
Por que Paulo disse ser fariseu para dividir o Sinédrio em Atos 23?
Paulo usou uma esperteza ao se declarar fariseu diante do Sinédrio, ou foi honesto?
E Paulo, sabendo que uma parte era de saduceus, e outra de fariseus, ele clamou no supremo conselho: Homens irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseu; pela esperança e ressurreição dos mortos eu estou sendo julgado. E ele, tendo dito isto, houve uma confusão entre os fariseus e saduceus; e a multidão se dividiu; Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo ou espírito; mas os fariseus declaram ambas. E houve uma grande gritaria; e levantando-se os escribas da parte dos fariseus, disputavam, dizendo: Nenhum mal achamos neste homem; e se algum espírito ou anjo falou com ele, não briguemos contra Deus.
Resposta curta
Diante do Sinédrio, Paulo percebe que o conselho é formado por saduceus e fariseus e declara: sou fariseu, filho de fariseus, e sou julgado pela esperança da ressurreição dos mortos. A reunião se divide. Os saduceus negam a ressurreição, os anjos e os espíritos; os fariseus afirmam as três coisas. Alguns escribas fariseus chegam a defender Paulo. O gesto parece manobra, mas Paulo não dizia nada falso: ele havia sido fariseu e a ressurreição era de fato o centro de sua defesa, como repete em e 26:6-8. Lucas não aprova nem condena a tática, mas mostra o Senhor animando Paulo na noite seguinte. A passagem pede honestidade para reconhecer o que há de estratégico nesse gesto e o que há de verdade.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoPaulo sustenta que a esperança fariseia da ressurreição dos mortos encontra em Jesus o seu cumprimento: Cristo é o primeiro a ressuscitar, e é por isso que Paulo está sendo julgado. A questão que divide o Sinédrio não é secundária, mas o coração do evangelho.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Paulo estava diante de um tribunal com dois grupos rivais. Os fariseus acreditavam em ressurreição, anjos e espíritos; os saduceus não acreditavam em nada disso. Ao dizer que era julgado pela esperança na ressurreição, Paulo disse algo verdadeiro e que colocou um grupo contra o outro. Foi uma jogada inteligente, mas baseada em fatos: Paulo realmente tinha sido fariseu e a ressurreição era o centro da sua mensagem.
Contexto histórico
Depois de ser salvo da multidão e da flagelação, Paulo é levado pelo tribuno Cláudio Lísias diante do Sinédrio, o conselho supremo dos judeus em Jerusalém, para que se descubra a causa da acusação (). O Sinédrio reunia o sumo sacerdote, os chefes dos sacerdotes, anciãos e escribas, e nele conviviam dois partidos principais: os saduceus, ligados à aristocracia sacerdotal, e os fariseus, mais próximos do povo e dos estudiosos da lei. Paulo começa dizendo que viveu diante de Deus com toda a boa consciência até aquele dia; o sumo sacerdote Ananias manda que o golpeiem na boca. Paulo reage chamando-o de parede branqueada e, quando alertado de que insultava o sumo sacerdote, reconhece que não sabia quem era e cita ().
Em seguida, Paulo percebe que o conselho tem duas facções e fala em voz alta: Varões irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus; é pela esperança e pela ressurreição dos mortos que sou julgado (v. 6). A reação é imediata. Surge uma contenda entre fariseus e saduceus, e a assembleia se divide. Lucas explica a razão em um parêntese: os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito, e os fariseus professam todas essas coisas (v. 8). Alguns escribas do partido dos fariseus se levantam e dizem que não acham mal nenhum nesse homem, e perguntam se não lhe teria falado algum espírito ou anjo (v. 9). A discussão fica tão violenta que o tribuno, temendo que Paulo seja despedaçado, manda os soldados retirá-lo à força e levá-lo de volta à fortaleza.
O pano de fundo histórico é bem conhecido. Josefo descreve os saduceus como um grupo de elite que aceitava apenas a lei escrita e negava a sobrevivência da alma e a vida após a morte, enquanto os fariseus ensinavam a imortalidade da alma e a ressurreição, além de valorizarem a tradição oral. Na noite seguinte, o Senhor se põe ao lado de Paulo e lhe diz que tenha ânimo, porque como testemunhou em Jerusalém também deve testemunhar em Roma (v. 11).
Aprofundamento
A pergunta central é ética: Paulo foi honesto ou esperto? A resposta honesta é que foi as duas coisas, e o texto não esconde isso. Quanto à verdade das palavras, não há mentira. Paulo havia sido educado como fariseu aos pés de Gamaliel (), diz em que quanto à lei era fariseu e em afirma que viveu como fariseu segundo a seita mais rigorosa. O verbo no presente, eu sou fariseu, pode ser entendido em sentido amplo: ele continuava pertencendo ao movimento judaico que esperava a ressurreição, agora convencido de que ela começara com Jesus. Também é verdade que a ressurreição era o ponto central do conflito. Em e 26:6-8 ele repete que é julgado pela esperança de Israel.
Quanto à estratégia, Paulo claramente sabia o que fazia. Percebeu a composição do conselho e escolheu um tema que dividiria os grupos. Alguns comentaristas veem nisso uma tática prudente e legítima, semelhante à sabedoria que Jesus recomenda em ao mandar ser prudentes como as serpentes e símplices como as pombas. Outros notam que o gesto deixa o julgamento sem solução e agrava o tumulto, e que Paulo acaba sendo levado de volta à prisão sem que a questão fosse decidida. Lucas não oferece juízo explícito. O que ele faz é mostrar que, na noite seguinte, o Senhor não repreende Paulo, e sim confirma sua missão (v. 11).
Para entender o efeito, convém comparar as duas crenças. Os fariseus afirmavam a ressurreição dos mortos no fim dos tempos, a existência de anjos e de espíritos e a providência de Deus junto com a responsabilidade humana. Os saduceus, reunidos em torno do sacerdócio do templo, aceitavam como autoridade principal a Torá escrita, negavam a ressurreição e a existência de seres espirituais como anjos e espíritos, e davam grande peso ao livre-arbítrio humano. A discussão em retoma outra, que Jesus já enfrentara em , quando os saduceus tentaram desacreditar a ressurreição com o caso da mulher que teve sete maridos.
Há ainda uma leitura mais profunda. Paulo não dividiu o Sinédrio por mero cálculo, mas apontou para o fato de que a sua fé em Jesus não era uma ruptura com Israel, e sim o cumprimento da esperança que os fariseus partilhavam. O que o fariseu não aceitou foi que a ressurreição já tivesse acontecido em Jesus. Quando os escribas dizem que talvez um anjo ou espírito lhe tenha falado, estão sem querer chegando perto do que ocorreu no caminho de Damasco. O resultado imediato foi um tumulto, mas a mensagem ficou clara: a ressurreição de Cristo é a questão de fundo.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Paulo mentiu ao dizer que era fariseu, porque já era cristão e tinha deixado o judaísmo.
Paulo nunca apresentou a fé em Jesus como abandono do judaísmo. Ele diz em que foi fariseu e em que viveu assim. A ressurreição que ensinava era justamente a esperança dos fariseus, que acreditava ter se cumprido em Cristo.
Dizem que:Os fariseus defenderam Paulo porque tinham acreditado em Jesus.
Os escribas fariseus apenas disseram que não achavam mal em Paulo e cogitaram que um anjo ou espírito lhe tivesse falado (). Era uma defesa de ocasião, em oposição aos saduceus, e não uma conversão.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Estratégia legítima
Paulo percebeu a divisão do conselho e usou a verdade de que era julgado pela ressurreição para frustrar uma sentença injusta, na linha da prudência recomendada em .
Gesto ambíguo
A manobra agravou o tumulto e deixou o caso sem solução. Lucas relata o resultado sem elogiar o método, e a fala de Paulo em mostra que ele manteve o foco no conteúdo da ressurreição.
Continuidade com Israel
Ao se dizer fariseu, Paulo afirma que o evangelho cumpre a esperança de Israel, e não a rejeita. A estratégia e a convicção coincidem.
No original3 termos
ἀνάστασιςanástasisG386
Ressurreição, literalmente levantar-se. Em designa a ressurreição dos mortos, ponto de discórdia entre fariseus e saduceus.
ΦαρισαῖοςPharisaîosG5330
Fariseu, membro do movimento que valorizava a lei e a tradição oral e cria na ressurreição, nos anjos e nos espíritos. A origem do nome costuma ser ligada à ideia de separados.
πνεῦμαpneûmaG4151
Espírito, vento, sopro. Em refere-se a seres espirituais, que os saduceus negavam e os fariseus aceitavam.
O que fazer com isso
Honestidade não exige ingenuidade. Paulo disse uma verdade, escolheu o ponto certo da verdade e assumiu o risco de dividir. A pergunta para quem fala de fé em ambientes hostis é se a estratégia está a serviço da verdade ou a substitui. Reconhecer pontos de contato com quem discorda é legítimo; usá-los apenas para manipular, não. Convém também lembrar que a divisão provocada foi pelo conteúdo da fé, e não por um ataque pessoal.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas (18.12-17), 93.
- F. F. Bruce. The Book of the Acts (NICNT), 1988.
- I. Howard Marshall. Acts (Tyndale New Testament Commentaries), 1980.
- Craig S. Keener. Acts: An Exegetical Commentary, vol. 3, 2014.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Os saduceus realmente não acreditavam em anjos?
Segundo Lucas em , eles negavam a ressurreição, os anjos e os espíritos. Josefo confirma a negação da vida após a morte. Como aceitavam apenas a lei escrita, rejeitavam doutrinas que não viam nela de forma explícita.
Paulo se arrependeu dessa estratégia?
Lucas não diz. Em , diante de Félix, Paulo retoma a mesma declaração, dizendo que era julgado pela ressurreição dos mortos, e não demonstra arrependimento. Na noite seguinte à cena, o Senhor o anima, sem repreendê-lo.
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