
Cidadania romana: por que o tribuno ficou com medo ao saber que Paulo era cidadão?
Por que o comandante romano teve medo só porque Paulo disse que era cidadão romano?
E quando estavam o atando com correias, Paulo disse ao centurião que estava ali: É lícito para vós açoitar a um homem romano, sem ter sido condenado? E o centurião, tendo ouvido isto,foi e avisou ao comandante, dizendo: Olha o que estás a ponto de fazer, porque este homem é romano. E o comandante, tendo se aproximado, disse-lhe: Dize-me, tu és romano?E ele disse: Sim. E o comandante respondeu: Eu com muita soma de dinheiro obtive esta cidadania romana.E Paulo disse: E eu a tenho desde que nasci. Então logo se afastaram dele aqueles que estavam para interrogá-lo; e até o comandante teve temor, ao entender que Paulo era romano, e que tinha o atado.
Resposta curta
Em , Paulo está amarrado para ser interrogado sob açoites quando pergunta ao centurião se é lícito flagelar um cidadão romano sem condenação. O tribuno, que havia ordenado a prisão, diz ter comprado a cidadania por alto preço; Paulo responde que a tem de nascimento. Os que iam interrogá-lo recuam, e o comandante teme por ter atado um cidadão. O medo se explica pelo peso da cidadania: o cidadão romano não podia ser açoitado nem punido sem julgamento regular, e tinha direito de apelar ao imperador. Um oficial que violasse esses direitos arriscava a carreira e a própria pena. A passagem mostra Paulo usando um direito legítimo, no momento oportuno, para continuar o testemunho que o levaria a Roma.
Como isso aponta para Jesus
ContrastePaulo invoca um direito que Jesus, que não era cidadão romano, não teve: Jesus foi flagelado e entregue para ser crucificado sem que ninguém perguntasse se era lícito. O contraste não diminui Paulo, mas ressalta que o Cristo se entregou sem recorrer a defesas jurídicas, e que o apóstolo usa seu direito apenas para continuar o testemunho que o Senhor lhe havia confiado.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Cidadão romano tinha proteção especial: não podia ser açoitado nem preso sem julgamento, e podia apelar ao imperador. Quando Paulo disse ao centurião que era romano, o tribuno percebeu que já havia errado ao acorrentá-lo e que poderia ser punido. Ele tinha comprado a cidadania, mas Paulo a tinha de nascença. Por isso os soldados recuaram na mesma hora e Paulo escapou da tortura.
Contexto histórico
Paulo é preso no templo de Jerusalém depois que uma multidão tenta matá-lo (). O tribuno que comanda a coorte romana da Fortaleza Antônia, chamado Cláudio Lísias (), o toma sob custódia, manda acorrentá-lo com duas cadeias e tenta descobrir o motivo do tumulto, mas a multidão grita de modo tão confuso que ele ordena que Paulo seja levado para dentro da fortaleza. Antes, Paulo consegue falar ao povo em hebraico e conta sua conversão (). A multidão se enfurece quando ele menciona que Deus o enviou aos gentios, e o tribuno decide que a única forma de saber a causa do clamor é interrogar o prisioneiro sob açoites (22:24).
A flagelação, usada para extrair informações de escravos e de estrangeiros, era feita com um chicote de tiras de couro com pedaços de metal ou osso, e podia mutilar ou matar. Paulo é estendido com correias quando faz a pergunta ao centurião que supervisiona: É-vos lícito açoitar um romano sem ser condenado? (22:25). O centurião vai ao tribuno e avisa: o homem é romano. O tribuno vai pessoalmente perguntar a Paulo. A conversa seguinte é curta e carregada de ironia: o tribuno diz ter adquirido a cidadania por grande soma, e Paulo responde que a possui de nascimento (22:27-28).
A cidadania romana era um status jurídico valioso no mundo mediterrâneo. Era herdada por filhos de cidadãos, concedida como recompensa a soldados auxiliares e a benfeitores, ou obtida por compra. O nome Cláudio indica que Lísias provavelmente a recebeu sob o imperador Cláudio (41-54 d.C.), época em que historiadores como Dião Cássio registram que a cidadania podia ser comprada por meio de influências na corte. Paulo, de família judaica de Tarso, a tinha por nascimento, sem que o texto explique como sua família a obteve. Já em Filipos ele havia invocado a cidadania, mas só depois de ter sido açoitado e preso (); aqui o faz antes, no momento em que ela impede que a violência aconteça.
Aprofundamento
O medo do tribuno tem razões jurídicas concretas. Desde a república, leis como a Lex Valeria e a Lex Porcia protegiam o cidadão romano contra açoites e execução sumária, e a legislação do início do império reforçou o direito de apelar a um tribunal superior, a provocatio. Cícero, no século I a.C., chegou a descrever o ato de atar um cidadão romano como um crime e o de açoitá-lo como uma infâmia, o que mostra o quanto essa proteção era considerada fundamental. Um magistrado ou oficial que a violasse podia ser acusado, perder o cargo e sofrer castigo. Para um tribuno militar, a denúncia de um cidadão maltratado poderia ser fatal, sobretudo em uma província sensível como a Judeia.
O medo, porém, não recai sobre o açoite, que ainda não ocorrera. Lucas diz que o tribuno teve medo porque sabia que Paulo era romano e porque o havia atado (22:29). A ordem de acorrentá-lo em 21:33 já podia ser problemática, porque prender sem formalidades e sem acusação definida contrariava a proteção do cidadão. Também é relevante que Paulo, ao fazer a pergunta, não ameaça ninguém: apenas invoca um direito conhecido, e a reação é imediata. A declaração tinha peso porque quem falsamente se dizia cidadão corria risco grave, segundo relatos antigos como o de Suetônio sobre Cláudio, que registra punição severa para os que usurpavam o direito, de modo que dificilmente alguém mentiria sobre isso.
A resposta do tribuno traz um detalhe curioso. Ele diz que comprou a cidadania por grande soma, e Paulo responde: Mas eu a tenho de nascimento. A frase aponta uma hierarquia social: a cidadania adquirida tinha custo, mas a herdada era mais prestigiosa. O contraste também ironiza a situação, porque o prisioneiro tem mais honra jurídica do que o oficial.
Duas questões costumam ser levantadas. A primeira é como Paulo provava a cidadania. Não havia documento universal, mas o testemunho de outras pessoas e, em certos casos, um registro de nascimento bastavam, e a falsificação era considerada gravíssima. A segunda é se Paulo estava usando a cidadania por conveniência pessoal, em contradição com a disposição de sofrer pelo evangelho. Lucas não dá essa impressão: Paulo se apresenta como cidadão apenas quando isso impede uma violência ilegal e preserva a possibilidade de testemunhar em Jerusalém, depois em Cesareia e finalmente em Roma. A mesma cidadania lhe permitirá apelar a César em . O texto mostra um uso prudente de direitos legítimos, sem renunciar à vocação de sofrer por Cristo.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O tribuno temeu porque Paulo era uma pessoa importante ou perigosa.
Lucas explica o motivo: o tribuno teve medo ao saber que Paulo era romano e que o havia atado (). O temor era jurídico, pelo risco de punição por ter amarrado um cidadão sem julgamento, e não por prestígio pessoal de Paulo.
Dizem que:Todos os habitantes do Império Romano eram cidadãos romanos.
A cidadania era um privilégio de minoria nas províncias. O próprio tribuno diz que a comprou por grande soma, e a pergunta de Paulo só tem efeito porque o status era raro e protegido por lei.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura jurídica
O temor do tribuno se explica pelo direito romano: cidadãos não podiam ser açoitados sem julgamento nem acorrentados arbitrariamente, e o oficial que violasse isso arriscava processo e perda do cargo.
Leitura narrativa
Lucas apresenta a cidadania como instrumento providencial que protege Paulo e abre caminho até Roma, em paralelo com a cena de Filipos em , em que a autoridade também se assusta ao saber que Paulo era romano.
No original2 termos
πολιτείαpoliteíaG4174
Cidadania, direito de cidade. Em designa a cidadania romana que o tribuno comprou e que Paulo possuía de nascimento.
ἀκατάκριτοςakatákritosG178
Não condenado, sem sentença. Aparece na pergunta de Paulo ao centurião sobre açoitar um romano sem julgamento regular.
O que fazer com isso
Paulo não se escondeu atrás de um direito para fugir do sofrimento: usou-o no momento exato em que ele impedia uma injustiça e abria caminho para o testemunho. Cristãos hoje também têm direitos civis e podem exercê-los, inclusive para se defender de abuso, sem que isso signifique falta de fé. A pergunta que o texto sugere é para quê usamos o que temos: para proteger o próprio conforto ou para continuar servindo a quem Deus nos enviou.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- A. N. Sherwin-White. Roman Society and Roman Law in the New Testament, 1963.
- Brian Rapske. The Book of Acts and Paul in Roman Custody, 1994.
- F. F. Bruce. The Book of the Acts (NICNT), 1988.
- Craig S. Keener. Acts: An Exegetical Commentary, vol. 3, 2014.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Paulo mentiu ao dizer que era cidadão por nascimento?
Não há indício disso. Falsa reivindicação de cidadania era um crime sério, e o tribuno acreditou imediatamente em Paulo. O texto não explica como a família de Paulo obteve a cidadania, mas aceita o fato sem dúvida.
Por que Paulo não disse isso antes de ser preso?
Lucas não explica. Em Filipos, Paulo invoca a cidadania só depois de ter sido açoitado (). Aqui o faz antes do açoite. É possível que, em situações diferentes, ele tenha avaliado o que servia melhor ao testemunho.
Temas
- Paulo
- #cidadania-romana
- #tribuno
- #direito-romano
- #atos-22
- #jerusalem
- #claudio-lisias
- #acoite