
O que significa ver “como por espelho, obscuramente” em 1 Coríntios 13:12
O que Paulo quer dizer com ver “como por espelho, obscuramente” e depois “face a face”?
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; mas quando me tornei homem, aniquilei as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei assim como sou conhecido.
Resposta curta
Em , Paulo escreve: “Agora vemos por espelho, em enigma; então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então conhecerei como também sou conhecido”. Os espelhos da época eram de metal polido, e o de bronze, em que Corinto era famosa, dava uma imagem real, porém imperfeita e sem nitidez. Paulo usa essa imagem para dizer que o conhecimento atual de Deus, mesmo verdadeiro, é parcial e indireto, e que o futuro trará um encontro direto. O texto aparece no capítulo do amor, dentro da discussão sobre dons espirituais, e serve para mostrar que o amor permanece enquanto os dons passam. “Face a face” é uma expressão hebraica de proximidade, usada em relatos como o de Moisés e o de Jacó.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO “face a face” do futuro se cumpre no encontro com Cristo na sua volta. Outros textos dizem que, ao vê-lo como ele é, seremos semelhantes a ele, e que agora já contemplamos a sua glória como num espelho e somos transformados.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Paulo compara o nosso conhecimento de Deus hoje a olhar num espelho antigo de metal polido: a imagem existe, mas não é nítida. No futuro, diz ele, veremos “face a face”, ou seja, de perto e sem intermediários. Agora conhecemos só em parte, mas então conheceremos de verdade, assim como Deus já nos conhece. A frase aparece no capítulo do amor para mostrar que o amor continua quando os dons e o conhecimento parcial acabarem.
Contexto histórico
O capítulo 13 é parte de uma seção maior, os capítulos 12 a 14, em que Paulo trata dos dons espirituais na igreja de Corinto. Os coríntios, que haviam recebido uma igreja rica em dons (1:7), valorizavam muito os dons visíveis, especialmente as línguas, e os usavam como marca de superioridade. Paulo responde mostrando que os dons são distribuídos pelo Espírito para o bem comum (cap. 12) e que o amor é o caminho “ainda mais excelente” (12:31). O capítulo 13 tem três partes. Nos versículos 1 a 3, ele afirma que sem amor os dons e até sacrifícios extremos de nada valem. Esses três versículos formam uma espécie de hino em prosa. Nos versículos 4 a 7, descreve o amor em quinze qualidades curtas. Nos versículos 8 a 13, contrasta o que passa com o que permanece. Profecias, línguas e conhecimento são dons para o tempo presente e serão superados, mas a fé, a esperança e o amor permanecem, e o maior deles é o amor. É nesse bloco final que aparecem os versículos 11 e 12. No versículo 11, Paulo usa uma analogia da infância: “Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino, raciocinava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino”. A imagem não despreza a infância, mas indica que o presente é estágio de crescimento diante de uma plenitude futura. No versículo 12 vem a segunda imagem, a do espelho. Corinto era uma cidade portuária e comercial, famosa pelo bronze, e o bronze polido era material comum para espelhos. Vidro de boa qualidade não era comum na época, e os espelhos mostravam a face de modo reconhecível, mas pouco nítido. Esse pano de fundo mostra que Paulo escolhe uma imagem do cotidiano de Corinto, e não um conceito abstrato. Os leitores entendiam bem a ideia de uma imagem verdadeira, porém limitada.
Aprofundamento
O versículo 12 tem três pares de contrastes: agora e então, espelho e face a face, em parte e plenamente. O verbo “vemos” aparece no presente: Paulo se inclui na limitação. A frase “por espelho” (di' esoptrou) é seguida por “em enigma” (en ainigmati). A palavra ainigma é a origem de “enigma” e indica algo dito de forma indireta, que exige interpretação. O termo aparece na tradução grega de , em que o Senhor diz que fala com Moisés “boca a boca”, claramente e “não em enigmas”, ao contrário dos outros profetas, que recebem visões e sonhos. Paulo usa o contraste de Números para dizer que o conhecimento atual dos crentes é do tipo indireto, como o dos profetas comuns, enquanto o futuro será como o de Moisés, direto. A expressão “face a face” (prosopon pros prosopon) corresponde ao hebraico panim el panim, que aparece em , quando Jacó diz ter visto Deus face a face e sua vida foi preservada, e em , onde o Senhor falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo. É um hebraísmo para presença imediata e pessoal. O que isso diz sobre o espelho? Alguns leitores entendem que o espelho distorce, e que o problema é a qualidade da imagem. Outros notam que, no texto, o contraste é entre mediação e presença direta, e não entre verdade e erro. O espelho mostra algo real, só que de modo limitado. Em , Paulo usa imagem parecida de maneira positiva, falando de contemplar a glória do Senhor “como por espelho”. Isso sugere que a imagem não indica ilusão, mas visão real e parcial. A última frase, “conhecerei como também sou conhecido”, não promete conhecimento infinito de Deus, e sim um conhecimento pleno no sentido relacional, correspondente ao conhecimento que Deus já tem de nós. Há também um debate sobre o “perfeito” do versículo 10, que alguns relacionam ao cânon completo e outros à volta de Cristo. O versículo 12, com sua referência a ver face a face, favorece a segunda leitura, pois o encontro direto com Deus não aconteceu no final do primeiro século. Convém notar que o texto não despreza o que se conhece agora: afirma que é verdadeiro, mas incompleto. Isso traz humildade para a teologia e confiança para a fé, porque o que se espera é aquilo de que já se tem sinais.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:O espelho de Paulo era de vidro perfeito, por isso a imagem era nítida.
Os espelhos da época eram de metal polido, em geral bronze, e davam uma imagem pouco nítida. Por isso a comparação faz sentido: Paulo fala de um conhecimento real, mas imperfeito.
Dizem que:Paulo diz que não podemos saber nada de Deus agora.
O texto afirma que conhecemos “em parte”, não que não conhecemos. Outras passagens de Paulo tratam o conhecimento de Deus como real e transformador. A limitação é de grau e de modo, e não de verdade.
Dizem que:“Face a face” é uma expressão inventada por Paulo para falar do céu.
A expressão vem do hebraico panim el panim, usada em e . Paulo a usa no mesmo sentido de presença direta, que o público judeu e judaico-cristão reconheceria.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura da volta de Cristo
Gordon Fee e Anthony Thiselton entendem que “então” se refere ao encontro com Cristo na sua volta. O “face a face” e o “conhecer como sou conhecido” descrevem a plenitude futura, que ainda não chegou.
Leitura do cânon completo
Algumas tradições, ao tratar o “perfeito” do versículo 10 como a revelação bíblica completa, aplicam o versículo à cessação de certos dons. O versículo 12, porém, fala de um ver face a face que dificilmente se cumpriu apenas com a conclusão das Escrituras.
Leitura sapiencial e pastoral
Enfatiza a humildade epistemológica do texto: o conhecimento atual é verdadeiro e limitado. Por isso a teologia deve ser firme no essencial e aberta no resto, sem substituir o amor por certezas.
No original3 termos
ἔσοπτρονesoptronG2072
Espelho, em geral de metal polido. Na época, bronze polido dava imagem real, mas pouco nítida. É a palavra do versículo 12.
αἴνιγμαainigmaG135
Enigma, expressão indireta ou obscura. Dá a ideia de algo que exige interpretação. Em (LXX) contrasta com a fala direta de Deus a Moisés.
פָּנִים אֶל־פָּנִיםpanim el panimH6440
Face a face. Expressão hebraica para encontro direto e pessoal, usada de Jacó em e de Moisés em . O Strong indicado é o de panim, “face”.
O que fazer com isso
O versículo convida a conciliar convicção e humildade. O que sabemos de Deus é real, mas parcial, e isso deveria nos tornar mais pacientes com quem pensa diferente e menos apressados em dar respostas fechadas a mistérios. Também consola quem convive com perguntas sem resposta: o texto promete um encontro direto em que o que hoje está embaçado será visto com clareza.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Gordon D. Fee. The First Epistle to the Corinthians (NICNT), 1987.
- Anthony C. Thiselton. The First Epistle to the Corinthians (NIGTC), 2000.
- D. A. Carson. Showing the Spirit: A Theological Exposition of 1 Corinthians 12-14, 1987.
- Craig S. Keener. 1-2 Corinthians (New Cambridge Bible Commentary), 2005.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Paulo compara o conhecimento a um espelho?
Porque os espelhos de metal polido mostravam uma imagem real, mas imperfeita. A comparação indica que o conhecimento atual de Deus é verdadeiro, porém parcial e indireto.
O que quer dizer “conhecerei como também sou conhecido”?
É uma promessa de conhecimento pleno, no sentido pessoal e relacional, que corresponde ao modo como Deus já nos conhece. Não significa saber tudo o que Deus sabe.
Quando acontecerá o “face a face” de que Paulo fala?
A maioria dos comentaristas o liga à volta de Cristo e à consumação, quando o encontro será direto. O texto usa “então” sem dar data.
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