A mulher de Ló
Quem foi a mulher de Ló que virou estátua de sal?
Ficha do personagem
Cerca do segundo milênio a.C.; Sodoma, perto do mar Morto
Resposta curta
A mulher de Ló não é nomeada na Bíblia. Ela aparece em , quando dois anjos conduzem Ló, sua esposa e suas duas filhas para fora de Sodoma, pouco antes de a cidade ser destruída. Os anjos pedem que não olhem para trás, mas, no caminho, ela olha e se transforma em uma coluna de sal (). O texto não explica o motivo do olhar nem dá detalhes do que aconteceu com ela. Jesus a menciona em , ao falar do dia da vinda do Filho do Homem, com a ordem curta: “Lembrai-vos da mulher de Ló”. Por isso, a passagem é lida há séculos como um aviso, ainda que as razões exatas do episódio continuem em aberto.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaCristo menciona a mulher de Ló diretamente em , no discurso sobre a vinda do Filho do Homem, e a usa como advertência: em um momento decisivo, não se deve voltar atrás por apego ao que se deixa. O vínculo com o texto de Gênesis é, portanto, indireto e declarado pelo próprio Jesus, sem que ela seja apresentada como figura de alguém. O versículo seguinte () liga a advertência ao princípio de perder a vida para salvá-la. Nada disso converte a personagem em tipo de Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
A mulher de Ló viveu em Sodoma com o marido e as duas filhas. Quando a cidade ia ser destruída, anjos mandaram a família fugir sem olhar para trás. No caminho, ela olhou e virou uma coluna de sal. A Bíblia não diz o nome dela nem explica por que ela olhou. Jesus a cita em , dizendo “Lembrai-vos da mulher de Ló”, como advertência para não se apegar ao que fica para trás.
O mundo dele
A mulher de Ló aparece no desfecho do ciclo de Abraão. Ló, sobrinho de Abraão, havia se separado do tio e se instalado perto de Sodoma, na planície do Jordão (), região que o texto liga ao mar Morto. A localização exata de Sodoma é debatida: algumas propostas a situam no sul do mar Morto, outras no norte, e não há consenso arqueológico. Fica claro, porém, que ela pertencia a uma área próxima da depressão do mar Morto, onde há sal, betume e enxofre em abundância, o que ajuda a entender o cenário do relato.
A família chega a Sodoma, onde Ló aparece sentado “à porta” da cidade, lugar de decisões e de hospitalidade (). Os capítulos 18 e 19 narram a visita dos mensageiros divinos, a intercessão de Abraão, a violência da cidade contra os hóspedes de Ló e a ordem de fuga. A Bíblia associa a ruína de Sodoma a pecados diversos: a violação da hospitalidade (), a arrogância e a negligência com os pobres () e, em , a imoralidade sexual. Cada texto destaca um aspecto diferente.
Quanto à esposa, o texto diz pouco: ela é “a mulher de Ló”, mãe de duas filhas (), e nada mais sobre sua origem, idade ou caráter. menciona ainda genros que não levaram a sério o aviso de Ló, o que sugere uma família com laços na cidade. A tradição judaica posterior preencheu a lacuna sobre a personagem, e o nome “Idit” aparece em fontes rabínicas tardias, mas não na Bíblia.
A ordem dos anjos, em , é direta: “Escapa por tua vida; não olhes para trás de ti, nem pares em toda esta planície”. O verbo está no singular, dirigido a Ló. O caminho, porém, é de todos, e diz que os homens agarraram pela mão Ló, a mulher e as duas filhas, “porque o Senhor teve compaixão dele”. A fuga acontece ao amanhecer, e o texto registra que Ló hesitou antes de sair (), o que mostra que a urgência era real e que a saída não foi simples para ninguém da família.
A história
O relato de é de uma brevidade que contrasta com a gravidade do que descreve. O sol nasce sobre a terra quando Ló chega a Zoar, e o Senhor faz chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. Então: “E a mulher de Ló olhou para trás dele e converteu-se numa estátua de sal” (19:26). O hebraico usa a palavra netsiv, que significa “coluna”, “pilar” ou “monumento”, e “estátua” é uma tradução popular. A expressão “olhou para trás dele” sugere que ela vinha logo atrás de Ló. O texto não diz como se deu a transformação nem que sentimento a movia. As hipóteses comuns são apego à vida deixada para trás, curiosidade, dúvida da palavra divina ou compaixão pelos que ficaram, mas nenhuma é afirmada.
Há ecos do relato fora de Gênesis. A Sabedoria de Salomão 10:7, livro aceito como canônico por católicos e ortodoxos, fala da “coluna de sal” como “monumento de uma alma incrédula”, o que mostra uma leitura judaica antiga que enfatiza a incredulidade. Flávio Josefo escreveu, no século I, que viu a coluna ainda de pé (Antiguidades 1.11.4), declaração que não pode ser verificada. Formações de sal na região, como as do monte Sedom, na margem sudoeste do mar Morto, levaram viajantes a apontar “a mulher de Ló” em tempos modernos; a identificação é popular, e não afirmação do texto. Tentativas de explicar o relato por causas naturais, como terremoto ou liberação de gases e betume, são hipóteses de estudiosos; o texto bíblico apresenta o fato como ação divina.
O Novo Testamento a menciona uma única vez. Em , Jesus compara o dia do Filho do Homem aos dias de Noé e de Ló: as pessoas comiam, bebiam, compravam e construíam até o momento do juízo. Ele então diz que, naquele dia, quem estiver no terraço não deve descer para pegar seus bens, e quem estiver no campo não deve voltar atrás, e acrescenta: “Lembrai-vos da mulher de Ló” (17:32). No versículo seguinte, afirma que “quem procurar preservar a sua vida perdê-la-á; e quem a perder, preservá-la-á” (17:33). A ligação sugere que o problema, na leitura de Jesus, era o apego ao que ficava para trás, mas ele não cita o motivo dela; usa o episódio como advertência sobre urgência e desapego.
Também importa lembrar o que o texto não diz: não afirma que olhar para trás seja, em si, pecado universal, nem faz dela um símbolo geral das mulheres. O texto fala de uma pessoa em um momento específico, sob uma ordem específica, e as leituras posteriores devem ser tratadas como interpretação.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:A mulher de Ló virou uma estátua de sal.
O hebraico de usa netsiv melach, “coluna” ou “pilar de sal”. “Estátua” é uma tradução popular que sugere uma figura humana moldada, algo que o texto não afirma.
Dizem que:A Bíblia diz que ela olhou para trás por desobediência, saudade ou apego aos bens.
só registra o ato de olhar e o resultado. Os motivos são hipóteses de leitores posteriores. Jesus, em , usa o caso como advertência sobre apego, mas não declara a intenção dela.
Dizem que:Ela se chamava Edite, Sara ou algum outro nome registrado na Bíblia.
A Bíblia não dá nome a ela. O nome “Idit” aparece em fontes rabínicas tardias, e outras tradições propõem nomes diferentes, sem base em Gênesis.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
O Midrash e Rashi relacionam o destino dela ao sal: segundo essa tradição, ela teria recusado dar sal aos hóspedes ou avisado os vizinhos sobre os visitantes, e por isso foi punida com sal. É uma leitura que preenche, com um episódio imaginado, o silêncio do texto.
Católica e ortodoxa
Além de , a tradição católica e ortodoxa lê Sabedoria 10:7, que chama a coluna de sal de “monumento de uma alma incrédula”. Agostinho, em A Cidade de Deus (livro 16), lê o episódio como advertência a quem, depois de ser libertado, volta o coração para o que deixou para trás.
Protestante e reformada
Reformadores como Calvino a leem como exemplo de incredulidade e de desprezo pela misericórdia divina, que havia tirado a família de Sodoma. Na leitura evangélica comum, o episódio funciona como alerta contra o apego ao mundo e a hesitação diante do chamado de Deus.
O que fazer com isso
A mulher de Ló mostra que a Bíblia pode narrar um fato grave em poucas palavras e deixar o leitor com perguntas. Jesus escolheu o episódio como advertência sobre o apego ao que se deixa para trás em um momento decisivo, mas não o transformou em regra sobre qualquer olhar ou lembrança. Nem toda saudade é incredulidade. A passagem pede atenção ao que o texto afirma e humildade diante do que ele omite.
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Fontes consultadas6
- Gordon J. Wenham. Genesis 16–50 (Word Biblical Commentary), 1994.
- Nahum M. Sarna. Genesis (JPS Torah Commentary), 1989.
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas (livro 1).
- Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus (livro 16).
- João Calvino. Comentário ao Gênesis, 1554.
- James L. Kugel. Traditions of the Bible, 1998.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual era o nome da mulher de Ló?
A Bíblia não diz. Fontes rabínicas tardias a chamam de Idit, mas esse nome não está em Gênesis nem no Novo Testamento.
Por que ela olhou para trás?
O texto não explica. As leituras posteriores falam de apego à vida em Sodoma, curiosidade, incredulidade ou compaixão pelos que ficaram, mas nenhuma é afirmada em .
A coluna de sal existe até hoje?
Josefo disse tê-la visto no século I, mas essa declaração não pode ser verificada. Formações de sal do monte Sedom, perto do mar Morto, são apontadas hoje como “a mulher de Ló”, o que é tradição popular e não confirmação do texto.
Por que Jesus citou a mulher de Ló?
Em , Jesus a lembra ao falar do dia do Filho do Homem, para advertir contra voltar atrás por apego ao que ficou para trás. O versículo seguinte liga o aviso à ideia de perder a vida para salvá-la.