Jejum
O que significa jejum na Bíblia em hebraico?
A palavra no original
צוֹם
tsôm · Strong H6685
Abster-se de comer; jejum, jejuar.
Tudo isto ao mesmo tempo
- jejum de luto
- súplica urgente diante de perigo
- arrependimento comunitário ou nacional
- ritual religioso esvaziado de sentido moral
Resposta curta
A palavra hebraica tsom (צוֹם) designa o jejum: abster-se de comida, e por vezes de água, por um período determinado. Vem da raiz verbal tsum (צוּם), "restringir-se, abster-se", e aparece dezenas de vezes no Antigo Testamento, tanto como substantivo quanto como forma verbal conjugada, geralmente traduzida por "jejuar" ou "jejum".
No uso bíblico, tsom cobre um campo que vai do luto pessoal à súplica urgente e ao arrependimento coletivo de uma nação inteira. Reis convocam jejuns diante de guerra iminente, profetas anunciam jejuns de arrependimento, o povo jejua ao receber más notícias. O termo não descreve apenas a ausência de comida, mas um gesto corporal que acompanha e expressa humilhação diante de Deus — por isso os profetas insistem, sobretudo em , que o jejum sem mudança de vida e de conduta social é vazio.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO jejum como prática atravessa a Escritura desde os líderes de Israel até os profetas, sempre como gesto de humildade e busca urgente de Deus. Essa trajetória chega ao Novo Testamento quando Jesus jejua quarenta dias no deserto antes de iniciar seu ministério público (; ) — o evangelho usa o verbo grego nesteuo, equivalente funcional do tsom hebraico, não a mesma palavra. Jesus também ensina sobre o jejum em , corrigindo a mesma distorção que Isaías já havia denunciado: jejuar para ser visto pelos outros, em vez de buscar a Deus com sinceridade. A continuidade não está na palavra em si, que muda de idioma, mas no sentido que ela carrega desde o Antigo Testamento: abstinência que expressa, e não substitui, uma disposição interior diante de Deus.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Tsom é a palavra em hebraico para "jejum" — parar de comer, às vezes também de beber, por um tempo determinado. Na Bíblia, as pessoas jejuavam para chorar uma perda, pedir ajuda a Deus com urgência, ou se arrepender depois de um erro grave, sozinhas ou em grupo. Não era só ficar sem comida: era um jeito de mostrar, com o corpo inteiro, que algo sério estava acontecendo por dentro.
De onde vem a palavra
No antigo Israel, o jejum não tinha um calendário fixo obrigatório para o povo comum, embora a lei do Dia da Expiação (; 23:27) mandasse "afligir a alma" — expressão que a tradição judaica sempre associou ao jejuar, ainda que o texto da Torá use ali um verbo diferente (anah, "afligir"), não tsom. A palavra tsom em si aparece pela primeira vez de forma explícita em , quando as tribos de Israel jejuam depois de uma derrota militar contra Benjamim, antes de voltar à batalha.
Dali em diante, o jejum aparece em situações bem concretas: Davi jejua enquanto seu filho recém-nascido está doente () e ao saber da morte de Saul (); o rei Acabe jejua ao ouvir a sentença de Elias (); Ester convoca um jejum coletivo de três dias antes de se apresentar ao rei (); Esdras proclama um jejum à beira do rio Aavá pedindo proteção para a viagem de volta a Jerusalém (); Neemias jejua ao saber do estado de Jerusalém em ruínas (); e o rei de Nínive decreta jejum para todo o povo depois da pregação de Jonas ().
Os profetas usam a mesma palavra para dois propósitos opostos: convocar jejuns genuínos de arrependimento (; 2:12,15) e denunciar jejuns que viraram rotina religiosa vazia. é o texto mais direto: o povo jejua e reclama que Deus não responde, e a resposta divina é que o jejum que Deus escolhe é repartir o pão com o faminto e soltar os injustamente presos — não simplesmente abster-se de comida. retoma o tema, respondendo a uma pergunta sobre se ainda faz sentido manter os jejuns instituídos após a destruição de Jerusalém, e anuncia que esses mesmos jejuns um dia se tornarão festas de alegria para a casa de Judá.
Depois do exílio babilônico, o jejum também ganha um papel mais formal na vida comunitária judaica, com datas fixas de lembrança associadas à queda da cidade e do templo — um desenvolvimento que a literatura pós-bíblica judaica vai continuar a elaborar, já fora do período coberto pelo Antigo Testamento.
Aprofundamento
O substantivo hebraico צוֹם (tsôm) e o verbo relacionado צוּם (tsûm, "jejuar") formam uma família de palavras cuja raiz, segundo o léxico BDB (Brown-Driver-Briggs) e o HALOT (Koehler-Baumgartner), tem sentido básico de "abster-se, restringir-se" — provavelmente aparentada ao termo árabe ṣāma, usado até hoje para o jejum islâmico, o que sugere uma raiz semítica comum ligada à ideia de conter-se ou fechar-se (alguns léxicos mais antigos chegaram a propor "fechar a boca" como imagem de fundo, embora essa derivação específica seja incerta).
É importante notar que tsom não é a única palavra hebraica ligada ao jejum. A legislação do Pentateuco sobre o Dia da Expiação usa a expressão "afligir a alma" (anah nephesh), sem empregar tsom diretamente — o que levou comentaristas como Keil e Delitzsch a observar que o jejum ali é implícito, deduzido pela tradição, mas não nomeado com o vocabulário técnico que os livros históricos e proféticos vão consolidar depois. Tsom, portanto, parece ser o termo que se firma como designação própria e recorrente do jejum a partir do período dos Juízes e da monarquia, usado tanto para ocasiões de um único dia quanto para jejuns de vários dias (três dias em , sete dias em ) e até quarenta dias, no caso das duas permanências de Moisés no monte (; ), embora nesses dois relatos específicos o texto hebraico descreva a ausência de pão e água sem usar a palavra tsom.
O campo semântico de tsom cobre, então, pelo menos três usos distintos: jejum de luto, diante de morte ou desastre; jejum de súplica, diante de perigo, doença ou decisão importante; e jejum de arrependimento nacional, convocado por reis ou profetas. Um quarto uso, mais crítico, aparece quando os próprios profetas usam a palavra para descrever um jejum que se tornou fórmula vazia — ritual sem correspondência na vida real de quem jejua, tema central de .
No grego do Novo Testamento, o equivalente funcional é νηστεία (nesteia) e o verbo νηστεύω (nesteuo) — palavras diferentes de tsom, sem relação etimológica direta, mas que os tradutores da Septuaginta escolheram justamente para verter tsom ao grego, o que garante a continuidade do conceito entre os dois Testamentos mesmo com mudança total de idioma e de raiz.
Vale notar ainda que a forma verbal e a forma substantivada de tsom nem sempre indicam a mesma intensidade de prática: em alguns contextos históricos o verbo descreve um único dia de abstinência decidido às pressas diante de uma emergência, enquanto o substantivo, quando qualificado por numerais de dias, marca jejuns deliberadamente estendidos e anunciados com antecedência, como convocação pública. Essa distinção gramatical ajuda o leitor a perceber que "jejum", em hebraico, não é uma categoria única e uniforme, mas um gesto cuja duração e solenidade variam conforme a urgência e o alcance social do momento — de um indivíduo aflito a uma nação inteira convocada por um decreto real.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Jejum bíblico sempre significa quarenta dias sem comer nem beber.
A maioria dos jejuns registrados com a palavra tsom dura um dia ou alguns dias — Ester pede três dias (), e o jejum coletivo de dura sete. Jejuns de quarenta dias, como os de Moisés e de Jesus, são exceções extraordinárias associadas a figuras específicas, não o padrão do termo.
Dizem que:A palavra tsom aparece na lei do Dia da Expiação, mandando o povo jejuar.
O texto de e 23:27 usa a expressão 'afligir a alma' (anah nephesh), não tsom. A tradição judaica interpretou essa aflição como jejum, mas a palavra hebraica específica para jejum não está no mandamento da Torá.
Dizem que:Jejuar garante que Deus vai responder ao pedido feito.
registra o próprio povo reclamando que Deus não respondeu ao seu jejum, e a resposta divina aponta para a falta de justiça social por trás do ritual, não para uma técnica de garantir resposta.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo
O jejum é reconhecido como prática penitencial institucionalizada, com dias específicos no calendário litúrgico (como a Quaresma), unindo abstinência corporal a penitência e preparação espiritual.
Ortodoxia Oriental
Mantém um calendário extenso de períodos de jejum ao longo do ano litúrgico, entendido como disciplina ascética que treina o corpo e a vontade para a comunhão com Deus, em continuidade com a prática dos profetas e de Cristo.
Protestantismo evangélico
Tende a tratar o jejum como disciplina espiritual voluntária, não obrigatória por calendário, motivada por ocasiões específicas de oração, decisão ou busca de Deus, seguindo o modelo dos jejuns individuais do Antigo Testamento.
Pentecostalismo e neopentecostalismo
Enfatiza o jejum como instrumento de intensificação espiritual e busca por intervenção divina em situações concretas, muitas vezes associado a campanhas comunitárias, ecoando os jejuns nacionais convocados por reis e profetas do Antigo Testamento.
O que fazer com isso
Reconhecer tsom como termo técnico ajuda a ler com mais precisão os relatos de jejum na Bíblia: nem todo texto sobre abster-se de comida usa essa palavra, e nem todo jejum citado tem o mesmo motivo. A crítica profética em continua relevante como lembrete de que a prática, isolada de mudança concreta de atitude, não é o que a tradição bíblica considerada como jejum genuíno.
Passagens relacionadas4
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
- Ludwig Koehler e Walter Baumgartner. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
- James Strong. The Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament, 1866.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Tsom é a única palavra hebraica para jejum na Bíblia?
É a palavra técnica mais recorrente para jejum, mas a lei do Dia da Expiação usa outra expressão, 'afligir a alma' (anah nephesh), que a tradição judaica interpretou como incluindo o jejum. Os dois termos não são idênticos no texto hebraico.
Quantas vezes a palavra tsom aparece no Antigo Testamento?
O substantivo e o verbo da mesma raiz aparecem dezenas de vezes, concentrados principalmente nos livros históricos (Juízes, Samuel, Reis, Esdras, Neemias, Ester) e nos profetas (Isaías, Jeremias, Joel, Jonas, Zacarias, Daniel).
Jesus jejuou usando a mesma palavra tsom?
Não diretamente — os evangelhos foram escritos em grego e usam o verbo nesteuo, equivalente funcional de tsom. A Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento, já usava essa família de palavras gregas para verter tsom, o que preserva a continuidade do conceito entre os dois Testamentos.
O jejum na Bíblia era sempre sem comida e sem água?
Não sempre da mesma forma. A maioria dos relatos fala em abster-se de comida; alguns, como o jejum de Ester (), mencionam explicitamente também a água. O texto nem sempre detalha o que exatamente estava excluído.
Palavras próximas
Temas
- No hebraico
- #jejum
- #tsom
- #antigo-testamento
- #disciplina-espiritual