
Ló escolheu Sodoma por ambição ou por acaso?
Ló sabia que Sodoma era uma cidade má quando decidiu morar lá?
E levantou Ló seus olhos, e viu toda a planície do Jordão, que toda ela era bem regada, antes que destruísse o SENHOR a Sodoma e a Gomorra, como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito entrando em Zoar. Então Ló escolheu para si toda a planície do Jordão: e partiu-se Ló ao Oriente, e separaram-se um do outro. Abrão assentou na terra de Canaã, e Ló assentou nas cidades da planície, e foi pondo suas tendas até Sodoma. Mas os homens de Sodoma eram maus e pecadores para com o SENHOR em grande maneira.
Resposta curta
Depois de uma disputa entre os pastores de Abrão e de Ló, os dois decidem se separar, e Abrão dá a Ló a primeira escolha de terra. Ló olha para a planície do Jordão e vê uma região "bem irrigada, como o jardim do Senhor", fértil e generosa para os rebanhos — e escolhe morar perto de Sodoma. O mesmo versículo que descreve a fartura da terra também avisa, sem rodeios, que os homens daquelas cidades "eram extremamente maus e pecadores contra o Senhor". Ló vê o benefício econômico e segue adiante mesmo com o aviso já registrado ao lado; o texto não deixa dúvida de que a informação estava disponível antes da mudança.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteAbrão renuncia ao direito de escolher primeiro e ainda assim permanece na presença e na promessa de Deus; Ló escolhe a fartura visível e acaba perdendo quase tudo. O contraste prefigura o princípio que Jesus ensinaria depois, de que quem busca primeiro o próprio ganho pode perder o que realmente importa, enquanto quem cede lugar é sustentado por Deus.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Quando os rebanhos de Abrão e de Ló cresceram demais para a mesma terra, Abrão deixou Ló escolher primeiro onde morar. Ló viu a região do Jordão, cheia de água e boa para os animais, e escolheu ficar perto de Sodoma. O mesmo texto que descreve essa fartura já avisa que os moradores de Sodoma eram muito maus. Ló parece ter olhado só para o benefício econômico e ignorado o aviso — uma escolha que, capítulos depois, custaria caro para ele e sua família.
Contexto histórico
chega depois do episódio no Egito, com Abrão de volta a Canaã, agora visivelmente próspero em gado, prata e ouro. Ló, seu sobrinho, viaja com ele e também acumulou bens. A prosperidade dos dois clãs, porém, gera um problema prático: terra e pasto não bastam para sustentar os rebanhos de ambos ao mesmo tempo, e os pastores de Abrão e de Ló começam a brigar por espaço.
Abrão resolve o conflito de um jeito notável para os padrões da época: em vez de impor sua autoridade como líder do clã e patriarca mais velho, propõe a separação e cede a Ló o direito de escolher primeiro qual região quer para si. É um gesto de generosidade que contrasta com a lógica de disputa por recursos que abriu o capítulo.
Ló então sobe a um ponto alto e observa toda a planície do Jordão, e o texto descreve o que ele vê com linguagem de abundância: terra bem irrigada, comparável ao próprio jardim do Éden antes do dilúvio, ideal para sustentar grandes rebanhos. É uma escolha racionalmente sensata do ponto de vista puramente agropecuário — a melhor terra disponível, sem dúvida.
O problema é que o mesmo parágrafo que elogia a fertilidade da região insere, sem transição suave, a informação de que os homens de Sodoma e Gomorra eram extremamente maus e pecadores diante do Senhor. Essa frase não é um comentário do narrador feito depois do fato para justificar o juízo que viria; ela aparece exatamente no momento da escolha, como parte da informação disponível a Ló antes de ele armar sua tenda perto da cidade. O texto deliberadamente junta fartura e aviso no mesmo fôlego, deixando o leitor — e Ló — sem desculpa de ignorância. Pouco depois, o texto reforça a promessa feita a Abrão, que fica na terra menos vistosa: tudo o que ele vir será dado à sua descendência, e sua posteridade será incontável como a poeira da terra — um contraponto explícito entre quem cede a primeira escolha e quem a toma para si.
Aprofundamento
A construção literária de é mais deliberada do que parece numa primeira leitura rápida. O narrador descreve o olhar de Ló com um verbo de contemplação demorada — ele levanta os olhos e vê toda a planície —, o mesmo tipo de olhar avaliador que Eva lança sobre o fruto proibido em e que Davi lança sobre Bate-Seba em . A tradição interpretativa judaica e cristã já notou esse padrão: nos três casos, alguém vê algo desejável, avalia o benefício imediato e decide sem consultar a informação moral disponível.
É importante não simplificar demais Ló como vilão puro. A decisão de morar perto de Sodoma, e não dentro dela, sugere que ele buscava proximidade econômica sem necessariamente pretender adotar os costumes da cidade. Só que o capítulo seguinte já o mostra vivendo dentro de Sodoma, e revela um homem plenamente integrado à vida social da cidade, com filhas comprometidas a homens de lá — sinal de que a proximidade geográfica virou, com o tempo, pertencimento social.
Comentaristas como Nahum Sarna observam que o texto contrasta deliberadamente as duas escolhas: Abrão, que cede o direito de escolha e acaba morando na terra menos fértil, mas permanece próximo de Deus, contra Ló, que escolhe a fartura material e termina, poucos capítulos depois, perdendo tudo no julgamento de Sodoma e Gomorra. A estrutura narrativa funciona quase como parábola sobre prioridades: a terra parecia um jardim do Senhor, mas escondia um julgamento a caminho.
Vale notar que o aviso sobre a maldade de Sodoma em 13:13 antecede em vários capítulos qualquer relato específico do pecado da cidade — a destruição só vem em , e o pecado ali descrito envolve violência sexual coletiva contra visitantes, quebra grave do código de hospitalidade da região. O texto de já sabe disso e avisa antes; Ló, tendo a mesma informação disponível na narrativa, escolhe mesmo assim morar ali, o que torna sua ruína posterior menos acidente de percurso e mais consequência de uma escolha feita de olhos abertos. A ironia final da narrativa é geográfica: a planície tão bem irrigada que atraiu Ló fica, depois da destruição de Sodoma e Gomorra, associada na tradição bíblica posterior a uma paisagem de enxofre e sal, e não mais ao jardim do Senhor que ele viu do alto do monte. O que parecia o melhor negócio possível se revela, em poucos capítulos, o pior lugar possível para se estabelecer — um lembrete de que a fertilidade visível de uma terra nada diz sobre a segurança moral de viver nela.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:Ló não sabia que Sodoma era uma cidade perversa quando escolheu morar lá.
O próprio texto de registra a maldade de Sodoma no mesmo trecho que narra a escolha de Ló, como informação disponível na história antes da mudança, e não como julgamento feito só depois, em retrospecto, pelo narrador.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura moral clássica
Ló é lido como exemplo de decisão guiada por interesse material que ignora sinais de alerta espiritual, preparando o leitor para entender sua quase destruição em como consequência, não como puro infortúnio.
Leitura mais compassiva (tradição rabínica)
Alguns comentaristas judaicos tratam Ló com mais indulgência, notando que ele escolhe morar perto de Sodoma, não dentro dela, e que sua integração posterior à cidade foi processo gradual, não decisão única e plenamente consciente do desastre que viria.
No original1 termo
כִּכְּר הַיַּרְדֵּןkikkar ha-Yarden
"Planície" ou "círculo" do Jordão. A palavra descreve uma região circular e fértil, reforçando visualmente a imagem de abundância que atrai o olhar de Ló antes do aviso sobre a maldade dos seus habitantes.
O que fazer com isso
O texto não condena a busca por prosperidade em si — Abrão também prospera, e a bênção divina inclui bens materiais em várias partes de Gênesis. O que o capítulo questiona é decidir olhando só para o benefício imediato e ignorando o aviso moral que já está disponível ao lado da oportunidade. Ló não foi enganado; foi seletivo com a informação que escolheu levar em conta antes de se mudar.
Passagens relacionadas4
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Fontes consultadas2 obras
- Nahum M. Sarna. Genesis (JPS Torah Commentary), 1989.
- Gordon J. Wenham. Genesis 1-15 (Word Biblical Commentary), 1987.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Ló era uma pessoa má por escolher morar perto de Sodoma?
O texto não o retrata como vilão, mas como alguém que priorizou o benefício material visível sobre o alerta moral disponível. depois o chama de justo, angustiado pela maldade que via ao redor, o que sugere um quadro mais complexo do que simples cobiça.