Herodes Arquelau
Quem foi Herodes Arquelau na Bíblia?
Ficha do personagem
Cerca de 4 a.C.-6 d.C.; Judeia
Relações
- filho de Herodes, o Grande
- irmão de Herodes Antipas
- meio-irmão de Herodes Filipe
- temido por José
Resposta curta
Herodes Arquelau foi um dos filhos de Herodes, o Grande, e governou a Judeia, a Samaria e a Iduméia depois da morte do pai, por volta de 4 a.C. Aparece na Bíblia uma única vez com seu nome, em : ao saber que Arquelau reinava na Judeia, José teve medo de voltar para lá com Maria e o menino Jesus, e, avisado em sonho, foi morar em Nazaré, na Galileia. A fama de violência que ele tinha, confirmada pelo historiador Flávio Josefo, explica o receio. Outro texto, a parábola das minas em , é lido por alguns estudiosos como eco de sua viagem a Roma, mas o evangelho não cita seu nome, e essa ligação é apenas uma hipótese debatida.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteArquelau aparece no relato como um governante cuja autoridade se impõe pelo medo, a ponto de uma família fugir dele. O mesmo evangelho de Mateus apresenta, mais adiante, Jesus como rei de outro tipo: manso, entrando em Jerusalém montado em um jumento (). O contraste está na narrativa e na escolha de palavras do evangelista, que usa o verbo "reinar" para ambos, e não em uma profecia específica sobre Arquelau.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Herodes Arquelau era filho de Herodes, o Grande, o rei que tentou matar o menino Jesus. Depois da morte do pai, Arquelau passou a governar a região da Judeia. A Bíblia só o cita uma vez, em , quando José, voltando do Egito com Maria e Jesus, teve medo de ir para a Judeia por causa dele e, avisado em sonho, foi morar em Nazaré, na Galileia. O historiador judeu Josefo diz que Arquelau era violento e que foi tirado do poder pelos romanos. Por isso, o nome dele ajuda a entender por que Jesus cresceu em Nazaré.
O mundo dele
Arquelau era filho de Herodes, o Grande, e de Maltace, uma samaritana, e portanto irmão de Herodes Antipas. Herodes, o Grande, morreu em 4 a.C., segundo a cronologia mais aceita, e deixou testamento dividindo o reino entre os filhos. Como o Império Romano controlava a sucessão dos reis aliados, Arquelau viajou a Roma para que Augusto confirmasse a decisão. Segundo Josefo (Antiguidades Judaicas 17), o imperador lhe deu a metade do reino, a Judeia, a Samaria e a Iduméia, mas com o título menor de etnarca, que significa governante de um povo, e prometeu o título de rei se ele se mostrasse digno. Antipas recebeu a Galileia e a Peréia, e Filipe, outros territórios ao norte e a leste. Esses dois ficaram como tetrarcas, título que designava, em princípio, o governante de uma quarta parte de um território, mas que também era usado de modo mais flexível para governantes subordinados a Roma. Os três irmãos, portanto, dependiam do imperador para manter o que haviam herdado.
Mateus usa o verbo "reinar", e isso não contradiz Josefo: no uso popular, o governante de uma região podia ser chamado de rei. Tampouco é incomum que os evangelhos usem esse tipo de linguagem para a família herodiana, como se vê em , onde Antipas é chamado de rei, embora fosse tetrarca.
O começo do governo foi marcado por turbulência. Josefo conta que, logo após a morte de Herodes, a multidão reunida em Jerusalém para a Páscoa se agitou e Arquelau mandou o exército reprimi-la, com milhares de mortos, número que o historiador estima em cerca de três mil. Depois disso viajou a Roma, e uma delegação de judeus também foi até lá para se opor a ele. Retornando como etnarca, reinou cerca de dez anos. Em 6 d.C., após queixas de judeus e samaritanos, Augusto o depôs e o exilou em Viena, na Gália. A Judeia passou então a ser governada diretamente por prefeitos romanos, e foi nesse momento que ocorreu o recenseamento ligado ao nome de Quirínio.
A história
A única menção direta a Arquelau na Bíblia está em : "Ouvindo, porém, que Arquelau reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, receou ir para lá; e, avisado em sonho, retirou-se para as regiões da Galileia". O contexto é o retorno da família do Egito, depois da morte de Herodes, o Grande (). José pretendia voltar para a terra de Israel e, ao ouvir quem governava a Judeia, mudou de planos. O texto fala em temor e em orientação divina por sonho, e é nesse ponto que se explica a escolha de Nazaré ().
Há uma diferença de relato entre Mateus e Lucas. Lucas diz que, depois de cumpridos os ritos no templo, a família voltou "para a Galileia, à sua cidade de Nazaré" (), sem mencionar Egito nem Arquelau. Comentaristas harmonizam os dois de maneiras diferentes e não há consenso sobre a ordem exata dos fatos. Em qualquer dos casos, Nazaré fica na Galileia, território de Antipas, e não de Arquelau.
A hipótese ligada a merece cautela. Na parábola das minas, um homem nobre vai a "um país distante" para receber um reino e voltar; seus cidadãos o odeiam e enviam uma embaixada, dizendo: "Não queremos que este reine sobre nós" (). Ao voltar como rei, manda matar os inimigos. Alguns estudiosos notam que isso lembra a viagem de Arquelau a Roma e a delegação judaica que a ela se opôs, e observam que Jesus contou a parábola perto de Jericó (), onde Arquelau tinha construído um palácio, segundo Josefo. Outros preferem ler a parábola em chave puramente teológica, sobre a volta e o juízo do Messias, sem referência a um fato político concreto. O texto não menciona Arquelau, e a ligação permanece apenas uma leitura possível.
Também vale lembrar que Josefo faz acusações adicionais contra Arquelau, como o casamento com Glafira, viúva de seu irmão Alexandre, que tinha deixado filhos, o que, segundo o próprio Josefo, a lei judaica proibia nessas circunstâncias (Antiguidades 17.13). Essas informações vêm de uma fonte única e de um autor com seus próprios interesses, mas coincidem com o quadro de um governo impopular.
Do ponto de vista histórico, Arquelau é um exemplo da fragilidade política dos herodianos diante de Roma. Seu governo violento custou-lhe o cargo, e o território passou ao controle direto de prefeitos romanos, como Pôncio Pilatos mais tarde. É nesse cenário que o evangelho, em sua narrativa da infância, coloca a decisão de José: mais do que um detalhe de geografia, o texto mostra que o ambiente político da Judeia era perigoso para a criança desde o começo.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Arquelau foi o Herodes que mandou matar os meninos de Belém.
Segundo , o responsável foi Herodes, o Grande, pai de Arquelau, que já havia morrido quando José volta do Egito (). Arquelau é o filho que o sucede na Judeia.
Dizem que:Lucas 19 afirma que a parábola das minas fala de Arquelau.
O texto de Lucas não cita Arquelau, e nenhum evangelho liga a parábola a ele. Trata-se de uma leitura de alguns estudiosos modernos, baseada na semelhança com a viagem a Roma contada por Josefo, e que outros rejeitam.
Dizem que:Arquelau foi oficialmente rei da Judeia.
Segundo Josefo, Augusto lhe deu o título de etnarca e prometeu o de rei apenas se ele se mostrasse digno. O verbo de reflete linguagem corrente, não o título oficial.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Lê o episódio como parte da proteção providencial da Sagrada Família, em que a obediência de José à orientação recebida em sonho resguarda o menino. A mudança para Nazaré é vista como disposição de Deus, ligada ao cumprimento anunciado em . Sobre , costuma haver cautela quanto a uma referência histórica direta.
Protestante
Muitos comentaristas evangélicos leem como relato histórico direto, que mostra o cuidado de Deus em meio a ameaças políticas. Quanto a , há divisão: alguns aceitam o eco de Arquelau como pano de fundo possível da parábola, outros preferem uma leitura estritamente teológica.
Ortodoxa
A tradição ortodoxa recorda a viagem ao Egito e a volta à Galileia nos textos litúrgicos ligados ao Natal e à Fuga para o Egito, vendo a proteção do Cristo menino como sinal de que a ameaça humana não frustra o plano de Deus. Os textos litúrgicos não se detêm em Arquelau como figura histórica.
O que fazer com isso
A menção a Arquelau lembra que a história de Jesus acontece em um mundo concreto, com governantes e riscos reais, e que decisões aparentemente pequenas, como o lugar onde uma família vai morar, podem ter vindo de um temor razoável e de uma orientação recebida. O texto não romantiza o medo de José nem o condena: apresenta a prudência diante do perigo como parte do cuidado que a narrativa atribui a Deus.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas (livros 17 e 18), 93.
- Flávio Josefo. A Guerra dos Judeus (livro 2), 75.
- Peter Richardson. Herod: King of the Jews and Friend of the Romans, 1996.
- Joseph A. Fitzmyer. The Gospel According to Luke X–XXIV (Anchor Bible), 1985.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem foi Herodes Arquelau?
Filho de Herodes, o Grande, e de Maltace. Governou a Judeia, a Samaria e a Iduméia como etnarca, de cerca de 4 a.C. até 6 d.C., quando Augusto o depôs e o exilou. Mateus é a única passagem do Novo Testamento que o menciona pelo nome.
Por que José teve medo de Arquelau?
só diz que ele soube que Arquelau reinava na Judeia e teve receio. Josefo conta que Arquelau reprimiu com violência uma agitação logo após assumir, o que ajuda a entender o temor, embora Mateus não detalhe os motivos.
Arquelau é o rei da parábola das minas?
A Bíblia não diz isso. Alguns estudiosos veem na parábola de um eco de sua viagem a Roma, mas outros leem a passagem apenas como ensino sobre o reino de Deus. É uma hipótese, não uma afirmação do texto.
O que aconteceu com Arquelau depois?
Segundo Josefo, em 6 d.C. foi deposto por Augusto após acusações de judeus e samaritanos e enviado a Viena, na Gália. Sua região passou a ser governada diretamente por prefeitos romanos.