Ana, mãe de Samuel
Quem foi Ana, mãe de Samuel, na Bíblia?
Ficha do personagem
fim do período dos juízes, séc. XI a.C.
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Resposta curta
Ana foi uma das duas esposas de Elcana, um efrainita de Ramataim. A outra esposa, Penina, tinha filhos; Ana, não — e vivia sob provocação constante, principalmente nas peregrinações anuais da família ao santuário de Siló, onde chorava e recusava comer. Numa dessas visitas, orou tão silenciosamente, só mexendo os lábios, que o sacerdote Eli a confundiu com uma mulher bêbada.
Ana explicou que estava derramando sua angústia diante do Senhor, e prometeu devolver ao santuário o filho que pedia. Nasceu Samuel; desmamado, ele foi entregue a Eli, como prometido. Ali Ana entoou um cântico de louvor — — que celebra um Deus que inverte destinos, derruba poderosos e levanta os humildes, tema que ressurge séculos depois no cântico de Maria, em .
Onde ele aparece
O nome
Ana — graça, favor
Significado, origem e variantes →Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO Cântico de Ana () é um poema de louvor que celebra um Deus que humilha o poderoso e exalta o humilde, empobrece e enriquece, e termina anunciando que o Senhor "dará força ao seu rei e exaltará o poder do seu ungido" — numa época em que Israel ainda não tinha rei ungido algum. Esse padrão de reversão — os fracos exaltados, os poderosos derrubados — reaparece de forma marcante no cântico de Maria em , o Magnificat, entoado justamente no anúncio do nascimento daquele que a tradição cristã reconhece como o ungido definitivo, o Cristo. A ligação entre os dois textos é reconhecida amplamente por estudiosos do Novo Testamento, embora o grau exato de dependência literária de Lucas em relação a seja debatido academicamente; o que é menos discutido é a continuidade temática: um tema de reversão que atravessa a história bíblica e culmina no nascimento de Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Ana era casada com Elcana, que tinha outra esposa, Penina, e essa outra mulher tinha filhos enquanto Ana não conseguia engravidar. Sofrendo com isso, Ana foi ao templo de Siló e orou em silêncio, tão intensamente que o sacerdote Eli achou que ela estivesse bêbada. Deus atendeu seu pedido e ela teve um filho, Samuel, que depois de desmamado foi entregue para servir no templo, cumprindo a promessa que ela havia feito.
O mundo dele
A história de Ana está no início de 1 Samuel, no fim do período dos juízes, quando Israel ainda não tinha rei e a liderança religiosa em Siló, onde ficava o tabernáculo, já dava sinais de decadência — os próprios filhos do sacerdote Eli, Hofni e Fineias, abusavam da função sacerdotal (). É nesse cenário de crise de liderança que nasce Samuel, o profeta que ungirá Saul e depois Davi.
Elcana, marido de Ana, era efrainita, da cidade de Ramataim, e tinha duas esposas — prática registrada na Bíblia sem ser recomendada como padrão, e associada nos relatos do Antigo Testamento a tensão doméstica, como já acontecera com Sara e Hagar, ou Raquel e Lia. Penina tinha filhos e usava isso para provocar Ana, "para irritá-la", diz o texto (), sobretudo na peregrinação anual da família a Siló para oferecer sacrifícios.
A esterilidade de Ana a coloca numa linha de mulheres bíblicas que, segundo a narrativa, tiveram filhos importantes só depois de um longo período de espera — Sara, Raquel, a mãe de Sansão, mais tarde Isabel, mãe de João Batista. Comentaristas como Keil e Delitzsch observam que esse padrão narrativo sublinha que o nascimento desses filhos depende da ação direta de Deus, não apenas da fertilidade natural.
Depois de consagrar Samuel, Ana teve mais cinco filhos — três homens e duas mulheres () —, o que a narrativa apresenta como bênção adicional após ela ter cumprido o voto de devolver o primeiro filho ao serviço do santuário. Seu cântico em é um dos poemas mais elaborados do Antigo Testamento anteriores à monarquia, e termina mencionando "o ungido" do Senhor (2:10) — termo que em hebraico corresponde a "mashiach" — numa época em que Israel ainda não tinha nenhum rei ungido reinando sobre suas tribos.
A história
A cena central da história de Ana acontece em Siló: depois de mais uma provocação de Penina, ela sobe ao tabernáculo e ora "com amargura de alma", chorando muito (). O texto diz que ela orava "em seu coração", movendo os lábios sem emitir som — um detalhe que hoje soa comum, mas que aparentemente destoava do costume da época, pois Eli, vendo aquilo de longe, concluiu que ela estava bêbada e a repreendeu (). A resposta de Ana é serena: ela nega ter bebido vinho ou bebida forte e explica que estava "derramando a alma diante do Senhor" por causa de "muita preocupação e provocação" (1:15-16). Eli, então, muda de postura e a abençoa.
Antes disso, Ana já havia feito um voto: se Deus lhe desse um filho homem, ela o devolveria ao Senhor "todos os dias da sua vida", e nenhuma navalha passaria sobre a cabeça dele () — uma fórmula que lembra o voto nazireu descrito em . O nome do filho, Samuel, é ligado no texto ao verbo "pedir" (interpretação popular de "ouvido por Deus" ou "pedido a Deus"; estudiosos como os autores do léxico BDB registram debate sobre a etimologia exata do nome). Depois de desmamá-lo — o que no contexto podia significar dois ou três anos de idade —, Ana cumpre o voto e leva o menino a Eli, deixando-o para servir no santuário ().
É nesse momento que ela canta o poema de , conhecido como o Cântico de Ana. Nele, ela não fala apenas da própria alegria pessoal, mas de um Deus que humilha e exalta, empobrece e enriquece, derruba os poderosos do trono e levanta o pobre do pó — um padrão de reversão que muitos leitores, ao longo dos séculos, notaram ecoar de perto no cântico de Maria em , o Magnificat: ambas as mulheres, em situações de humilhação social, louvam a Deus por reverter sua condição, e ambos os cânticos citam temas semelhantes — o orgulho dos poderosos derrubado, os famintos saciados, os humildes exaltados. Estudiosos como os comentaristas do Novo Testamento discutem se Lucas cita Ana de memória, se usa uma tradição litúrgica judaica já influenciada por , ou ambos — a extensão exata da dependência literária entre os dois textos é debatida academicamente, mas o paralelo temático e até verbal entre as duas passagens é amplamente reconhecido.
Depois de deixar Samuel em Siló, Ana visitava o filho uma vez por ano, levando-lhe uma túnica nova () — um dos detalhes mais afetuosos e discretos do Antigo Testamento sobre maternidade à distância.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Ana nunca mais teve filhos depois de entregar Samuel ao santuário.
O texto de diz explicitamente que, depois de consagrar Samuel, Ana teve mais três filhos e duas filhas.
Dizem que:Eli expulsou Ana do santuário por achá-la bêbada.
O texto registra uma repreensão verbal de Eli, mas assim que Ana se explicou ele mudou de tom e a abençoou, desejando que Deus atendesse seu pedido ().
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo
Ana é frequentemente lida como prefigurando Maria: ambas mulheres de fé que entregam o filho a Deus e entoam cânticos de louvor que celebram a reversão dos poderosos pelos humildes, ainda que sem equivaler Samuel a Cristo.
Ortodoxia Oriental
A tradição ortodoxa venera Ana como exemplo de oração perseverante e a associa, na liturgia, à figura de Ana profetisa do Evangelho de Lucas, reforçando a continuidade entre a piedade veterotestamentária e a do Novo Testamento.
Protestantismo evangélico
Leituras evangélicas costumam destacar o exemplo pessoal de Ana — sua entrega em oração e o cumprimento do voto — como modelo de confiança individual em Deus, sem necessariamente ler tipologia mariana no relato.
Judaísmo (perspectiva histórico-literária citada por comentaristas cristãos)
Comentaristas que dialogam com a tradição rabínica notam que a oração silenciosa de Ana é citada em fontes judaicas posteriores como modelo litúrgico para a oração pessoal (a Amidá), distinto da leitura cristã que a conecta ao Magnificat.
O que fazer com isso
A história de Ana costuma ser lembrada por causa da espera e da dor da esterilidade, mas o detalhe mais marcante talvez seja outro: sua oração foi tão intensa e silenciosa que alguém de fora a interpretou mal. O texto bíblico não trata isso como motivo de vergonha para ela, mas registra com naturalidade tanto o mal-entendido quanto a correção de Eli logo em seguida.
Passagens relacionadas6
Fontes consultadas3
- Keil, C. F. e Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament, 1878.
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Brown, Driver, Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem foi Ana na Bíblia?
Ana foi uma das duas esposas de Elcana, mencionada no início de 1 Samuel. Era estéril, sofria provocações da outra esposa, Penina, e após orar intensamente em Siló teve um filho, Samuel, que se tornaria um dos grandes profetas de Israel.
Por que o sacerdote Eli achou que Ana estava bêbada?
Porque ela orava em silêncio, apenas movendo os lábios sem emitir som, algo que aparentemente destoava do costume da época. Eli a repreendeu, mas mudou de postura assim que ela explicou que estava angustiada, não embriagada.
Qual foi o voto que Ana fez a Deus?
Ela prometeu que, se tivesse um filho homem, o devolveria ao serviço do Senhor por toda a vida, seguindo uma fórmula semelhante ao voto nazireu de . Ela cumpriu o voto assim que Samuel foi desmamado.
O cântico de Ana tem relação com o cântico de Maria?
Sim, o Cântico de Ana em tem paralelos temáticos e até verbais fortes com o Magnificat de Maria em . Estudiosos debatem o grau exato de dependência literária entre os dois textos, mas o parentesco entre eles é amplamente reconhecido.