
Como é o amor segundo Paulo? Uma lista de verbos, não de sentimentos
1 Coríntios 13 foi escrito para casamentos? O que Paulo quer dizer com essa descrição do amor?
O amor é paciente, é bondoso; o amor não é invejoso; o amor não é orgulhoso, não é arrogante. O amor não trata mal; não busca os próprios interesses, não se ira, não é rancoroso. Não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo aguenta, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
Resposta curta
O hino ao amor de é lido em casamentos, mas Paulo o escreveu a uma igreja dividida, vaidosa e exibicionista, que disputava dons espirituais. Os quinze predicados dos versículos 4 a 7 são, no grego, quase todos verbos: o amor é paciente, é bondoso, não inveja, não se vangloria, não se ensoberbece, não procura os seus interesses e assim por diante. Cada um responde a um problema concreto de Corinto, da rivalidade ao uso egoísta de dons. Por isso a lista não define o amor como emoção, mas como conduta visível. A paciência do primeiro item ecoa a descrição que o Antigo Testamento faz de Deus como “lento para a ira”, e o amor passa a ser descrito pelo que se faz.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO capítulo não menciona Jesus, e a ligação com ele é indireta. Mesmo assim, a tradição cristã lê a lista como retrato do modo como Cristo tratou os seus: paciente com os discípulos, sem buscar o próprio interesse, suportando tudo. É uma leitura que decorre do conjunto do Novo Testamento, e não do versículo isolado.
Em palavras simples
Muita gente lê esse texto como poesia romântica. Mas Paulo o escreveu para uma igreja cheia de briga, ciúme e orgulho. Por isso, quase tudo o que ele diz sobre o amor são verbos: ser paciente, ser bondoso, não invejar, não se exibir, não buscar o próprio interesse. O amor, para ele, é aquilo que a pessoa faz com os outros, e não só o que sente. Serve para casamentos, mas foi escrito para a igreja.
Contexto histórico
A primeira carta aos Coríntios responde a uma igreja marcada por divisões, disputas judiciais, abusos na ceia e rivalidade entre os que se orgulhavam de seus dons. Os capítulos 12 a 14 tratam dos dons espirituais, e o capítulo 13 está no meio deles, como um parêntese que dá sentido ao resto. Paulo começa dizendo que, sem amor, línguas de homens e de anjos, profecia, conhecimento, fé que remove montanhas e até a entrega do corpo são vazios. Em seguida descreve o amor, nos versículos 4 a 7, e termina com o argumento de que ele permanece quando profecias e línguas cessarem. A palavra grega usada é agape, termo pouco frequente na literatura grega profana e que a tradição bíblica adotou para falar do amor de Deus e do amor que ele pede entre os seus. A lista tem quinze elementos e começa com dois positivos, “é paciente” e “é bondoso”, seguidos de oito negações e cinco afirmações finais. Todos aparecem como verbos, o que não é detalhe: Paulo não define o amor por uma essência, mas por ações. “Não inveja” toca na rivalidade entre grupos que se apegavam a diferentes líderes, como em 1:12. “Não se vangloria” e “não se ensoberbece” apontam para a arrogância criticada em 4:6 e 4:18, quando alguns se achavam superiores. “Não se conduz inconvenientemente” lembra os escândalos descritos nos capítulos 5 e 11. “Não procura os seus interesses” ecoa o princípio de 10:24, de que ninguém busque o próprio bem, mas o do outro. E “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” descreve a resistência de quem não desiste das pessoas, ainda que o contexto fosse de decepção e conflito. O texto é, em síntese, um espelho posto diante de Corinto. O capítulo 14 retoma então a discussão dos dons e mostra que o amor é o critério para usá-los: a profecia é preferida à língua não interpretada justamente porque edifica a igreja.
Aprofundamento
O primeiro verbo da lista, makrothymei, é cheio de história bíblica. Makrothymia significa literalmente ter um ânimo longo, e na tradução grega do Antigo Testamento é a palavra usada para o hebraico erek appayim, “longo de narinas”, isto é, lento para a ira, a descrição que faz de Deus. Ao abrir a lista com esse verbo, Paulo vincula o amor humano ao caráter de Deus. O segundo, chresteuetai, é raro e indica bondade ativa, a disposição de ser útil. Há aqui uma observação importante: na lista de quinze itens, os verbos negativos dominam, e isso não é por acaso. Paulo descreve o amor, em boa parte, pelo que ele deixa de fazer, o que revela a gravidade do que acontecia em Corinto. Um dos verbos, physioutai, “ensoberbece-se”, é usado por Paulo quase só nesta carta (4:6, 4:18, 4:19, 5:2 e 8:1) e sempre para a arrogância dos coríntios. Em 8:1 ele já havia dito que o conhecimento ensoberbece e o amor edifica. O capítulo 13 retoma o tema em forma de resposta. Por isso é difícil sustentar a leitura de que Paulo oferece um ideal de afeto romântico. Comentaristas como Fee, Thiselton e Hays leem o capítulo como exortação a uma igreja que usava dons sem amor. O versículo 8 acrescenta o horizonte final: profecias e línguas terão fim, mas o amor não, e por isso Paulo o chama, em 12:31, de caminho ainda mais excelente. Há, porém, um uso legítimo em casamentos, desde que se reconheça que o texto se dirige primeiro à comunidade. Os verbos descrevem comportamentos que qualquer relação duradoura exige, e o texto é verdadeiro em casa também. Um ponto honesto de debate está na tradução de “tudo sofre” (panta stegei). O verbo stegein pode significar suportar, cobrir ou proteger, e a tradução varia. Alguns entendem que o amor cobre as falhas dos outros, sem expor, enquanto outros veem apenas resistência diante de adversidades. “Tudo crê” e “tudo espera” também não pedem ingenuidade absoluta, mas disposição de dar crédito e de manter a esperança. Por fim, o amor descrito não é uma qualidade que alguém tenha ou não tenha, mas uma prática que se aprende. Na tradição cristã, a figura de Jesus é lida como retrato desse amor, mas o texto, honestamente, não o menciona. A lista pode ser lida como um exame para a vida em comunidade: onde o orgulho tenta ocupar o lugar da paciência, onde se busca o próprio interesse, ali o amor falta.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:1 Coríntios 13 foi escrito para falar do amor entre marido e mulher.
Paulo escreve a uma igreja em conflito, no meio de uma discussão sobre dons espirituais. A aplicação a casamentos é legítima, mas o destinatário original é a comunidade, e os problemas citados são os de Corinto.
Dizem que:O amor, no texto, é um sentimento caloroso que a pessoa tem ou não tem.
A descrição é feita com verbos de conduta: ser paciente, não se vangloriar, não buscar os próprios interesses. O amor que Paulo descreve é visível em atitudes, e pode ser exercitado mesmo quando o sentimento está fraco.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura contextual (comentaristas acadêmicos)
O capítulo é uma exortação à igreja de Corinto, em que cada predicado do amor contrasta com um comportamento coríntio descrito ao longo da carta. Fee, Thiselton e Hays defendem esse enquadramento.
Leitura devocional e pastoral
A lista é usada como espelho de vida cristã, em casamentos, famílias e igrejas, lida como retrato do amor de Deus que os fiéis são chamados a refletir.
Leitura cristológica
Autores cristãos de várias épocas leem o hino como retrato de Cristo. A associação é teológica, e não verificável no próprio texto, que não o nomeia.
No original3 termos
ἀγάπηagapeG26
Amor. Termo raro no grego comum, adotado pela tradição bíblica para o amor de Deus e o amor mútuo dos fiéis, marcado pela doação e não pela atração.
μακροθυμεῖmakrothymeiG3114
É paciente, tem ânimo longo. Na tradução grega do Antigo Testamento, é a palavra que descreve Deus como lento para a ira.
φυσιοῦταιphysioutaiG5448
Ensoberbece-se, incha-se de orgulho. É um verbo característico de 1 Coríntios, aplicado à arrogância dos coríntios.
O que fazer com isso
Em vez de perguntar se sentimos amor, o texto convida a perguntar o que fazemos quando a convivência fica difícil: se esperamos, se somos úteis, se evitamos humilhar. Cada verbo pode virar uma pergunta concreta sobre a família, a igreja ou o trabalho. Casais podem lê-lo juntos, desde que ele sirva para o exame de si mesmo, e não para cobrar o outro.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Gordon D. Fee. The First Epistle to the Corinthians (NICNT), 1987.
- Anthony C. Thiselton. The First Epistle to the Corinthians (NIGTC), 2000.
- Richard B. Hays. First Corinthians (Interpretation), 1997.
- D. A. Carson. Showing the Spirit: A Theological Exposition of 1 Corinthians 12–14, 1987.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Posso usar 1 Coríntios 13 em casamentos?
Pode, porque os comportamentos descritos valem para qualquer relação. Convém lembrar que o texto foi escrito a uma igreja e que serve primeiro para examinar a si mesmo.
Por que a lista tem tantas negações?
Porque Paulo responde a problemas reais de Corinto, como inveja, arrogância e busca de interesse próprio. Descrever o amor pelo que ele evita mostra o que estava errado na igreja.
O que significa “tudo sofre”?
O verbo stegein pode ser traduzido como suportar, cobrir ou proteger. Os intérpretes discutem se o amor cobre as falhas dos outros ou apenas resiste à adversidade, e as duas ideias combinam com o contexto.