vem do texto bizantino, seguido pela Almeida Corrigida. Ambas designam a ventania que atingiu o navio em .
Dizem que:A tempestade foi um castigo de Deus por causa de Paulo estar a bordo.
O texto não diz isso. Paulo havia avisado do risco antes de zarparem (), e a decisão de navegar contrariou o aviso. Mais tarde, um anjo declara que Deus concederia a Paulo a vida de todos os que viajavam com ele (27:24).
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Aparelho como velame
Baixar o aparelho (skeûos) significa arriar a vela principal e o equipamento alto, para diminuir a pressão do vento e a velocidade do navio, como propôs James Smith.
Aparelho como âncora flutuante
O termo designaria um dispositivo de arrasto lançado ao mar, para reduzir a deriva e evitar que o navio fosse empurrado para as Sirtes.
Direção dos cabos
A técnica de cingir o casco com cabos é conhecida, mas a posição exata deles é discutida: alguns pensam em cabos em volta do casco, em pontos transversais, outros em cabos de proa a popa.
No original3 termos
ΕὐρακύλωνEurakýlon
Nome do vento, composto de Euros (vento do leste) e do latim Aquilo (vento do norte), indicando uma ventania de nordeste. Algumas tradições textuais trazem Eurokýdon, que lembra o vento que levanta ondas.
ὑποζώννυμιhypozónnymi
Cingir por baixo, reforçar o casco com cabos. Em descreve a técnica de passar cabos por baixo do navio para impedir que as pranchas se abrissem.
σκεῦοςskeûos
Utensílio, apetrecho, equipamento. Em designa o aparelho que os marinheiros baixaram, interpretado como velame ou como âncora flutuante.
O que fazer com isso
A viagem de Paulo lembra que seguir a vontade de Deus não poupa ninguém de tempestades. Paulo estava no centro do plano divino e mesmo assim passou dias sem ver sol nem estrelas. O texto mostra também a prudência: os marinheiros usam todas as técnicas conhecidas, e Lucas as registra. Confiar em Deus não dispensa o uso de bom senso, preparo e recursos disponíveis, e ao mesmo tempo reconhece que há situações em que só resta entregar-se à providência.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas5 obras
- James Smith. The Voyage and Shipwreck of St. Paul, 1848.
- Lionel Casson. Ships and Seamanship in the Ancient World, 1971.
- F. F. Bruce. The Book of the Acts (NICNT), 1988.
- I. Howard Marshall. Acts (Tyndale New Testament Commentaries), 1980.
- Craig S. Keener. Acts: An Exegetical Commentary, vol. 4, 2015.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Onde ficavam as Sirtes?
Eram dois golfos com bancos de areia na costa da Líbia, a Sirte Maior e a Sirte Menor, ao sul do Mediterrâneo central. Os navegadores antigos as temiam porque os bancos mudavam e o navio encalhado dificilmente se salvava.
Por que Lucas escreve na primeira pessoa do plural neste trecho?
Nas seções chamadas de nós de Atos, Lucas se inclui na narrativa. A leitura mais comum é que ele estava a bordo, o que explicaria o vocabulário náutico e os detalhes precisos. Alguns estudiosos o veem como recurso literário, mas isso é minoritário.
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