
Onde está escrito que o Messias seria chamado de Nazareno?
Onde no Antigo Testamento diz que o Messias seria chamado de Nazareno?
E veio a habitar na cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas, que: Ele será chamado de Nazareno.
Resposta curta
Depois de fugir do Egito com Maria e o menino Jesus, José evita a Judeia, onde Arquelau reinava no lugar de Herodes, e se estabelece em Nazaré, na Galileia. Mateus fecha o episódio dizendo que isso cumpriu "o que foi dito pelos profetas, que: Ele será chamado de Nazareno" (). O problema é concreto: nenhum livro do Antigo Testamento traz essa frase, nem nada parecido, palavra por palavra.
A explicação mais aceita entre os estudiosos não fala de uma citação perdida, mas de um jogo de palavras deliberado. "Nazareno", em grego, soa como o termo hebraico para "renovo" (nezer), usado em sobre o Messias que brota do tronco cortado de Jessé, e ecoa também o tema do servo desprezado de . Mateus resume, numa só palavra, um fio profético espalhado por vários textos.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoMateus não aponta para um único versículo, mas tece duas linhas proféticas que convergem em Jesus. A primeira é a imagem do renovo (nezer) que brota do tronco cortado de Jessé em — o Messias que restaura uma linhagem davídica humilhada, quase extinta, e não uma monarquia em seu esplendor. A segunda é o tema do servo desprezado e sem estima de e do rejeitado de . Ao crescer numa cidade tão insignificante que nem aparece no Antigo Testamento, sujeita ao desdém de quem vivia mais ao sul (), Jesus encarna esse padrão: o Messias que vem de baixo, contrariando a expectativa de um libertador glorioso e imediatamente reconhecível. Mateus não cita uma frase, mas mostra que o próprio lugar onde Jesus foi criado já carregava, no som do seu nome, o eco de uma trajetória profética inteira.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
narra o retorno da família de Jesus depois da fuga para o Egito. Um anjo avisa José, em sonho, que os que buscavam matar o menino já haviam morrido — Herodes, o Grande, morreu por volta de 4 a.C. — e a família volta "para a terra de Israel" (v. 21), expressão que, à primeira vista, sugeria um retorno à Judeia, região de Belém, terra natal de Davi e destino esperado do Messias. Mas José recebe um segundo aviso: Arquelau, filho de Herodes, reinava justamente na Judeia, e era conhecido por sua dureza; o historiador judeu Flávio Josefo relata que, logo no início de seu governo, ele mandou reprimir com violência uma revolta em Jerusalém. Por isso José evita a Judeia e se instala, num território sob outro governante (Herodes Antipas), na Galileia — mais precisamente na cidade de Nazaré.
Nazaré era um povoado pequeno e sem prestígio na Galileia do século I; não é mencionada nem uma vez no Antigo Testamento, no Talmude ou nos escritos de Josefo, e o comentário de Natanael em — "Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" — reflete o desdém com que a região era vista, sobretudo pelos judeus da Judeia mais ao sul. Escolher viver ali, em vez de voltar à terra de Davi, era uma reviravolta geográfica que pedia explicação teológica.
É nesse ponto que Mateus fecha o episódio com sua fórmula característica de cumprimento profético, usada dez vezes ao longo do evangelho para mostrar que a vida de Jesus corresponde às Escrituras. Nas outras nove ocorrências, ele cita um profeta específico — Isaías, Jeremias, Miqueias, Oseias — com uma frase localizável no texto do Antigo Testamento. é a exceção: fala genericamente "pelos profetas", no plural, sem nome, e a frase "Ele será chamado de Nazareno" não corresponde a nenhum versículo conhecido nos manuscritos que chegaram até nós. Comentaristas como R.T. France e D.A. Carson notam essa diferença gramatical proposital, sugerindo que Mateus não copia uma linha específica, mas resume uma ideia presente em múltiplos profetas.
Aprofundamento
A chave para entender está na palavra "profetas", no plural, sem nenhum nome próprio anexado — algo que não acontece nas outras nove citações de cumprimento do evangelho. Isso sinaliza que Mateus não pretende reproduzir uma frase que existe literalmente em algum rolo profético perdido, mas sintetizar um tema espalhado por várias vozes proféticas. A proposta mais discutida entre os comentaristas liga "Nazareno" (em grego, Ναζωραῖος) a uma semelhança sonora com o termo hebraico nezer, "renovo" ou "broto", usado em : "brotará um renovo do tronco de Jessé". Esse texto profetiza um rei davídico que surge não do tronco vivo e poderoso da monarquia, mas de um toco cortado — uma linhagem humilhada, quase extinta. Keil e Delitzsch, em seu comentário clássico sobre Isaías, tratam esse "renovo" como uma das imagens messiânicas centrais do livro. Ao registrar que Jesus cresceu em Nazaré — cidade tão insignificante que nem aparece no Antigo Testamento — Mateus sugere, por meio de um trocadilho, que o próprio nome da cidade ecoa essa profecia do broto humilde.
Uma segunda linha de leitura, também comum entre os comentaristas, liga o versículo ao tema do desprezo que marca a figura do servo sofredor: "desprezado e rejeitado" () e "eu sou verme, e não homem; opróbrio dos homens, e desprezado do povo" (). Como Nazaré era vista com desdém pelos judeus da Judeia, ser chamado de "nazareno" já carregava, na época, um tom pejorativo — o que se encaixaria no padrão de rejeição que vários profetas atribuem ao Messias. Craig Blomberg e D.A. Carson discutem essas duas leituras, a do renovo e a do desprezo, como complementares, não concorrentes: ambas apontam para um Messias que vem de baixo, contra a expectativa de glória imediata. Vale registrar que alguns estudiosos questionam a ligação sonora entre nezer e Ναζωραῖος, por causa da diferença entre as consoantes hebraicas envolvidas, o que mantém o debate filológico aberto sem invalidar o ponto teológico maior.
Vale notar, ainda, que ligar palavras por semelhança de som e raiz, sem citar o texto ao pé da letra, era uma prática reconhecida na interpretação judaica do primeiro século, um tipo de alusão que os estudiosos chamam de remez. R.T. France observa que esse tipo de leitura não era incomum entre os próprios contemporâneos judeus de Jesus, que liam as Escrituras buscando ecos e conexões, não apenas citações exatas. Isso não torna a citação arbitrária: Mateus escreve para um público que reconheceria a conexão entre o som de "Nazareno" e o vocabulário messiânico já presente nas Escrituras, mesmo sem uma referência exata de capítulo e versículo.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Essa profecia existia em um livro perdido da Bíblia que não chegou até nós.
Não há nenhuma evidência de um livro profético canônico perdido com essa frase; a explicação mais aceita entre os estudiosos é uma alusão sonora e temática a textos que já temos, como , não uma citação de uma obra desaparecida.
Dizem que:"Nazareno" é apenas outra forma de dizer "nazireu", o voto que pessoas como Sansão faziam de não cortar o cabelo.
São palavras de origem diferente: "nazareno" vem do nome da cidade de Nazaré, enquanto "nazireu" vem da raiz hebraica nazar, "consagrar-se". A semelhança é só sonora, e o Novo Testamento nunca associa Jesus ao voto do nazireado.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Segue a leitura patrística, que remonta a Jerônimo, associando "Nazareno" ao nezer de : Jesus é o renovo messiânico que brota da linhagem humilhada de Davi, e sua criação em Nazaré confirma essa figura profética.
Reformada
Entende a citação como uma síntese temática, não uma referência textual literal: Mateus resume, com uma palavra só, o padrão profético do Messias humilde e desprezado presente em vários profetas, sem necessidade de localizar uma frase exata.
Ortodoxa
Enfatiza a tradição grega antiga que já ouvia em Ναζωραῖος um eco de consagração e separação para Deus, lendo o título como confirmação de que Jesus, desde a infância, é o Santo enviado por Deus, ainda que morando numa cidade desprezada.
Luterana
Confia na autoridade apostólica de Mateus mesmo sem localizar o texto exato: se o evangelista, sob inspiração, afirma que os profetas anteciparam esse título, cabe à igreja aceitar a afirmação e buscar com humildade exegética qual conjunto de textos ele tinha em mente, sem que a dificuldade abale a confiança na Escritura.
No original3 termos
ΝαζωραῖοςNazōraiosG3480
"Nazareno", gentílico formado a partir do nome da cidade de Nazaré; título aplicado a Jesus neste versículo.
ΝαζαρέτNazaretG3478
Nazaré, a cidade da Galileia onde a família se estabelece e onde Jesus é criado.
πληρωθῇplērōthēG4137
forma verbal de "cumprir-se, tornar-se pleno", usada na fórmula de cumprimento profético que Mateus repete ao longo do evangelho.
O que fazer com isso
Esse tipo de dificuldade é um bom lembrete de que a Bíblia às vezes exige mais do que uma leitura rápida — ela recompensa quem volta ao texto, compara passagens e pergunta por que um autor escreveu de um jeito específico. Antes de concluir que um versículo "não bate" ou tem erro, vale pesquisar como ele foi lido por quem conhecia bem as Escrituras hebraicas. O que parece uma referência perdida costuma ser, na verdade, uma conexão que fazia sentido para os primeiros leitores.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- R.T. France. The Gospel of Matthew (NICNT), 2007.
- D.A. Carson. Matthew (The Expositor's Bible Commentary), 1984.
- Craig L. Blomberg. Matthew (The New American Commentary), 1992.
- C.F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Isaiah, 1866.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
"Nazareno" é o mesmo que "nazireu"?
Não. São palavras parecidas no som, mas de origem diferente. "Nazareno" vem do nome da cidade de Nazaré; "nazireu" vem de uma raiz hebraica ligada a consagração, usada para pessoas como Sansão, que faziam votos especiais.
Existe algum livro perdido da Bíblia com essa profecia?
Não há evidência disso. A explicação mais aceita é que Mateus está aludindo, por semelhança de som e tema, a textos que já temos no Antigo Testamento, como e , e não citando uma obra que desapareceu.
Por que Mateus diz "profetas", no plural, sem citar nenhum pelo nome?
Porque, ao contrário das outras nove vezes em que usa essa fórmula de cumprimento no seu evangelho, aqui ele não copia uma frase de um profeta específico, mas resume um tema que aparece espalhado em vários textos proféticos.
Isso significa que Mateus cometeu um erro ao citar o Antigo Testamento?
A maioria dos comentaristas não vê erro, mas um estilo de leitura comum no judaísmo do primeiro século, que conectava palavras por som e raiz sem exigir uma citação literal — um recurso reconhecido, não uma falha de precisão.
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