Júlio, o centurião
Quem foi Júlio, o centurião que levou Paulo a Roma?
Ficha do personagem
Mediterrâneo, c. 59-60 d.C.
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Resposta curta
Júlio foi o centurião da coorte Augusta a quem Paulo e outros prisioneiros foram entregues para a viagem por mar até Roma, por volta de 59-60 d.C. Em Sidom, tratou Paulo com humanidade e permitiu que visitasse amigos. Em Creta, porém, preferiu o conselho do piloto e do dono do navio ao de Paulo, que desaconselhava seguir viagem, e o navio foi apanhado por uma tempestade.
Depois do desastre, mudou de atitude: acatou o aviso de Paulo sobre os marinheiros que queriam fugir e, quando os soldados quiseram matar os presos para que nenhum escapasse a nado, impediu-os "querendo salvar a Paulo". Todos chegaram a terra. Atos não registra o que lhe aconteceu depois, e o seu papel na chegada a Roma é parcialmente incerto por causa de variantes do texto.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaOs evangelhos e Atos registram vários centuriões romanos que reagem de modo favorável a Jesus ou a seus seguidores: o centurião de Cafarnaum (), o que, ao pé da cruz, reconhece que Jesus era "justo" () e Cornélio (). Júlio pertence a esse grupo de forma mais discreta: não confessa fé alguma, mas protege Paulo e, por consequência, preserva o testemunho do apóstolo a caminho de Roma, conforme a promessa de . O texto não faz de Júlio um tipo de Cristo nem diz que se converteu. A relação com Cristo é indireta: o poder romano, que condenou Jesus, serve aqui, sem o saber, ao desígnio que leva o evangelho à capital.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Júlio era o centurião romano encarregado de levar Paulo e outros prisioneiros de navio até Roma. Foi gentil com Paulo em Sidom. Mais tarde, em Creta, preferiu seguir o conselho do piloto e do dono do navio, em vez do de Paulo, e o navio enfrentou uma grande tempestade. Depois disso, passou a ouvir Paulo com mais atenção. Quando os soldados queriam matar os presos para que não fugissem, Júlio os impediu para salvar Paulo, e todos chegaram a terra. A Bíblia não conta o que houve com ele depois.
O mundo dele
A viagem de Paulo como prisioneiro começa quando o governador Festo decide enviá-lo a Roma, em resposta ao apelo a César (; 27:1). Paulo e outros presos foram colocados sob a custódia de um centurião chamado Júlio, "da coorte Augusta" (em grego, speira Sebaste). O nome Júlio indica que ele ou sua família tinha recebido a cidadania sob um dos imperadores da dinastia Júlio-Cláudia. Quanto à "coorte Augusta", o título pode designar uma unidade auxiliar que recebera honra imperial, mas a identificação exata é discutida. Atos não esclarece, e as inscrições conhecidas não permitem certeza.
Os centuriões eram a espinha dorsal do exército romano. Comandavam cerca de oitenta homens e eram promovidos por mérito, o que lhes dava experiência e autoridade. Eram também usados para tarefas especiais, como escoltar presos. O transporte marítimo de prisioneiros era feito, em geral, em navios mercantes, já que Roma não tinha frota de transporte regular para isso, e a viagem dependia do calendário da navegação: depois de meados de setembro e até novembro, a navegação já era arriscada, e entre novembro e meados de março era praticamente suspensa. registra que "o Jejum já havia passado", expressão que remete ao Dia da Expiação (Yom Kippur), no outono, e indica que a travessia fora feita tarde. Os centuriões costumavam ser veteranos respeitados, e a escolha de um deles para escoltar presos de destaque mostra que o caso de Paulo era levado a sério pelo governador.
O relato de está escrito em primeira pessoa do plural ("nós"), e essa característica faz muitos leitores entenderem que o autor viajava no navio. Também por isso a viagem é uma das fontes mais detalhadas sobre navegação antiga. Estudos clássicos, como o de James Smith, publicado em 1848, e o de Colin Hemer, de 1989, mostram que a rota, os ventos e os nomes dos lugares combinam com o conhecimento de navegação antiga. Em , Aristarco de Tessalônica acompanha Paulo.
A história
A primeira cena é em Sidom (). Júlio "tratou Paulo com humanidade" (em grego, philanthropos) e permitiu que ele visitasse os amigos "para receber cuidados". O texto não diz quem eram esses amigos, mas indica que havia cristãos na cidade. A atitude é notável porque Paulo era um prisioneiro, e um centurião tinha discricionariedade sobre o tratamento. Podemos ver ali tanto cortesia pessoal quanto uma estratégia: Paulo era cidadão romano, tinha apelado a César e era um prisioneiro de perfil conhecido.
O segundo momento é a decisão em Bons Portos, em Creta (27:9-12). Paulo adverte que a viagem "será com perigo e muito dano, não só da carga e do navio, mas também de nossas vidas". Mas o centurião "dava mais crédito ao piloto e ao dono do navio do que ao que Paulo dizia" (27:11). A decisão tem lógica: o piloto e o armador sabiam do ofício, tinham interesse na carga e no navio, e o porto de Bons Portos era considerado inadequado para passar o inverno. O texto não condena a escolha do centurião; mostra apenas que ela foi errada, e que Paulo, nesse assunto, não tinha autoridade técnica. A tempestade vem logo depois.
A mudança de atitude é gradual. Depois de dias de tempestade, em que o grupo perde a esperança, Paulo anuncia que um anjo lhe disse que ninguém morreria (27:21-26). Quando os marinheiros tentam fugir no bote, Paulo avisa ao centurião e aos soldados que, se eles não ficarem, ninguém se salvará, e "então os soldados cortaram as cordas do bote" (27:30-32). Pela primeira vez, Júlio age com base no que Paulo diz.
A cena de maior peso é a de 27:42-44. Os soldados querem matar os presos, para que nenhum fugisse a nado, porque, pela disciplina romana, o soldado que deixasse escapar um preso respondia com a própria vida (o caso de mostra o precedente). Mas o centurião, "querendo salvar a Paulo", os impede e manda que os que sabem nadar se lancem primeiro, e os demais sobre tábuas e destroços. "E assim todos chegaram salvos a terra". O texto diz que o motivo era Paulo, e não explicita se Júlio tinha convicção religiosa ou apenas estima por ele. Ele salva também os demais presos como efeito colateral.
Em , ao chegar a Roma, "foi permitido a Paulo morar por sua conta, com o soldado que o guardava". Alguns manuscritos, da tradição ocidental e bizantina, acrescentam que o centurião entregou os presos ao comandante da guarda; os manuscritos mais antigos não trazem esse trecho, e Júlio não é nomeado ali. O que sabemos, portanto, é que ele conduziu a viagem até a chegada. O que não sabemos é se continuou a ter qualquer relação com Paulo depois, qual era sua fé, e que destino teve.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Júlio se converteu ao cristianismo depois do naufrágio.
não registra nenhuma conversão de Júlio. Diz apenas que ele tratou Paulo com humanidade e o salvou da morte. A tradição posterior pode ter embelezado o personagem, mas o texto é silencioso.
Dizem que:Júlio é o centurião que reconheceu Jesus na cruz.
O centurião de e é um oficial anônimo que serviu na execução de Jesus, por volta do ano 30 ou 33. Júlio aparece cerca de trinta anos depois, em , e nada liga os dois.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura histórico-crítica
Vê no relato um testemunho excepcional da navegação mediterrânea, e entende que Lucas apresenta o centurião como representante de um império que, em geral, não perseguiu Paulo sem motivo. A figura de Júlio faz parte da apologia do cristianismo como não subversivo.
Protestante evangélica
Lê a viagem como exemplo da providência de Deus que conduz Paulo a Roma apesar de erros humanos e da tempestade, usando a decisão de Júlio como instrumento de preservação de todos.
Católica
Interpreta o naufrágio e o salvamento como parte do caminho de Paulo até o centro do império, em cumprimento de . A figura do centurião ilustra como o poder civil, mesmo sem fé, pode cooperar para o bem da missão.
O que fazer com isso
Júlio decide mal quando confia só em quem entende do ofício e depois decide bem quando passa a levar a sério quem antes ignorou. Atos não faz dele nem vilão nem convertido. A passagem mostra que uma autoridade pode errar, aprender com os fatos e agir com decência quando importa. Também convida a pesar quem se escuta: a perícia técnica merece peso, mas não substitui o discernimento sobre o que está em jogo.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas5
- James Smith. The Voyage and Shipwreck of St. Paul, 1848.
- Colin J. Hemer. The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History, 1989.
- Brian M. Rapske. The Book of Acts and Paul in Roman Custody, 1994.
- Joseph A. Fitzmyer. The Acts of the Apostles (Anchor Bible), 1998.
- Craig S. Keener. Acts: An Exegetical Commentary, 2015.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que era a coorte Augusta?
É a unidade de Júlio, segundo . O título provavelmente indica uma coorte auxiliar com honra imperial, mas os estudiosos discutem a identificação precisa, e Atos não oferece detalhes.
Por que Júlio não ouviu o aviso de Paulo em Creta?
diz que ele deu mais crédito ao piloto e ao dono do navio. Eram os especialistas em navegação, e tinham interesse na carga. O texto não critica a lógica, mas mostra que a decisão levou ao desastre.
Júlio é mencionado em Atos 28?
Não pelo nome. narra a chegada a Roma e a permissão para Paulo morar com um soldado de guarda. Alguns manuscritos acrescentam que o centurião entregou os presos ao comandante da guarda, mas isso falta nos manuscritos mais antigos.