José de Arimateia
Quem foi José de Arimateia na Bíblia?
Ficha do personagem
Judeia, c. 30-33 d.C. (Paixão de Jesus)
Relações
- companheiro no sepultamento Nicodemos
- pediu o corpo a Pôncio Pilatos
- colega de conselho de Sinédrio
Resposta curta
José de Arimateia foi um homem rico e respeitado, membro do conselho judaico em Jerusalém, que se tornou discípulo de Jesus. Os quatro evangelhos o mencionam no mesmo momento: ao fim da tarde da sexta-feira da crucificação, ele pediu a Pilatos o corpo de Jesus. Autorizado, desceu-o da cruz, envolveu-o em um lençol limpo e o depositou em um túmulo novo, escavado na rocha, que era seu.
Os evangelhos o descrevem como homem bom e justo, que esperava o reino de Deus e não concordara com a decisão contra Jesus. João acrescenta que era discípulo em segredo, por medo. Fora dessas linhas, a Bíblia nada diz sobre ele. As histórias sobre o Santo Graal e sobre uma viagem à Inglaterra surgiram séculos depois e não têm base nos textos.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO sepultamento por um homem rico, em túmulo novo e não em uma vala comum de condenados, é lido por muitos intérpretes cristãos como cumprimento de , que fala do Servo sofredor sepultado "com o rico" apesar de morto como transgressor. Os evangelistas não citam Isaías aqui, mas registram os fatos: José é rico () e o túmulo é seu e nunca fora usado (; ). Em outras passagens, o Novo Testamento afirma que Cristo foi sepultado como parte do núcleo do evangelho (), e a existência de um túmulo conhecido e de uma pedra à entrada prepara o contraste com o túmulo vazio na manhã seguinte ao sábado.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
José de Arimateia era um homem rico e respeitado, membro do conselho dos líderes judeus, que se tornou seguidor de Jesus. Depois que Jesus morreu na cruz, José foi a Pilatos, o governador romano, e pediu o corpo para sepultá-lo. Ele envolveu o corpo em um lençol limpo e o colocou em um túmulo novo, cavado na rocha, que era dele. Os evangelhos dizem pouco mais sobre ele. As histórias sobre o Santo Graal e sobre uma viagem à Inglaterra aparecem muito depois e não estão na Bíblia.
O mundo dele
José de Arimateia aparece apenas nos relatos da Paixão, em Judeia, por volta de 30-33 d.C., sob o governo do prefeito romano Pôncio Pilatos. Mateus o chama de homem rico e discípulo de Jesus. Marcos o descreve como membro ilustre do conselho (bouleutes), isto é, do Sinédrio, a corte suprema judaica sediada em Jerusalém, e acrescenta que ele também esperava o reino de Deus. Lucas o apresenta como homem bom e justo, que não consentira no plano e na ação dos demais conselheiros. João diz que era discípulo em segredo, por medo das autoridades judaicas. Quanto à origem, Lucas indica apenas que era de Arimateia, cidade dos judeus; a localização exata é incerta, e a identificação mais comum a associa a Ramataim, terra de Samuel (), sem certeza.
O pedido de José tem um pano de fundo legal e cultural. A lei de Moisés mandava que o corpo de um executado pendurado em madeira não permanecesse ali durante a noite, mas fosse sepultado no mesmo dia (). Além disso, aquela sexta-feira era dia de preparação, e o sábado estava prestes a começar ao pôr do sol. Os romanos, por sua vez, costumavam deixar os crucificados expostos e sem sepultura, de modo que a entrega do corpo dependia de uma autorização do governador. Pedir o corpo era, portanto, um ato com risco social e político para um membro do conselho que havia condenado Jesus. Marcos registra que Pilatos estranhou o fato de Jesus já estar morto e só liberou o corpo depois de ouvir o centurião encarregado da execução. O túmulo escavado na rocha era típico de famílias com recursos na região de Jerusalém, e o fato de ser novo e de pertencer a José o torna uma tumba particular, não uma vala comum de condenados, e sugere que a família dele tinha recursos e posição social em Jerusalém.
A história
O que se pode afirmar sobre José vem de quatro textos curtos, e a sequência de ações é parecida em todos: ele vai a Pilatos, recebe o corpo, o envolve em linho e o põe em um túmulo na rocha, rolando uma pedra à entrada (; ; ; ). Cada evangelista acrescenta um traço próprio. Marcos diz que José "tomou coragem" para ir a Pilatos, o que sugere que o pedido exigiu vencer o medo. Lucas separa sua conduta da dos colegas. João traz Nicodemos, que leva uma mistura de mirra e aloés de cerca de cem libras, e indica que o túmulo ficava num jardim perto do lugar da crucificação, o que explica a escolha: era próximo e o sábado se aproximava.
Mateus, Lucas e João frisam que o túmulo era novo, onde ninguém havia sido posto. Para os leitores cristãos, o detalhe sustenta que não houve confusão sobre qual corpo ressuscitou. Muitos comentaristas também veem aqui um eco de , que fala de alguém que teve a sepultura "com os ricos" na sua morte, embora tivesse sido contado entre os transgressores. Nenhum evangelista cita Isaías neste ponto, de modo que a ligação é uma leitura de intérpretes, ainda que coerente com o fato de José ser um homem rico. O historiador Raymond Brown, em sua obra sobre a Paixão, argumenta que o sepultamento por José é um dos elementos mais plausíveis da tradição, justamente porque um membro do conselho que condenou Jesus dificilmente seria inventado como protagonista de um gesto de bondade. Outros estudiosos discordam desse grau de confiança, mas a maioria aceita que a tradição do sepultamento por alguém de fora do círculo dos discípulos próximos é antiga. Cabe lembrar também que a lei judaica sobre o sepultamento no mesmo dia explica por que um homem piedoso se sentiria obrigado a agir.
As lendas posteriores merecem distinção clara. A associação de José ao Santo Graal aparece no fim do século XII, no poema de Robert de Boron, onde o cálice da Última Ceia recolhe o sangue de Cristo. A história de que José teria levado o cristianismo a Glastonbury, na Inglaterra, cresce na Idade Média a partir de textos associados ao mosteiro local, e é reforçada por outra lenda, que o faz comerciante de estanho e tio de Jesus. Nenhum dos quatro evangelhos, nem qualquer escrito cristão dos primeiros séculos, afirma qualquer dessas coisas. Os próprios textos bíblicos são silenciosos sobre o destino de José após o sepultamento, e é nesse silêncio que as tradições posteriores foram sendo construídas.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:José de Arimateia levou o Santo Graal, o cálice da Última Ceia, para a Inglaterra.
Nenhum evangelho diz que José recolheu o sangue de Jesus ou que guardou o cálice. A história aparece pela primeira vez na literatura medieval, no fim do século XII, em obras de ficção cavaleiresca como a de Robert de Boron, escrita mais de mil anos depois dos fatos.
Dizem que:José de Arimateia foi à Inglaterra e fundou a primeira igreja em Glastonbury.
Os evangelhos e os Atos dos Apóstolos nada dizem sobre qualquer viagem de José. A tradição de Glastonbury é medieval, ligada ao prestígio do mosteiro local, e historiadores a tratam como lenda sem respaldo em fontes antigas.
Dizem que:José de Arimateia era tio de Jesus.
Essa afirmação só aparece em lendas tardias. Os evangelhos o apresentam apenas como homem rico, membro do conselho e discípulo, sem qualquer vínculo familiar com Jesus.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada
Calvino lê a atitude de José como uma graça especial dada a um homem que até então vivia na timidez. Ele vê no gesto uma lição sobre como Deus fortalece quem parecia fraco e sobre o cuidado providencial com o corpo de Cristo, em harmonia com a profecia de .
Ortodoxa
José e Nicodemos são lembrados na liturgia como "mirróforos", homens que levaram mirra, ao lado das mulheres que foram ao túmulo. A Igreja os celebra no Domingo das Mirróforas, o terceiro do ciclo pascal, vendo neles um exemplo de serviço devotado ao corpo do Senhor, mesmo depois da morte.
Católica
A tradição litúrgica e devocional católica enfatiza o gesto de piedade ao corpo de Cristo, presente nas estações da Via Sacra, e vê em José um modelo de caridade prática. As lendas do Graal e de Glastonbury pertencem à cultura medieval e não são tratadas como doutrina.
O que fazer com isso
José de Arimateia é lembrado por um único ato, mas um ato que lhe custou algo. Ele não foi corajoso o tempo todo, pois João diz que temia as autoridades, e foi só na hora em que ninguém mais se movia que agiu. Sua história lembra que a fidelidade nem sempre começa de forma pública ou segura, e que um gesto concreto de cuidado, mesmo tardio, pode importar mais do que declarações.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Raymond E. Brown. The Death of the Messiah: From Gethsemane to the Grave, 1994.
- João Calvino. Harmonia dos Evangelhos (Commentary on a Harmony of the Evangelists), 1555.
- Robert de Boron. Joseph d'Arimathie (Roman de l'estoire dou Graal).
- Craig S. Keener. The Gospel of John: A Commentary, 2003.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
José de Arimateia fazia parte do Sinédrio?
Sim, segundo Marcos e Lucas. Marcos o chama de membro ilustre do conselho e Lucas diz que ele não concordara com a decisão e a ação dos demais. O conselho em questão é entendido como o Sinédrio de Jerusalém.
Onde ficava Arimateia?
Lucas diz apenas que era uma cidade dos judeus. A localização exata é incerta. Uma identificação frequente a associa a Ramataim, terra natal de Samuel, na região montanhosa de Efraim, mas isso é uma hipótese.
O que a Bíblia diz sobre José de Arimateia depois do sepultamento?
Nada. O nome dele não aparece mais depois dos relatos do sepultamento, e os Atos dos Apóstolos e as cartas não o mencionam. Tudo o que se conta sobre viagens, Graal ou Glastonbury vem de lendas muito posteriores.
Por que o túmulo ser novo era importante?
Mateus, Lucas e João fazem questão de dizer que ninguém havia sido sepultado ali antes. Isso afasta qualquer dúvida sobre qual corpo foi colocado no túmulo, e muitos leitores também o ligam à profecia de .